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DeFi ganha força no Brasil com avanço de soluções fora do sistema tradicional

Finanças descentralizadas avançam com regulação, stablecoins e tokenização. Entenda como a DeFi funciona no Brasil e quais são os riscos.

Bruna MachadoPor Bruna Machado··12 min de leitura
DeFi ganha força no Brasil com avanço de soluções fora do sistema tradicional

Enviar dinheiro, trocar ativos, contratar um empréstimo ou buscar rendimento sem passar pela estrutura tradicional de um banco. Essa é a proposta das finanças descentralizadas, conhecidas pela sigla DeFi, expressão em inglês para decentralized finance.

O setor deixou de ser apenas uma experiência ligada às criptomoedas e passou a chamar a atenção de instituições financeiras, reguladores e empresas interessadas na tokenização de ativos. No Brasil, esse avanço coincide com a regulamentação das prestadoras de serviços de ativos virtuais, a expansão das stablecoins e os testes do Drex.

Isso não significa, porém, que os bancos serão substituídos ou que qualquer aplicação em DeFi seja segura. A tendência mais provável é a formação de um mercado híbrido, no qual blockchain, contratos inteligentes e ativos digitais convivam com empresas supervisionadas e mecanismos tradicionais de proteção.

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O que são finanças descentralizadas?

DEFI
Imagem: Edição SCD

Finanças descentralizadas são serviços financeiros executados por programas registrados em blockchain. Esses programas, chamados de contratos inteligentes, cumprem automaticamente regras previamente definidas.

Em uma operação tradicional, uma instituição recebe o pedido, verifica as condições e executa a transação. Em DeFi, parte dessas tarefas pode ser realizada diretamente pelo código.

A tecnologia permite criar serviços como:

  • troca de criptoativos;
  • empréstimos com garantias digitais;
  • aplicações remuneradas;
  • derivativos;
  • pagamentos programáveis;
  • emissão de ativos digitais;
  • tokenização de bens e direitos.

As operações podem funcionar 24 horas por dia, inclusive em fins de semana e feriados. A disponibilidade permanente é uma das diferenças em relação a alguns mercados financeiros convencionais.

Como uma operação DeFi funciona?

O usuário normalmente acessa um protocolo por meio de uma carteira digital. Essa carteira guarda as chaves que permitem movimentar os ativos.

Ao conectar a carteira, a pessoa autoriza uma interação com o contrato inteligente. O código executa a operação conforme as condições programadas.

Em um empréstimo descentralizado, por exemplo, o usuário deposita um criptoativo como garantia. O contrato verifica o valor e libera outro ativo dentro do limite estabelecido pelo protocolo.

Se a garantia sofrer uma desvalorização acentuada, o contrato poderá liquidá-la automaticamente. Isso significa vender o ativo para pagar a dívida, muitas vezes sem negociação ou prazo adicional.

Um exemplo simples

Imagine que uma pessoa deposite o equivalente a R$ 10 mil em determinado criptoativo e receba R$ 5 mil em stablecoins como empréstimo.

Se o valor da garantia cair abaixo do limite de segurança, o protocolo poderá vender parte ou todo o depósito. A liquidação pode acontecer rapidamente, mesmo durante a madrugada.

Essa automação reduz etapas, mas também retira parte da flexibilidade existente em uma negociação humana.

Qual é o tamanho atual do mercado?

Um dos indicadores mais utilizados para acompanhar o setor é o Valor Total Bloqueado, ou TVL. Ele representa os ativos depositados em protocolos de finanças descentralizadas.

O painel da DeFiLlama apontava aproximadamente US$ 75,6 bilhões em TVL global em 18 de agosto de 2026. O número muda constantemente porque acompanha entradas, retiradas e a cotação dos ativos. DeFiLlama

O TVL ajuda a medir o volume de recursos usado nos protocolos, mas não deve ser confundido com faturamento, lucro ou quantidade de usuários.

O indicador também pode sofrer distorções. Um mesmo capital pode circular por diferentes aplicações e aparecer em mais de uma camada do ecossistema.

Por isso, um TVL elevado não prova que determinado protocolo seja seguro. Ele mostra somente que existe um volume relevante de ativos depositados.

