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Mercado de FIIs entra em alerta após nova rodada de quedas

FIIs recuam em agosto e alguns fundos acumulam perdas superiores a 40%. Entenda os motivos e os principais riscos para investidores.

Melissa BarbosaPor Melissa Barbosa··10 min de leitura
FIIs

Os fundos imobiliários (FIIs) atravessaram um período de forte volatilidade em agosto. O IFIX, principal índice de referência do segmento na B3, acumulou queda de 4,32% nos 30 dias anteriores a 20 de agosto. Em alguns casos, porém, a desvalorização foi muito maior: entre os fundos citados no período, as perdas ultrapassaram 40%.

A combinação de juros elevados, incertezas no cenário macroeconômico e problemas específicos de determinados fundos aumentou a cautela dos investidores. Redução de dividendos, exposição a empresas em recuperação judicial, alavancagem e novas emissões de cotas também apareceram entre os fatores que pressionaram algumas carteiras.

A queda, entretanto, não significa que todos os FIIs estejam enfrentando dificuldades. Para entender o que está acontecendo, é preciso analisar os fundamentos de cada fundo e o motivo específico por trás da desvalorização.

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Por que os fundos imobiliários estão caindo?

FIIS
Imagem: Edição/ Seu Crédito Digital

O movimento ocorre em um momento de maior pressão sobre os ativos de risco. Com os juros elevados, investimentos de renda fixa podem se tornar mais atrativos para parte dos investidores, reduzindo o interesse por ativos que apresentam maior volatilidade, como os fundos imobiliários negociados em bolsa.

Quando as taxas de juros permanecem altas, os investidores também podem exigir uma remuneração maior para manter posições em FIIs. Isso tende a pressionar o preço das cotas no mercado secundário.

O cenário macroeconômico, contudo, não explica sozinho todas as quedas. Alguns fundos passaram por situações específicas que aumentaram a percepção de risco e fizeram suas cotas recuarem muito mais do que o IFIX.

Quais fundos mais caíram no período?

Entre os fundos destacados no levantamento, as maiores perdas foram:

FundoQueda
Mérito42,14%
Tellus19,43%
HSI Log19,26%
BB Prem Mall17,62%
TRX16,97%

A diferença entre o desempenho do IFIX e o de determinados fundos mostra que não é possível avaliar o mercado de FIIs como um bloco único.

Cada fundo possui uma carteira, uma estratégia e uma estrutura financeira própria.

Mérito acumula queda superior a 40%

O Mérito foi o fundo com a maior desvalorização entre os exemplos analisados. As cotas acumularam queda de 42,14% no período.

Um dos fatores associados ao movimento foi a redução dos rendimentos distribuídos pelo fundo. A mudança aumentou a preocupação dos investidores sobre a capacidade de manutenção das distribuições.

Esse tipo de situação pode ter impacto significativo na cotação porque muitos investidores procuram FIIs justamente pela possibilidade de receber rendimentos periódicos.

Quando existe uma redução relevante e o mercado entende que ela pode ser persistente, as expectativas sobre o fundo também são revistas.

Tellus também enfrenta pressão sobre os rendimentos

O Tellus registrou queda de 19,43%.

Assim como no caso do Mérito, a redução dos dividendos esteve entre os fatores que contribuíram para o aumento da cautela dos investidores.

O episódio reforça uma questão importante para quem acompanha FIIs: o rendimento distribuído em determinado mês não deve ser analisado isoladamente.

É necessário entender a origem da receita, verificar se ela é recorrente e avaliar a capacidade do fundo de manter aquele nível de distribuição.

HSI Log tem exposição à Casas Bahia

O HSI Log caiu 19,26% no período.

Entre os fatores que aumentaram a percepção de risco está a exposição relevante do fundo à Casas Bahia, que entrou com pedido de recuperação judicial.

Quando um locatário passa por dificuldades financeiras, investidores podem questionar a capacidade de pagamento dos aluguéis e a continuidade dos contratos.

Isso não significa automaticamente que o fundo perderá a receita. O impacto depende dos imóveis envolvidos, das condições contratuais e da possibilidade de substituir o locatário.

Em fundos de imóveis, a capacidade de encontrar novos inquilinos é justamente uma das características que precisa ser considerada na avaliação do risco.

