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Custos elevados dificultam chegada dos carros autônomos da Uber ao Brasil

Uber aposta bilhões em carros autônomos, mas Brasil deve ficar fora da expansão por anos. Entenda por que o custo das corridas pesa nessa decisão.

Jessica CassanaPor Jessica Cassana··12 min de leitura
Custos elevados dificultam chegada dos carros autônomos da Uber ao Brasil

A Uber acelera seus investimentos globais em carros autônomos, mas o Brasil não deve entrar tão cedo nessa nova fase da mobilidade. Segundo Andrew Macdonald, presidente e diretor de operações da companhia, o custo relativamente baixo das corridas realizadas por motoristas humanos no país reduz, por enquanto, a viabilidade econômica dos robotáxis.

Em entrevista ao podcast 20VC, publicada em 17 de agosto de 2026, Macdonald afirmou que a tarifa média de uma corrida da Uber no Brasil fica em torno de US$ 3,50 a US$ 4. Na Índia, outro dos maiores mercados da companhia em volume de viagens, o valor médio fica entre US$ 2,50 e US$ 3.

Para o executivo, o custo da tecnologia autônoma ainda precisará cair significativamente antes de conseguir competir com o modelo baseado em motoristas nesses países.

A avaliação ajuda a explicar por que os planos mais ambiciosos da Uber para robotáxis estão concentrados, neste momento, principalmente nos Estados Unidos, Canadá, Europa e outros mercados onde as tarifas são mais altas.

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Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital

O principal obstáculo não é apenas tecnológico.

A conta precisa fechar economicamente.

Um veículo autônomo exige sensores, câmeras, computadores de alto desempenho, sistemas de inteligência artificial, manutenção especializada, infraestrutura de carregamento ou abastecimento e gerenciamento de frota.

Mesmo sem um motorista ao volante, portanto, a corrida não se torna automaticamente barata.

Em mercados nos quais as viagens feitas por humanos já custam relativamente pouco, a economia obtida com a retirada do motorista pode não ser suficiente para justificar o alto investimento inicial.

É exatamente essa situação que a Uber identifica no Brasil.

Macdonald afirmou que poderá levar décadas para que o custo da autonomia seja comprimido a ponto de competir com o trabalho humano em países como Brasil e Índia.

Quanto custa uma corrida da Uber no Brasil?

De acordo com o presidente e COO da companhia, o valor médio de uma corrida brasileira está entre US$ 3,50 e US$ 4.

A comparação com a Índia é ainda mais expressiva, já que naquele mercado a tarifa média fica entre aproximadamente US$ 2,50 e US$ 3.

Esses números não correspondem necessariamente ao preço que todos os passageiros pagam, já que tarifas variam de acordo com cidade, distância, horário, modalidade e dinâmica de oferta e demanda.

Eles representam, contudo, uma média importante para a análise econômica da empresa.

Quanto menor a receita média obtida em uma viagem, mais difícil fica absorver os custos elevados associados a um robotáxi.

Brasil está entre os maiores mercados da Uber

A demora prevista para os carros autônomos ganha relevância porque o Brasil não é um mercado secundário para a plataforma.

Macdonald afirmou que Brasil e Índia estão entre os três maiores países da Uber em volume de viagens.

Globalmente, a companhia realiza aproximadamente 300 milhões de viagens por semana em suas plataformas principais.

Isso cria uma situação curiosa.

Mesmo que os veículos autônomos cresçam rapidamente nos Estados Unidos e na Europa, eles poderão continuar representando uma parcela relativamente pequena da operação mundial enquanto mercados gigantes como Brasil e Índia dependerem majoritariamente de motoristas.

Uber não sabe quando a maioria das corridas será autônoma

A própria companhia admite que é difícil prever quando os robotáxis vão superar os carros conduzidos por pessoas.

Durante a entrevista ao 20VC, Macdonald explicou que existem dois movimentos acontecendo ao mesmo tempo.