Quais são as principais aplicações da DeFi?

O ecossistema reúne serviços com funções diferentes. Alguns já movimentam grandes volumes, enquanto outros continuam em fase experimental.

Exchanges descentralizadas

As exchanges descentralizadas, ou DEXs, permitem trocar ativos digitais sem depositar previamente o dinheiro em uma corretora centralizada.

A negociação acontece diretamente entre carteiras e contratos inteligentes. Os preços podem ser determinados por reservas de liquidez mantidas pelos usuários.

Empréstimos com garantia

Protocolos de crédito permitem depositar criptoativos como garantia para obter outros ativos. Na maioria dos casos, o valor entregue como garantia precisa ser superior ao empréstimo.

A exigência reduz o risco do protocolo, mas não elimina o risco para o usuário. Se a garantia cair de preço, poderá ser liquidada.

Stablecoins

Stablecoins são ativos digitais criados para acompanhar o valor de uma referência, geralmente o dólar. Elas são utilizadas em pagamentos, negociações, remessas e aplicações dentro de protocolos DeFi.

Nem todas funcionam da mesma forma. Algumas mantêm reservas financeiras; outras utilizam criptoativos como garantia ou mecanismos algorítmicos.

Staking

O staking envolve o bloqueio de ativos para participar do funcionamento ou da segurança de determinada rede. Em troca, o usuário pode receber recompensas.

É necessário verificar o prazo de bloqueio, a possibilidade de perda e a forma como o rendimento é gerado.

Tokenização de ativos reais

A tokenização transforma a representação de um bem ou direito em um registro digital. Um token pode representar, por exemplo, uma fração de recebível, título financeiro, imóvel ou produto do agronegócio.

O ativo físico não entra literalmente na blockchain. O que fica registrado é uma representação digital, acompanhada de regras sobre propriedade, transferência e pagamento.

Por que as stablecoins ganharam espaço no Brasil?

As stablecoins tornaram-se uma das principais portas de entrada dos brasileiros na economia dos ativos digitais.

Dados da Receita Federal mostram que, entre agosto de 2019 e dezembro de 2025, foram declarados aproximadamente R$ 1,58 trilhão em compras e vendas dos principais criptoativos. Desse total, R$ 1,13 trilhão, ou 71,7%, correspondeu a stablecoins.

Em 2025, esses ativos responderam por aproximadamente 80% do volume mensal declarado. A stablecoin USDT concentrou 88,7% do montante negociado nessa categoria durante o período analisado. Receita Federal

Essa popularidade está relacionada a diferentes usos:

  • proteção diante da variação do real;
  • remessas internacionais;
  • transferências entre plataformas;
  • negociação de outros criptoativos;
  • pagamentos digitais;
  • acesso a protocolos DeFi.

Uma stablecoin, entretanto, não equivale automaticamente a dinheiro depositado em banco. A segurança depende das reservas, da empresa emissora, da tecnologia e das regras de resgate.

O que mudou na regulamentação brasileira?

O marco legal dos ativos virtuais, estabelecido pela Lei nº 14.478/2022, criou diretrizes para a prestação desses serviços no Brasil. O Banco Central foi definido como o principal regulador das empresas que atuam nesse mercado, sem afastar as atribuições da Comissão de Valores Mobiliários.

Em novembro de 2025, o BC publicou regras para a constituição e o funcionamento das sociedades prestadoras de serviços de ativos virtuais. Essas empresas podem atuar, por exemplo, na intermediação, custódia e negociação.

A Resolução BCB nº 520/2025 estabeleceu requisitos relacionados a:

  • autorização;
  • governança;
  • gerenciamento de riscos;
  • segurança cibernética;
  • controles internos;
  • proteção dos ativos dos clientes;
  • prestação de informações;
  • prevenção a ilícitos.

A regulamentação tende a profissionalizar o setor e elevar os custos de conformidade. Empresas sem estrutura adequada poderão ter dificuldade para permanecer no mercado.

Regulação da empresa não garante um protocolo DeFi

É importante entender o limite dessas regras.

Uma corretora, custodiante ou prestadora que atende o mercado brasileiro pode estar sujeita ao Banco Central. Já um protocolo descentralizado, desenvolvido no exterior e acessado diretamente por uma carteira digital, pode não contar com uma empresa claramente responsável no Brasil.

