A fila de perícias médicas do INSS pode atingir 3,6 milhões de solicitações até dezembro de 2025 caso as alterações trazidas pela Medida Provisória 1303 sejam mantidas.
INSS pode enfrentar fila de perícias três vezes maior por causa do Atestmed
Restrição ao Atestmed pode levar fila de perícias do INSS a 3,6 milhões até dezembro de 2025, segundo projeção do Ministério da Previdência.
O alerta vem do próprio Ministério da Previdência Social e do INSS, que divulgaram a projeção em nota técnica obtida via Lei de Acesso à Informação (LAI) e revelada pela Folha de S. Paulo.
A medida, que busca conter gastos públicos, tem gerado críticas e preocupações sobre a capacidade de resposta do sistema previdenciário brasileiro.
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Entenda o que mudou com a Medida Provisória 1303

A MP 1303, editada em 12 de junho de 2025, reduziu de 180 para 30 dias o prazo máximo para concessão do auxílio por incapacidade temporária (antigo auxílio-doença) via sistema Atestmed. Este canal permite que segurados solicitem o benefício por meio da análise de documentos, sem necessidade de perícia médica presencial.
O que é o Atestmed?
O Atestmed foi criado para agilizar o acesso aos benefícios por incapacidade, especialmente após a pandemia da Covid-19. Com ele, o segurado pode enviar atestados médicos e outros documentos comprobatórios para análise remota, sem a obrigatoriedade de comparecimento a uma agência do INSS.
Por que o prazo foi reduzido?
A justificativa do Ministério da Fazenda, liderado por Fernando Haddad, é o controle dos gastos com benefícios temporários, cuja demanda cresceu nos últimos anos. A equipe econômica acredita que a medida pode evitar prorrogações indevidas e garantir maior controle sobre a concessão dos auxílios.
Impacto da MP: fila de perícias pode saltar para 3,6 milhões
Antes da mudança, a fila de perícias médicas já somava 1,036 milhão de solicitações pendentes, segundo dados do INSS de 1º de maio. Com as novas regras, a projeção é que a demanda aumente drasticamente.
Detalhes da projeção oficial
- Situação antes da MP: previsão de 2,092 milhões de solicitações até dezembro de 2025.
- Situação com a MP em vigor: a fila pode atingir 3,563 milhões, um salto de mais de 70%.
- Acréscimo mensal estimado: 205 mil novos pedidos migrariam do Atestmed para perícia presencial.
- Participação do Atestmed: cerca de 38% dos pedidos seriam redirecionados para a fila física.
Ampliação temporária: portaria tenta conter colapso
Diante da repercussão negativa, a portaria conjunta MPS/INSS nº 60/2025 ampliou temporariamente o limite de duração do benefício via Atestmed de 30 para 60 dias. A medida é válida por 120 dias, período que coincide com o prazo para análise da MP pelo Congresso Nacional.
Capacidade do INSS em xeque
O próprio INSS reconheceu que não tem estrutura para absorver o aumento repentino da demanda presencial.
Declarações do Instituto
Segundo nota técnica divulgada pela Previdência:
“Um acréscimo de tal magnitude comprometeria a capacidade de absorção da demanda e a sustentabilidade do atendimento.”
Além disso, o órgão defendeu a manutenção, ainda que temporária, da análise documental:
“A ampliação temporária do prazo do Atestmed é uma medida de alívio crucial que permite uma melhor harmonização entre a avaliação documental e a perícia presencial.”
Comparação de duração entre os tipos de benefício
- Perícia presencial: duração média de 323,6 dias.
- Análise documental (Atestmed): duração média de 63,3 dias.
A diferença mostra que a modalidade remota tende a ser mais econômica para os cofres públicos.
Estratégia do governo: controle de gastos e bônus por produtividade
No segundo semestre de 2024, o governo federal já havia adotado medidas para conter a fila e os gastos com benefícios. O programa de enfrentamento à fila incluiu o pagamento de bônus por produtividade a servidores, priorizando:
- Revisões de benefícios;
- Apurações de irregularidades;
- Redução de estoque de processos.
Restrições orçamentárias e moderação das propostas
O Ministério da Previdência afirmou que as propostas iniciais da equipe econômica precisaram ser moderadas diante do cenário fiscal apertado.
A queda de braço entre o Ministério da Fazenda e a Previdência revela os desafios para equilibrar corte de despesas e manutenção da qualidade do atendimento.
Reações: Congresso, segurados e especialistas
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A MP 1303 provocou reações imediatas tanto na esfera política quanto entre os segurados e especialistas em direito previdenciário.
No Congresso
Deputados e senadores já se mobilizam para discutir a validade da MP e os impactos no atendimento à população. Há pressão para que o prazo de 180 dias seja restabelecido, pelo menos até que o INSS tenha estrutura para atender à nova demanda.
Entre os segurados
A maior preocupação é com o aumento do tempo de espera para realização de perícias presenciais, que em alguns estados já ultrapassa 60 dias. A insegurança quanto à continuidade do benefício também é fonte de angústia para quem depende do auxílio para sobreviver.
Especialistas alertam
Advogados previdenciaristas e economistas especializados em políticas públicas apontam que a MP pode ser um tiro no pé:
- Para os beneficiários: risco de desassistência e judicialização em massa.
- Para o INSS: sobrecarga de trabalho e insatisfação social.
- Para o governo: desgaste político e eventual reversão legislativa.
O que esperar para os próximos meses

Com a validade da portaria até outubro de 2025 e a MP em análise no Congresso, o segundo semestre será decisivo para o futuro da política previdenciária no Brasil.
Possíveis cenários
- Reversão da MP: manutenção do prazo de 180 dias no Atestmed.
- Aprovação da MP com ajustes: meio-termo entre controle fiscal e capacidade operacional.
- Confirmação da MP original: fila de perícias pode ultrapassar 3,5 milhões.
INSS e Previdência em alerta
Mesmo com a ampliação temporária do prazo via portaria, os órgãos trabalham com a possibilidade de um aumento substancial nas demandas presenciais. A reorganização da força de trabalho, ajustes em sistemas e realocação de recursos já estão em curso.
Conclusão
A Medida Provisória 1303, embora tenha motivações fiscais legítimas, expõe os limites estruturais do INSS e pode desencadear uma crise de atendimento se não for acompanhada de investimentos e planejamento.
O aumento expressivo na fila de perícias presenciais compromete não só o funcionamento do sistema, mas também o bem-estar de milhões de brasileiros que dependem do auxílio por incapacidade.
Nos próximos meses, o debate no Congresso será crucial para definir se a política atual será mantida, reformulada ou revertida. Até lá, o Atestmed permanece como peça-chave no equilíbrio entre eficiência administrativa e garantia de direitos.
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