A Medida Provisória (MP) nº 1303, que sinaliza o fim da isenção fiscal para investimentos como debêntures incentivadas, LCIs (Letras de Crédito Imobiliário) e LCAs (Letras de Crédito do Agronegócio), já impacta significativamente o comportamento dos investidores e os preços praticados no mercado de renda fixa. Mesmo antes de sua aprovação definitiva, a proposta do governo de tributar em 5% os rendimentos de novos títulos a partir de 2026 desencadeou um movimento de antecipação no mercado.
Corrida por isenção no IR derrubou o que sobrou das debêntures — entenda
Investidores correm para garantir ativos isentos antes da nova taxação. Mudanças afetam preços de debêntures, LCIs e LCAs no mercado de renda fixa.
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Investidores correm para aproveitar a última janela

Segundo o Bradesco BBI, o spread médio das debêntures incentivadas com rating AAA caiu para zero sobre as NTN-Bs na semana entre 16 e 20 de junho. É o menor nível observado desde o início de 2024, refletindo a forte demanda por ativos isentos, que ainda estão disponíveis sob as regras atuais.
Esse comportamento mostra que o mercado está se antecipando à aprovação da MP, na tentativa de garantir isenção tributária nos rendimentos desses papéis, antes da mudança entrar em vigor. Mas a estratégia pode ser arriscada, alertam especialistas.
Alocadores pedem cautela nas compras
Embora a pressão por ativos isentos aumente, consultores de investimentos recomendam cautela. Segundo eles, muitos investidores estão aceitando taxas cada vez menores em troca da isenção, o que pode resultar em retornos líquidos pouco vantajosos, principalmente diante do risco envolvido em alguns desses títulos.
“Buscar isenção a qualquer preço pode sair caro no futuro. O ideal é comparar risco e retorno com o novo cenário tributário já em mente”, afirma um analista de renda fixa de uma corretora paulista.
Comportamento dos spreads e volumes negociados
Debêntures incentivadas: spread volta a subir no secundário
Enquanto o spread médio das debêntures incentivadas despencou em um primeiro momento, o Itaú BBA observou uma reabertura de 5,8 pontos-base na semana seguinte, o que indica uma certa realização de lucros e ajustes nas expectativas. Ainda assim, a média diária de negociação desses papéis no mercado secundário foi bastante expressiva: R$ 934 milhões, o dobro do registrado em 2024 até agora.
Títulos tradicionais ganham espaço
As debêntures tradicionais, que não contam com isenção fiscal, também registraram aumento relevante em volume. Com média diária de R$ 1,8 bilhão em negociações, superaram os patamares médios do ano. As emissões primárias também aqueceram, com destaque para captações da Engie, Eletronorte e Movida, que juntas somaram R$ 10 bilhões em novas ofertas e operações de bookbuilding.
LCIs e LCAs seguem mesma tendência
Spreads recuam ao menor nível em 18 meses
A leitura de mercado também afetou o desempenho de LCIs e LCAs, que tiveram recuo nos spreads ao menor nível dos últimos 18 meses. A pressão é semelhante à observada nas debêntures incentivadas: o investidor quer garantir a isenção agora, com receio de perder o benefício no futuro próximo.
Com a queda nas taxas, o rendimento líquido dessas letras começa a se aproximar de alternativas tributadas, especialmente quando se leva em conta o risco de crédito de bancos médios, que são os principais emissores desses papéis.
Tesouro Direto reflete ajustes na curva de juros
Em paralelo, o Tesouro Direto também registrou reações à MP e às decisões do Banco Central. O último comunicado do Copom (Comitê de Política Monetária) manteve a projeção de pico da Selic em 15%, o que levou à queda dos juros dos papéis longos e à alta dos juros curtos. O comportamento reforça a cautela do mercado, diante de incertezas fiscais e globais.
Fundos de infraestrutura ficam para trás

Apesar da movimentação expressiva em títulos incentivados, os fundos de infraestrutura (FI-Infra) não apresentaram o mesmo fluxo. O Bradesco BBI afirmou não ter observado aportes relevantes nos FI-Infra, mesmo com a atratividade de isenção fiscal semelhante.
Especialistas apontam barreiras
O motivo, segundo analistas, pode ser a baixa liquidez desses fundos e o nível mais complexo de compreensão por parte de investidores pessoas físicas. Além disso, muitos desses fundos têm prazos longos e menos previsibilidade de rendimento, o que acaba afastando o investidor mais conservador.
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Alocação estratégica antes da nova taxação
Planejamento tributário entra na mira
A possível taxação de 5% sobre novos títulos isentos obriga investidores a repensarem sua estratégia de alocação de ativos, considerando não apenas o rendimento bruto, mas o impacto fiscal no retorno líquido. Até então, instrumentos como LCIs, LCAs e debêntures incentivadas eram considerados refúgios fiscais por excelência.
Especialistas recomendam diversificação
Com a possível perda de atratividade desses papéis, a diversificação do portfólio ganha ainda mais importância. Alternativas como CRI/CRA, fundos imobiliários isentos, previdência privada e debêntures tradicionais passam a ser reavaliadas com outros critérios, como risco de crédito, liquidez e horizonte de investimento.
Expectativas sobre a tramitação da MP

Aprovação ainda é incerta
Apesar da reação antecipada do mercado, a tramitação da MP 1303 ainda é incerta no Congresso Nacional. Há chances de o texto ser alterado ou até mesmo não aprovado, o que pode gerar reversão de expectativas no mercado e volatilidade nos preços dos ativos.
Oposição e lobby do setor financeiro
O setor financeiro já articula pressões para tentar manter a isenção em alguns instrumentos, especialmente aqueles voltados ao financiamento de infraestrutura e habitação. Há ainda o argumento de que a taxação pode reduzir o interesse de investidores e impactar a captação de recursos para setores estratégicos da economia.
Conclusão: um novo cenário para a renda fixa
A sinalização do fim das isenções fiscais muda drasticamente a lógica de investimentos em renda fixa no Brasil. O movimento de antecipação visto nas últimas semanas é só o começo de uma reprecificação mais ampla, que deve continuar nos próximos meses. Investidores precisarão se adaptar, comparando agora rentabilidade, tributação, prazo e risco, em vez de simplesmente correr atrás de isenção.