Isso torna mais difícil identificar quem deverá responder em caso de:

  • ataque ao contrato;
  • perda de recursos;
  • falha no protocolo;
  • bloqueio de ativos;
  • fraude;
  • interrupção do serviço.

A existência de regulação para prestadoras não transforma todo o universo DeFi em um mercado supervisionado.

Como funciona a DeCripto?

A Receita Federal também ampliou as obrigações de informação sobre operações com criptoativos.

As transações realizadas a partir de julho de 2026 passaram a ser informadas segundo a DeCripto, instituída pela Instrução Normativa RFB nº 2.291/2025.

A obrigação alcança prestadoras que oferecem serviços de criptoativos no Brasil. Empresas estrangeiras que direcionam suas atividades ao mercado brasileiro também podem ficar sujeitas à prestação de informações.

O objetivo é aumentar a transparência e aproximar o país do padrão internacional da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a OCDE.

Para o usuário, isso significa que utilizar criptoativos não representa invisibilidade fiscal. Operações podem gerar obrigações de declaração e pagamento de imposto, dependendo de valores, resultados e circunstâncias.

Qual é a relação entre DeFi e Drex?

O Drex é frequentemente mencionado nas discussões sobre blockchain e tokenização, mas não deve ser tratado como um protocolo DeFi público.

O projeto do Banco Central testa uma infraestrutura regulada para operações com ativos digitais e contratos inteligentes. O acesso ocorre por meio de instituições autorizadas, em um ambiente controlado.

Já grande parte da DeFi funciona em redes públicas, acessíveis por carteiras digitais e sem autorização prévia de um operador central.

A aproximação entre os dois mundos aparece na programabilidade. Tanto o Drex quanto os protocolos descentralizados podem utilizar contratos inteligentes para automatizar operações.

Drex ainda está em fase de desenvolvimento

drex
Imagem: Canva / Edição: Seu Crédito Digital

O Drex não é uma nova criptomoeda disponível para compra pelo público. O projeto permanece em fase de testes, e o Banco Central ainda não definiu uma data oficial para seu lançamento amplo.

O Piloto Drex avalia casos de uso relacionados à tokenização, negociação de ativos e liquidação programável. Também busca soluções para desafios como privacidade, sigilo e governança. Banco Central

Assim, afirmar que o Drex já integra normalmente o mercado DeFi brasileiro seria precipitado. A relação atual está principalmente nos testes e no desenvolvimento de tecnologias aplicáveis ao sistema financeiro digital.

Como a tokenização pode afetar a economia real?

A tokenização pode reduzir etapas em operações que hoje dependem de diversos registros, conferências e intermediários.

Um recebível empresarial, por exemplo, poderá ser representado digitalmente e usado como garantia em uma operação de crédito. O contrato inteligente pode verificar as condições e automatizar parte da liquidação.

Entre os ativos que podem ser tokenizados estão:

  • títulos financeiros;
  • recebíveis;
  • cotas de fundos;
  • imóveis;
  • direitos creditórios;
  • produtos do agronegócio;
  • créditos ambientais;
  • obras e direitos autorais.

A tecnologia não elimina as exigências jurídicas. Um token que representa um imóvel continua dependendo de regras sobre propriedade, registro e transferência.

O principal ganho está na possibilidade de conectar registros e pagamentos de maneira mais rápida. Para funcionar, porém, o vínculo entre o token e o ativo real precisa ser juridicamente confiável.

Quais são os principais riscos das finanças descentralizadas?

DeFi combina riscos financeiros, tecnológicos e operacionais. Uma promessa de rendimento elevado costuma indicar que o usuário está assumindo alguma forma de exposição relevante.

Falhas em contratos inteligentes

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Um erro no código pode ser explorado por criminosos. Como as transações em blockchain geralmente não podem ser revertidas, a recuperação do dinheiro pode ser difícil.

Golpes e protocolos falsos

Sites podem imitar plataformas conhecidas e induzir o usuário a conectar a carteira. Uma autorização maliciosa pode permitir a retirada dos ativos.