De um lado, as viagens realizadas por veículos autônomos estão crescendo.

Do outro, as corridas tradicionais também continuam aumentando.

Isso significa que não basta colocar mais robotáxis nas ruas. A frota autônoma precisa crescer em ritmo suficiente para conquistar participação dentro de uma plataforma que também expande sua base convencional.

Atualmente, segundo Macdonald, a Uber realiza alguns milhões de viagens mensais envolvendo veículos autônomos, diante de cerca de 300 milhões de viagens semanais em suas principais operações.

A diferença de escala ainda é enorme.

Uber investe até US$ 1,25 bilhão em parceria com a Rivian

Embora o Brasil possa esperar mais, a Uber está investindo pesadamente na expansão dos robotáxis em outros mercados.

Em março de 2026, a companhia anunciou um acordo estratégico com a Rivian para colocar até 50 mil veículos autônomos R2 em operação.

A Uber poderá investir até US$ 1,25 bilhão na fabricante de veículos elétricos até 2031, condicionado ao cumprimento de metas relacionadas ao desenvolvimento da tecnologia autônoma.

A primeira fase prevê a aquisição de 10 mil robotáxis.

As operações comerciais devem começar em São Francisco e Miami em 2028.

Posteriormente, as empresas pretendem expandir a presença para até 25 cidades dos Estados Unidos, Canadá e Europa até o final de 2031.

O contrato também prevê a possibilidade de aquisição de outros 40 mil veículos a partir de 2030.

Nenhuma cidade brasileira foi incluída nos planos anunciados.

Parceria com Nvidia também amplia aposta nos robotáxis

A Rivian não é a única empresa envolvida na estratégia.

Em março, Uber e Nvidia anunciaram planos para lançar veículos autônomos de nível 4 em uma rede que poderá alcançar 28 cidades até 2028.

Os primeiros lançamentos estão previstos para Los Angeles e São Francisco a partir do primeiro semestre de 2027.

A estratégia mostra como a Uber mudou sua abordagem.

Em vez de necessariamente desenvolver sozinha toda a tecnologia do veículo autônomo, a empresa procura integrar diferentes fabricantes e desenvolvedores de sistemas à sua plataforma.

Assim, o aplicativo pode funcionar como uma espécie de marketplace de mobilidade, reunindo carros conduzidos por pessoas e frotas autônomas.

Europa já recebeu corridas autônomas pelo aplicativo da Uber

O avanço deixou de ser apenas experimental em alguns mercados.

No dia 19 de agosto de 2026, a Uber anunciou o lançamento de corridas autônomas em Zagreb, capital da Croácia.

Foi a primeira cidade europeia em que passageiros passaram a conseguir solicitar esse tipo de veículo diretamente pelo aplicativo da companhia.

A operação reúne três empresas.

A Pony.ai fornece a tecnologia de direção autônoma, a Verne administra a frota e a Uber disponibiliza as viagens dentro do aplicativo.

No início da operação, um profissional autorizado permanece dentro do veículo para monitoramento.

A intenção é avançar gradualmente para operações totalmente sem motorista.

Mais de 2 mil robotáxis estão previstos para a Europa

Poucos dias antes do lançamento em Zagreb, Uber e Pony.ai anunciaram uma ampliação da parceria.

O plano prevê colocar mais de 2 mil robotáxis em operação na Europa.

Além de Zagreb, outras quatro cidades europeias deverão participar da expansão, embora os mercados ainda não tenham sido divulgados.

A parceria também prevê futuras operações no Oriente Médio.

O movimento mostra que a empresa começa a sair de projetos limitados para tentar construir redes comerciais maiores de veículos autônomos.

Motoristas vão desaparecer da Uber?

Não há indicação de que isso ocorrerá no curto prazo, principalmente no Brasil.

A própria Uber afirma que pretende trabalhar com um modelo híbrido, no qual veículos autônomos e motoristas continuam atendendo passageiros simultaneamente.