BB Prem Mall chama atenção pelo nível de alavancagem

O BB Prem Mall acumulou queda de 17,62%.

Nesse caso, uma das preocupações mencionadas no mercado está relacionada ao nível de alavancagem do fundo.

Na prática, a alavancagem ocorre quando o fundo utiliza recursos de terceiros, como dívidas, para financiar parte de suas operações ou aquisições.

A estratégia pode ampliar o potencial de retorno, mas também aumenta a exposição a riscos financeiros. Juros elevados, dificuldades de refinanciamento ou redução da geração de caixa podem ter efeitos maiores sobre fundos mais alavancados.

TRX recua após emissão de novas cotas

O TRX registrou queda de 16,97% em meio a uma emissão bilionária de novas cotas.

As emissões são utilizadas pelos fundos para captar recursos e financiar novas aquisições, entre outras estratégias.

O problema não está necessariamente na emissão em si. A reação dos investidores depende das condições da operação, do preço das novas cotas, do destino dos recursos e da expectativa de retorno dos ativos que serão adquiridos.

Em períodos de mercado pressionado, novas emissões também podem aumentar a cautela dos investidores.

Segundo Marilia Fontes, apresentadora do Resenha do Dinheiro, diversos FIIs realizaram emissões em um momento de preços mais baixos, buscando recursos para comprar novos prédios e galpões.

Uma queda de 40% significa que o FII está barato?

Não necessariamente.

Uma das armadilhas para o investidor é interpretar uma grande queda como sinônimo de oportunidade.

Um fundo que caiu 40% pode realmente estar descontado em relação ao valor de seus ativos. Mas também pode estar sendo precificado dessa maneira porque o mercado passou a enxergar problemas relevantes em sua capacidade de gerar renda ou preservar patrimônio.

Por isso, a pergunta mais importante não é apenas “quanto caiu?”, mas “por que caiu?”.

Se a queda ocorreu principalmente por uma mudança temporária na percepção de juros, a situação pode ser diferente daquela em que o fundo perdeu um locatário importante, aumentou excessivamente suas dívidas ou sofreu deterioração permanente em seus ativos.

O que analisar antes de comprar um FII em queda?

Para quem está avaliando um fundo depois de uma forte desvalorização, alguns indicadores merecem atenção.

Vacância

A vacância representa a parcela dos imóveis que está desocupada.

Quanto maior a vacância, maior pode ser a pressão sobre a receita do fundo. Entretanto, também é necessário avaliar a qualidade dos imóveis e a facilidade de encontrar novos locatários.

Um imóvel bem localizado e com alta demanda pode ter capacidade de recuperação mais rápida.

Qualidade dos imóveis

Localização, padrão construtivo, finalidade e demanda regional estão entre os fatores que ajudam a determinar a qualidade de um imóvel.

Dois fundos podem apresentar dividendos semelhantes, mas possuir carteiras completamente diferentes em termos de qualidade e risco.

Perfil dos inquilinos

Também é necessário verificar quem ocupa os imóveis.

Um fundo excessivamente concentrado em poucos locatários pode ficar mais vulnerável caso uma dessas empresas enfrente dificuldades financeiras.

A diversificação dos inquilinos pode reduzir esse risco, embora não o elimine.

Contratos

Prazo, condições de reajuste, garantias e características dos contratos ajudam a determinar a previsibilidade das receitas.

Contratos mais longos podem oferecer maior estabilidade, enquanto períodos próximos ao vencimento podem aumentar a incerteza sobre a renovação.

Endividamento

A dívida é outro ponto que não deve ser ignorado.

Fundos muito alavancados podem apresentar maior sensibilidade às condições de crédito e às taxas de juros. Por isso, o investidor deve avaliar não apenas o patrimônio do FII, mas também suas obrigações financeiras.

Dividendo alto significa que o FII é bom?

Não.

O dividendo é apenas uma parte da análise.

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Um rendimento elevado pode ser resultado de uma geração de caixa saudável, mas também pode estar associado a receitas extraordinárias que não se repetirão ou a uma situação de risco que o mercado ainda está precificando.

Thiago Godoy, educador financeiro, chama atenção justamente para esse comportamento entre investidores que escolhem FIIs exclusivamente pelo tamanho do dividendo.

A análise deve considerar o imóvel, a vacância, a localização, os contratos e a qualidade dos ativos.

