A possibilidade de mudança na jornada de trabalho no Brasil voltou ao centro do debate político e econômico após o avanço da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 148/2025 no Congresso Nacional. A iniciativa, que propõe o fim da escala 6×1 — seis dias trabalhados para apenas um de descanso — tem provocado forte reação de entidades empresariais, ao mesmo tempo em que recebe amplo apoio popular e respaldo das centrais sindicais.
Empresas reagem a proposta que acaba com a escala 6×1 no Brasil
Proposta que prevê o fim da escala 6x1 avança no Senado, tem apoio popular e divide empresários e sindicatos sobre impactos na economia.
As discussões ganharam novo fôlego na última quarta-feira (10), quando a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado aprovou o texto da PEC, que altera os limites da jornada semanal de trabalho previstos atualmente na Constituição Federal. A medida reacendeu o embate entre representantes do setor produtivo, trabalhadores e governo federal sobre os impactos econômicos, sociais e trabalhistas da mudança.
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O que prevê a PEC do fim da escala 6×1
A PEC 148/2025 propõe uma mudança estrutural no modelo de jornada de trabalho no país. Pelo texto aprovado na CCJ, a jornada máxima passaria a ser de oito horas diárias e até 36 horas semanais, distribuídas em no máximo cinco dias por semana. Na prática, isso garante dois dias de descanso semanal aos trabalhadores.
Comparação com o modelo atual
Atualmente, a Constituição permite jornadas de até 44 horas semanais, o que, na maioria dos casos, resulta na escala 6×1. Esse formato é comum em setores como comércio, serviços, indústria e saúde, especialmente em atividades que exigem funcionamento contínuo.
Jornada semanal hoje
- Até 44 horas semanais
- Geralmente seis dias trabalhados
- Um dia de descanso semanal
Jornada proposta pela PEC
- Até 36 horas semanais
- No máximo cinco dias de trabalho
- Dois dias de descanso garantidos
- Sem redução salarial prevista
A proposta não altera direitos como férias, 13º salário ou adicionais, mas redefine a organização do tempo de trabalho no país.
Apoio popular à mudança na jornada
Levantamentos de opinião indicam que a proposta conta com respaldo significativo da população brasileira. Pesquisa realizada pela Nexus e divulgada em abril aponta que o fim da escala 6×1 tem mais apoio do que rejeição em todas as regiões do país.
Resultados por região
O Nordeste lidera o apoio à mudança, com 74% dos entrevistados favoráveis ao novo modelo. O Sudeste aparece como a região onde mais pessoas acreditam que a redução da jornada pode aumentar a produtividade, com 59% das respostas. Já o Sul, apesar de ser a região menos entusiasmada, ainda registra maioria favorável, com 56% de apoio.
Destaques da pesquisa
- Apoio nacional médio: 55%
- Nordeste: 74% favoráveis
- Sudeste: 59% acreditam em aumento de produtividade
- Sul: 56% favoráveis
Os dados reforçam a percepção de que a população vê a redução da jornada como um ganho em qualidade de vida, equilíbrio entre trabalho e vida pessoal e até eficiência profissional.
Reação das entidades empresariais
Apesar do apoio popular, entidades que representam empresas têm se manifestado de forma crítica à proposta. O principal argumento é o risco de impactos negativos sobre a economia, a competitividade e a geração de empregos formais.
Posição da Confederação Nacional do Comércio
A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) defende que eventuais mudanças na jornada de trabalho sejam tratadas por meio de negociações coletivas. Em nota oficial, a entidade argumenta que regras rígidas impostas pela Constituição podem limitar a autonomia de sindicatos e empresas.
Segundo a CNC, os parâmetros de jornada devem respeitar as especificidades de cada categoria, setor e região do país. Para a entidade, uma mudança generalizada enfraquece a negociação coletiva e ignora realidades econômicas distintas.
Avaliação da Confederação Nacional da Indústria
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) também acompanha o debate com cautela. A entidade monitora propostas que reduzem a carga horária semanal de 44 para 40 horas e avalia que esse movimento pode ter reflexos negativos sobre o emprego formal.
O presidente da CNI, Ricardo Alban, afirmou que a discussão é legítima, mas destacou que o país enfrenta desafios mais urgentes. Para ele, uma mudança desse porte pode reduzir ainda mais a competitividade da indústria brasileira em um cenário global já desfavorável.
Estudos que apontam riscos econômicos
Com o avanço do debate, outras organizações empresariais passaram a divulgar estudos próprios sobre os possíveis impactos da mudança. Em abril, a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) apresentou projeções preocupantes.
Estimativas da Fiemg
De acordo com a entidade, o fim da escala 6×1 poderia levar ao fechamento de até 18 milhões de postos de trabalho em todo o país. O estudo também estima um impacto negativo de até 16% no Produto Interno Bruto (PIB), o que representaria uma redução de até R$ 2,9 trilhões no faturamento dos setores produtivos.
Principais alertas do setor industrial
- Risco de aumento de custos operacionais
- Necessidade de contratação adicional para manter produção
- Pressão sobre preços e competitividade
- Impactos mais severos em pequenas e médias empresas
Essas projeções são contestadas por sindicatos e especialistas, que argumentam que experiências internacionais mostram resultados diferentes.
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Defesa das centrais sindicais
Na outra ponta do debate, centrais sindicais defendem que a redução da jornada é uma correção histórica. Para essas entidades, o modelo atual não reflete as transformações do mundo do trabalho, marcadas por avanços tecnológicos e aumento de produtividade.
Argumentos da CUT
A Central Única dos Trabalhadores (CUT) sustenta que a redução do tempo de trabalho, sem corte salarial, é uma resposta necessária às mudanças estruturais da economia. Em nota, a entidade afirmou que a proposta reconhece problemas históricos gerados pelo capitalismo, como a precarização das relações de trabalho.
Segundo a CUT, tecnologias que aumentam a produtividade deveriam resultar em mais tempo livre para os trabalhadores, e não apenas em ampliação de lucros.
Benefícios apontados pelos sindicatos
- Melhora da qualidade de vida
- Redução do estresse e do adoecimento laboral
- Estímulo à produtividade
- Geração de empregos pela redistribuição da jornada
Posição do governo federal
O governo federal tem se posicionado favoravelmente ao fim da escala 6×1. A proposta é vista como parte de uma agenda mais ampla de valorização do trabalho e melhoria das condições de vida da população.
No início do mês, a ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann (PT), defendeu publicamente a medida. Ela relacionou o fim da escala 6×1 a outras iniciativas recentes, como a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para salários de até R$ 5 mil.
Para o governo, a mudança contribui para garantir mais dignidade e equilíbrio entre vida profissional e pessoal para a maioria dos trabalhadores brasileiros.
Tramitação da proposta no Congresso
Após a aprovação na CCJ do Senado, a PEC ainda precisa ser pautada pelo presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), para votação em plenário. A análise ocorrerá em dois turnos, conforme exige o rito das emendas constitucionais.
Próximos passos
- Votação em dois turnos no Senado
- Envio à Câmara dos Deputados
- Análise pela CCJ da Câmara
- Votação em plenário
- Promulgação, caso não haja alterações
O tema promete seguir no centro do debate político e econômico nos próximos meses, mobilizando trabalhadores, empresários e parlamentares.
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Imagem: Canva
