Vídeos disseminados nas redes sociais prometem facilidades tentadoras para quem contratou o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) antes de 2017. Segundo essas publicações, seria possível zerar os juros cobrados nos contratos antigos e até recuperar parte dos valores já pagos — em alguns posts, o retorno anunciado chega a 40%. No entanto, a apuração de especialistas e decisões judiciais recentes indicam que essas promessas não se confirmam na prática e podem gerar ainda mais prejuízos aos estudantes.
Dinheiro do FIES: quem contratou até 2017 tem juros zerados? entenda os riscos de propostas virais
Entenda por que vídeos que prometem juros zero e devolução no Fies de 2017 são enganosos e podem gerar dívidas ao estudante.
O conteúdo viral, publicado majoritariamente por perfis de advogados e escritórios de advocacia, utiliza linguagem técnica, frases alarmistas e estratégias de clickbait para atrair estudantes endividados. Mas o embasamento jurídico apresentado nos vídeos não condiz com o entendimento atual da Justiça nem com o funcionamento do programa.
A seguir, o Seu Crédito Digital apresenta um panorama completo e detalhado sobre o tema, explicando o que é mito, o que é real, quais são os riscos e quais alternativas realmente existem.
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O que os vídeos nas redes sociais prometem
Diversos vídeos afirmam que estudantes que assinaram contratos do Fies até 2017 teriam direito a dois benefícios principais:
Revisão judicial para aplicar juros zero retroativamente
Os produtores de conteúdo alegam que, como contratos firmados a partir de 2018 passaram a ter juros zero, o mesmo benefício deveria valer para contratos antigos. Assim, bastaria entrar com uma ação judicial para zerar a taxa cobrada ao longo dos anos.
Devolução de até 40% dos valores pagos
Outra promessa amplamente divulgada é a possibilidade de receber de volta parte dos valores já pagos ao Fies, sob o argumento de que os juros exigidos até 2017 seriam abusivos e ilegais.
Essas afirmações utilizam conceitos jurídicos como “retroatividade”, “taxas abusivas” e “princípio da isonomia” para dar peso ao discurso. Entretanto, especialistas alertam que esses argumentos isolados não garantem vitória judicial — e, na maioria dos casos, levam a decisões contrárias aos estudantes.
O entendimento judicial atual: o que realmente vale
Para esclarecer o debate, é fundamental observar o que diz o órgão que defende a União nos processos: a Advocacia-Geral da União (AGU). Em setembro deste ano, a AGU conseguiu uma vitória importante na Turma Nacional de Uniformização da Justiça Federal (TNU), que derrubou a tese de retroatividade dos juros zero para contratos do FIES anteriores a 2018.
Decisão da TNU é desfavorável aos estudantes
A decisão da TNU estabeleceu que contratos assinados até 2017 não podem ser ajustados para juros zero, pois a mudança aplicada pelo Novo Fies não possui efeito retroativo. A tese, portanto, não encontra respaldo jurídico até o momento.
Segundo especialistas, essa decisão funciona como precedente e tende a ser seguida pelos Tribunais Regionais Federais (TRFs) em casos semelhantes.
Especialista alerta para riscos financeiros
Henrique Silveira, sócio de educação do escritório Mattos Filho, explica que a decisão da TNU não impede que advogados entrem com novas ações em instâncias diferentes. No entanto, ele chama a atenção para o risco financeiro.
Possíveis custos para quem perde a ação
Quando o estudante não tem direito à gratuidade da Justiça e perde a causa, ele pode ter de pagar:
- honorários de sucumbência
- valores estabelecidos pelo juiz, que podem chegar a até 20% do valor da ação
Esse custo pode representar um prejuízo significativo, especialmente em processos envolvendo financiamentos estudantis de longo prazo e valores acumulados.
Silveira afirma que, diante da decisão favorável à AGU, a tendência é de que ações desse tipo continuem a ser rejeitadas, o que aumenta o risco de dívidas adicionais para o aluno.
AGU comemora vitória e aponta risco de rombo bilionário
Em nota, a Advocacia-Geral da União destacou que a decisão preserva a sustentabilidade do programa e evita um rombo estimado em mais de R$ 90 bilhões aos cofres públicos. A autarquia argumenta ainda que os contratos anteriores a 2017 não são necessariamente menos vantajosos.
Correção pelo IPCA pode ser até mais alta que juros antigos
Embora o Novo Fies adote juros zero, ele aplica correção monetária pelo IPCA. Em períodos de inflação elevada, essa correção pode superar as taxas de 3,4% a 6,5% cobradas antes de 2018.
Ou seja: o argumento de que o Novo Fies é sempre mais barato não se sustenta plenamente.
Como funcionou a mudança no Fies a partir de 2018
Em 2017, o governo federal anunciou uma reformulação completa no Fies, com o objetivo de reduzir os índices de inadimplência e tornar o programa mais sustentável.
Principais mudanças aplicadas
A partir de 2018, o programa passou a operar com:
- juros zero nos contratos
- correção monetária pelo IPCA
- critérios mais rígidos de aprovação
- novas modalidades de financiamento
- maior exigência de comprovação de renda
A mudança ocorreu porque o Fies enfrentava dificuldade fiscal e impactava fortemente o orçamento da União.
É possível renegociar contratos antigos?
Apesar de a retroatividade dos juros zero não ter validade jurídica, existem alternativas legítimas para estudantes com contratos assinados até 2017.
Renegociações com descontos de até 92%
Em 2022, o governo federal lançou um amplo programa de renegociação para estudantes inadimplentes. A medida permitiu a renegociação de dívidas com descontos que chegavam a:
- 92% para estudantes em situação de vulnerabilidade
- 77% para demais estudantes
- condições facilitadas de parcelamento
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Essa iniciativa focava contratos formalizados até 2017.
Janelas posteriores de renegociação
Após o sucesso da primeira rodada, outras fases de renegociação foram abertas, com mudanças no público-alvo. A etapa mais recente permite renegociar dívidas de contratos firmados a partir de 2018, ampliando o alcance da medida.
Vale a pena entrar com ação judicial?
Especialistas são unânimes: é preciso cautela.
O que considerar antes de entrar na Justiça
- A jurisprudência atual é desfavorável.
- As chances de vitória são baixas.
- Os custos de sucumbência podem ser altos.
- Promessas generalistas e vídeos virais não refletem decisões reais.
Como identificar promessas enganosas
Profissionais sérios costumam:
- evitar garantias absolutas
- apresentar riscos
- explicar jurisprudências
- avaliar o caso individualmente
Perfis que prometem resultados milagrosos geralmente ignoram a complexidade jurídica envolvida.
O que dizem os órgãos públicos?
O Ministério da Educação foi procurado, mas encaminhou o questionamento ao Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), responsável pelo Fies. A Advocacia-Geral da União também foi consultada. Nenhum dos dois órgãos respondeu até o fechamento desta reportagem.
O espaço segue aberto para manifestações oficiais.
Conclusão
Apesar de vídeos nas redes sociais sugerirem que estudantes com contratos do Fies assinados até 2017 podem zerar juros e recuperar valores pagos, a Justiça Federal tem decidido de forma contrária a essas teses. A AGU obteve decisão importante garantindo que a regra dos contratos pós-2018 não vale para contratos antigos. Assim, recorrer à Justiça pode não só não trazer o benefício desejado, como ainda gerar custos adicionais.
Para estudantes com dificuldades financeiras, as renegociações já oferecidas pelo governo são alternativas muito mais seguras e eficazes do que ações judiciais incertas.
Com Informações de: G1
Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital
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