Em outras palavras, um dividendo alto não transforma automaticamente um fundo em um bom investimento.

FIIs são mais seguros do que CRIs?

Não existe uma resposta simples, porque são investimentos com estruturas diferentes.

Os fundos imobiliários podem ter exposição a imóveis, títulos e outros ativos, dependendo de sua estratégia. Nos chamados fundos de tijolo, a geração de receita está ligada principalmente à exploração dos imóveis.

Um Certificado de Recebíveis Imobiliários (CRI), por outro lado, é um título de dívida. Nesse caso, a capacidade de pagamento do devedor tem papel central.

A diferença fica clara em uma situação de crise.

Se uma empresa deixa de ser um bom locatário de um imóvel, o fundo pode tentar encontrar outro ocupante. Já no caso de um CRI ligado à dívida de uma empresa que entra em recuperação judicial, pode haver risco de inadimplência ou necessidade de renegociação da dívida.

Isso não significa que um FII seja necessariamente mais seguro. Significa que os riscos são diferentes e precisam ser avaliados de acordo com a estrutura de cada investimento.

Renda fixa também pode oscilar?

Sim.

A volatilidade não é exclusividade dos fundos imobiliários ou das ações.

Títulos de renda fixa também podem sofrer alterações de preço antes do vencimento. É o efeito da chamada marcação a mercado.

Quando as condições de juros mudam, o valor pelo qual determinados títulos podem ser negociados também pode variar.

Por isso, um investidor que compra um título de renda fixa e decide vendê-lo antes do vencimento pode receber um valor diferente daquele inicialmente investido.

Bernardo Pascowitch, fundador e CEO do Yubb, chama atenção para esse aspecto ao explicar que a volatilidade pode aparecer em diferentes classes de investimentos.

O que o investidor deve fazer diante da queda?

A primeira reação não deveria ser simplesmente vender ou comprar.

Quem já possui um FII precisa verificar se os fundamentos da carteira continuam compatíveis com sua estratégia. A queda da cotação pode ser desagradável, mas o preço isoladamente não explica a qualidade do investimento.

Já quem está pensando em comprar deve evitar a ideia de que “quanto mais caiu, melhor”.

A análise precisa considerar a origem da queda, a capacidade de geração de renda, a qualidade dos ativos, a situação financeira do fundo e os riscos envolvidos.

Também é necessário considerar o próprio perfil do investidor. FIIs são negociados em bolsa e, portanto, podem apresentar oscilações relevantes mesmo quando os imóveis permanecem operacionais.

O que esperar dos fundos imobiliários daqui para frente?

FIIs
Imagem: Edição/ Seu Crédito Digital

O comportamento dos FIIs continuará relacionado às expectativas para os juros, à situação fiscal e ao ambiente econômico.

Além dos fatores macroeconômicos, os investidores devem acompanhar acontecimentos específicos de cada fundo, como novas emissões, aquisições, vendas de imóveis, mudanças na ocupação dos empreendimentos, renegociações de contratos e alterações nos rendimentos.

Uma eventual recuperação do IFIX também não significa que todos os fundos necessariamente terão o mesmo desempenho.

Fundos com estruturas financeiras mais sólidas e carteiras de qualidade podem reagir de maneira diferente daqueles que enfrentam problemas específicos.

Conclusão

A queda dos fundos imobiliários em agosto expôs novamente a sensibilidade desse mercado aos juros e às mudanças nas expectativas dos investidores. O IFIX recuou 4,32% no período analisado, enquanto alguns fundos apresentaram perdas muito superiores, chegando a mais de 40%.

Os casos do Mérito, Tellus, HSI Log, BB Prem Mall e TRX mostram que existem razões diferentes por trás das quedas. Redução de rendimentos, exposição a empresas em dificuldades, alavancagem e novas emissões podem afetar a percepção de risco de cada carteira.

Para o investidor, o principal cuidado é não tomar uma decisão baseada apenas na cotação ou no dividendo. Antes de comprar ou vender, é necessário entender o motivo da queda e avaliar os fundamentos do fundo.

Em um mercado volátil, preço baixo não é sinônimo automático de oportunidade — assim como uma distribuição elevada de dividendos não garante, sozinha, a qualidade de um FII.

INFORMAÇÕES ATUALIZADAS 2026:

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