O Brasil acompanha, estarrecido, o desdobramento de um caso que ganhou repercussão nacional. Dois irmãos foram presos após a descoberta de que mantiveram o corpo do próprio pai em estado avançado de decomposição dentro de casa, na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro. O objetivo, segundo as investigações, era seguir recebendo os benefícios previdenciários do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) pagos ao idoso.
Filhos mantêm cadáver do pai em casa para continuar recebendo aposentadoria
Caso chocante no Rio de Janeiro: irmãos mantêm corpo do pai por até dois anos para continuar recebendo aposentadoria e pensão.
O crime, que chocou vizinhos e repercutiu em todo o país, levanta questionamentos sobre os mecanismos de controle na concessão e manutenção de aposentadorias e pensões, além de evidenciar uma triste realidade de fraudes e descaso com a dignidade humana.
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O que dizem as investigações

Laudo aponta morte entre seis meses e dois anos
O laudo do Instituto Médico Legal (IML) confirmou que o idoso Dário Antônio Raffaele D’Ottavio, de 88 anos, estava morto há um período que pode variar entre seis meses e dois anos. O documento aponta que, devido ao avançado estado de decomposição, não foi possível determinar a causa da morte, mas não foram encontrados indícios de violência.
O delegado responsável pelo caso, Felipe Santoro, da 37ª Delegacia de Polícia (Ilha do Governador), informou que a investigação agora se concentra em entender por quanto tempo os filhos se aproveitaram dos valores pagos mensalmente ao pai e se houve a participação de terceiros.
Testemunhas ouvidas pela Polícia Civil afirmaram que não viam o idoso há pelo menos dois anos, o que reforça a hipótese de que o corpo permaneceu escondido no imóvel durante um longo período.
Como os filhos mantinham a farsa
Segundo relatos da polícia, Marcelo Marchese D’Ottavio e Tânia Conceição Marchese D’Ottavio, filhos do idoso, conviviam normalmente na residência localizada no bairro Cocotá, zona norte do Rio. Eles evitavam visitas e alegavam que o pai estava recluso por questões de saúde. A estratégia, aparentemente, funcionou por meses, até que o forte odor e a ausência prolongada do idoso despertaram a desconfiança de vizinhos.
O esqueleto de Dário foi encontrado em um dos quartos da casa, durante uma diligência policial no dia 21 de maio de 2025. Na ocasião, os agentes constataram que o corpo estava em um estado tão avançado de decomposição que impossibilitou uma análise mais detalhada sobre a causa da morte.
O motivo: dinheiro dos benefícios do INSS
Valores recebidos mensalmente
De acordo com a investigação, os filhos tinham um motivo financeiro para manter o corpo escondido. O idoso recebia aproximadamente R$ 5 mil por mês, sendo cerca de R$ 3,5 mil referentes à aposentadoria e o restante, equivalente a um salário mínimo, fruto de uma pensão por morte que ele recebia desde 2014.
Esse acúmulo só foi possível porque a pensão foi concedida antes da reforma da Previdência de 2019, que alterou as regras, restringindo o acúmulo integral de benefícios.
A polícia apura se os irmãos realizavam saques mensais ou transferências das contas bancárias do pai, mantendo assim uma falsa impressão de que ele estava vivo.
Prisão preventiva mantida pela Justiça
Marcelo e Tânia foram presos preventivamente no dia 21 de maio. Na audiência de custódia realizada no dia 24, a Justiça decidiu pela manutenção da prisão, considerando a gravidade do crime, a possibilidade de continuidade das fraudes e o risco de fuga.
Até o momento, os acusados não constituíram defesa formal. A Polícia Civil segue apurando se os irmãos atuaram sozinhos ou se contaram com o auxílio de terceiros, como funcionários de bancos ou outras instituições.
Desdobramentos do caso

Denúncias de vizinhos foram fundamentais
O caso só veio à tona após denúncias feitas por vizinhos que estranharam o sumiço do idoso e relataram o forte odor vindo da residência. A colaboração da comunidade foi essencial para que a Polícia Civil conseguisse acessar o imóvel e descobrir o crime.
As autoridades destacaram a importância da participação popular na comunicação de situações suspeitas, sobretudo em casos que envolvem idosos e pessoas vulneráveis.
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Fraudes no INSS: problema recorrente
O crime reacende o debate sobre fraudes envolvendo benefícios previdenciários no Brasil. Segundo dados do próprio INSS, milhares de irregularidades são identificadas todos os anos, incluindo recebimento indevido de pensões, aposentadorias e auxílios de pessoas já falecidas.
Apesar de mecanismos como o cruzamento de dados com o Sistema Nacional de Óbitos (Sisobi) e a prova de vida anual, casos como esse demonstram que ainda há falhas no controle, sobretudo quando familiares ou responsáveis omitem a morte de beneficiários.
Impacto social e jurídico
Crime pode configurar estelionato previdenciário e vilipêndio de cadáver
De acordo com especialistas em direito penal, os irmãos devem responder por estelionato previdenciário, crime previsto no artigo 171 do Código Penal, com pena de um a cinco anos de reclusão, além de multa. Além disso, podem ser enquadrados pelo crime de vilipêndio de cadáver (artigo 212), cuja pena varia de um a três anos de prisão.
A depender dos desdobramentos da investigação, também pode haver acusação por falsidade ideológica, caso tenha sido comprovada a utilização de documentos falsos ou informações fraudulentas para manter os pagamentos.
O que diz o INSS
Em nota, o INSS informou que colabora com as investigações e que irá adotar as medidas cabíveis para bloquear os benefícios relacionados ao caso. A autarquia reforçou que, nos últimos anos, vem aperfeiçoando os sistemas de controle e que, desde 2020, a prova de vida pode ser feita por meio de biometria digital e facial, justamente para evitar fraudes como essa.
O instituto também destacou que, em casos de morte, a comunicação ao cartório é fundamental para que a informação seja repassada automaticamente aos órgãos públicos e, consequentemente, os pagamentos sejam suspensos.
Imagem: Rafa Neddermeyer / Agência Brasil
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