Perda de paridade das stablecoins

Uma stablecoin pode deixar de acompanhar o dólar ou a moeda que deveria representar. Esse fenômeno é chamado de perda de paridade.

Liquidação automática

A queda do ativo oferecido como garantia pode provocar a venda automática da posição, muitas vezes em um momento de forte volatilidade.

Falta de liquidez

Um token pode mostrar valorização na tela, mas não ter compradores suficientes. Nesse cenário, o usuário não consegue vender pelo preço esperado.

Risco de oráculo

Oráculos são mecanismos que fornecem dados externos aos contratos inteligentes, como cotações. Se a informação estiver incorreta ou for manipulada, o protocolo poderá executar operações erradas.

Concentração de governança

Um projeto pode se apresentar como descentralizado, mas poucas pessoas podem controlar as decisões, atualizações e recursos administrativos.

Existe garantia do FGC em DeFi?

Não. Ativos mantidos em protocolos DeFi não contam com a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos.

O FGC protege determinados produtos emitidos por instituições associadas, dentro das condições e dos limites estabelecidos pelo fundo. Criptoativos e aplicações descentralizadas não integram essa cobertura.

Também não existe garantia de rentabilidade. Expressões como “renda fixa cripto” podem criar uma impressão enganosa de segurança.

Mesmo quando o rendimento aparece estável, o usuário pode perder dinheiro por desvalorização, ataque, falha da stablecoin ou encerramento do protocolo.

O que verificar antes de usar um protocolo?

Antes de transferir recursos, o usuário deve entender o funcionamento da aplicação e a origem do rendimento.

Um roteiro básico inclui:

  • descobrir quem desenvolveu o projeto;
  • verificar há quanto tempo o protocolo funciona;
  • consultar auditorias do contrato inteligente;
  • conferir o volume e a liquidez;
  • entender como o rendimento é produzido;
  • avaliar quem controla a governança;
  • verificar as garantias;
  • pesquisar incidentes anteriores;
  • confirmar o endereço oficial;
  • começar com um valor pequeno.

Uma auditoria de código reduz riscos, mas não garante que nenhuma falha exista. Também é recomendável evitar concentrar toda a reserva financeira em um único protocolo.

DeFi vai substituir os bancos?

O cenário mais provável não é de substituição completa, mas de integração.

Bancos, instituições de pagamento e empresas do mercado de capitais podem adotar blockchain e tokenização sem abrir mão de controles, identificação de clientes e supervisão regulatória.

Ao mesmo tempo, protocolos públicos continuarão oferecendo serviços diretamente aos usuários. A convivência deverá formar um mercado com diferentes níveis de descentralização.

Para o consumidor, a tecnologia poderá ficar quase invisível. Um aplicativo pode utilizar blockchain para registrar ou liquidar operações sem que o usuário precise compreender a infraestrutura por trás do serviço.

A mudança mais relevante pode não ser o desaparecimento dos intermediários, mas a automação de tarefas que hoje dependem deles.

Perguntas frequentes

O que significa DeFi?

DeFi é a sigla em inglês para finanças descentralizadas, um conjunto de serviços financeiros executados por contratos inteligentes em blockchain.

É possível ganhar dinheiro com finanças descentralizadas?

Existem protocolos que oferecem rendimentos, mas não há retorno garantido. Quanto maior a promessa de ganho, maior tende a ser o risco envolvido.

DeFi é regulamentada no Brasil?

Empresas que prestam serviços de ativos virtuais no Brasil estão sujeitas à regulamentação. Protocolos descentralizados acessados diretamente podem não estar integralmente dentro dessa supervisão.

DeFi tem garantia do FGC?

Não. Aplicações e criptoativos utilizados em protocolos DeFi não contam com a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos.

Drex é uma plataforma DeFi?

Não. O Drex é uma infraestrutura regulada desenvolvida pelo Banco Central. Ele pode usar contratos inteligentes, mas não funciona como um protocolo público e aberto de DeFi.

Stablecoin é sempre segura?

Não. Stablecoins podem enfrentar problemas com reservas, emissores, liquidez, tecnologia ou perda de paridade.

É preciso declarar operações DeFi?

Operações com criptoativos podem gerar obrigações fiscais e de declaração. A regra depende da operação, dos valores e dos resultados obtidos.

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