Em maio de 2026, a empresa afirmou que os motoristas permanecem no centro de sua plataforma mesmo à medida que os veículos autônomos começam a aparecer em determinadas cidades.

A realidade brasileira torna uma substituição rápida ainda menos provável.

Se, como prevê o presidente da empresa, poderá levar décadas até que o custo dos carros autônomos seja competitivo no país, a atividade dos motoristas deverá permanecer essencial para o funcionamento da plataforma por muitos anos.

Por que um robotáxi pode custar caro mesmo sem motorista?

Eliminar o custo associado à condução humana não significa eliminar todos os custos da corrida.

Um robotáxi depende de uma estrutura bastante diferente de um carro particular convencional.

Entre os gastos estão:

  • compra ou financiamento do veículo;
  • câmeras e sensores;
  • sistemas de inteligência artificial;
  • computadores de alto desempenho;
  • manutenção preventiva;
  • limpeza do automóvel;
  • seguro;
  • estacionamento;
  • gerenciamento remoto;
  • recarga elétrica;
  • infraestrutura de frota;
  • suporte aos passageiros;
  • conectividade permanente.

Também existe o custo de desenvolvimento da tecnologia.

As empresas precisam percorrer milhões de quilômetros, coletar dados e treinar sistemas para lidar com situações imprevisíveis no trânsito.

Tudo isso precisa ser diluído na quantidade de viagens realizadas pelo veículo.

Quanto mais o carro roda, mais barata pode ficar a operação

Uma das vantagens econômicas esperadas dos robotáxis está justamente na utilização intensiva.

Diferentemente de um veículo particular, que pode passar grande parte do dia estacionado, um carro de uma frota autônoma pode circular por muitas horas.

Isso permite distribuir o custo do veículo entre um número maior de passageiros.

O objetivo das empresas é aumentar a quantidade de viagens realizadas por cada unidade e reduzir progressivamente o custo por quilômetro.

Esse modelo tende a funcionar primeiro em locais com alta densidade populacional, forte demanda por transporte e tarifas suficientemente altas.

Cidades americanas como São Francisco estão entre os principais exemplos.

Tecnologia ainda precisa lidar com diferenças entre cidades

Outro desafio para colocar carros autônomos no Brasil seria adaptar a tecnologia às condições locais.

Um sistema desenvolvido para circular nos Estados Unidos não pode simplesmente ser colocado nas ruas brasileiras sem testes extensivos.

Sinalização, motocicletas, ônibus, bicicletas, pedestres, condições das vias e comportamento dos motoristas variam entre países e até entre cidades.

A legislação também precisa permitir esse tipo de operação.

Por isso, a expansão internacional dos robotáxis ocorre gradualmente, com testes e liberações específicas de autoridades locais.

Waymo amplia pressão sobre a Uber

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A retomada dos investimentos ocorre enquanto concorrentes avançam.

A Waymo, controlada pela Alphabet, tornou-se uma das principais referências mundiais em robotáxis e já desenvolveu operações comerciais nos Estados Unidos.

A empresa também está ampliando sua presença internacional.

Em agosto de 2026, anunciou que começará testes com veículos autônomos em Munique, na Alemanha, preparando o terreno para um serviço comercial previsto para o final de 2027.

Esse avanço pressiona a Uber a garantir um papel relevante na distribuição dessas viagens, mesmo quando a tecnologia pertence a outras empresas.

Uber já teve uma divisão própria de carros autônomos

A relação da companhia com essa tecnologia não começou agora.

A Uber criou uma divisão chamada Advanced Technologies Group, conhecida como ATG, para desenvolver seus próprios sistemas de direção autônoma.

A estratégia partia da percepção de que os robotáxis poderiam representar uma ameaça ao próprio modelo de negócios da empresa.

Se outras companhias desenvolvessem frotas completamente autônomas e não precisassem do aplicativo da Uber para encontrar passageiros, a plataforma poderia perder importância.

O projeto, porém, exigia investimentos elevados.

Durante a pandemia, em um momento de forte pressão financeira sobre a companhia, a Uber decidiu vender a divisão.

Estratégia atual é diferente

Agora, em vez de depender exclusivamente de tecnologia própria, a Uber tenta se posicionar como uma grande plataforma de distribuição para diferentes empresas de veículos autônomos.

Na prática, fabricantes e desenvolvedores fornecem os carros e os sistemas de direção.

A Uber oferece algo igualmente importante: passageiros.

Com milhões de usuários e uma rede global consolidada, a empresa consegue colocar veículos autônomos dentro de um aplicativo que as pessoas já utilizam diariamente.

Essa estratégia diminui a necessidade de uma única companhia controlar todas as etapas da cadeia.

Carros autônomos podem aumentar a demanda por corridas

Existe ainda outro argumento usado pela Uber para justificar os investimentos.

A companhia acredita que a chegada dos robotáxis não necessariamente reduz o mercado disponível para motoristas humanos.

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Se veículos autônomos ajudarem a diminuir preços, reduzir tempo de espera e aumentar a disponibilidade de corridas, mais pessoas podem optar pelo transporte por aplicativo.

Nesse cenário, o número total de viagens cresceria.

Macdonald observou que mesmo em grandes mercados americanos envolvidos na expansão da autonomia, as corridas conduzidas por humanos continuam apresentando crescimento.

A empresa aposta, portanto, em expansão do mercado, e não simplesmente em substituição imediata de motoristas.

Brasil continua recebendo investimentos da Uber

Ficar fora da primeira onda de robotáxis não significa que o Brasil perdeu importância para a companhia.

A Uber continua fazendo investimentos expressivos em tecnologia no país.

Em 2024, anunciou R$ 1 bilhão para ampliar seu centro tecnológico em São Paulo durante cinco anos.

Em novembro de 2025, confirmou mais R$ 500 milhões para criar um centro de desenvolvimento tecnológico no Rio de Janeiro, acompanhado da previsão de 200 novas contratações em cinco anos.

A empresa começou a contratar profissionais para a nova estrutura do Rio em maio de 2026.

Ou seja, o Brasil continua estratégico para desenvolvimento de produtos e engenharia, mesmo sem previsão concreta de robotáxis nas ruas.

Quando carros autônomos da Uber podem chegar ao Brasil?

A resposta mais precisa atualmente é: não há data.

Nenhum dos grandes anúncios globais recentes da Uber incluiu cidades brasileiras.

Além disso, o próprio presidente e COO da companhia indicou que a economia brasileira torna uma adoção em grande escala pouco provável no futuro próximo.

Isso não significa que testes isolados sejam impossíveis antes disso.

Uma empresa pode realizar projetos-piloto, demonstrações ou parcerias antes que o modelo se torne comercialmente competitivo.

Entretanto, transformar carros autônomos em parte relevante das corridas realizadas diariamente pela Uber no Brasil é uma perspectiva muito mais distante.

Motoristas brasileiros ainda têm espaço por muitos anos

Os investimentos bilionários mostram que a Uber considera os veículos autônomos uma parte importante do futuro da mobilidade.

Esse futuro, porém, não chegará ao mesmo tempo em todos os países.

Mercados com tarifas altas e condições favoráveis para diluir os custos da tecnologia devem receber primeiro as grandes frotas.

Brasil e Índia estão do outro lado dessa equação.

Por aqui, o baixo valor médio das corridas torna o motorista humano economicamente competitivo diante de uma tecnologia que ainda exige veículos caros, infraestrutura e investimentos elevados.

Por isso, mesmo com robotáxis avançando nos Estados Unidos e na Europa, a transformação da Uber brasileira deve acontecer de forma muito mais lenta.

Para passageiros e motoristas, a mensagem deixada pela própria direção da empresa é clara: carros totalmente autônomos fazem parte da estratégia global, mas a substituição em escala das corridas conduzidas por pessoas no Brasil ainda parece estar a muitos anos de distância.

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