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Fintechs correm risco de segurança: entenda o motivo do pix estar em atraso

Falhas de segurança e fraudes em fintechs adiam novas regras do Pix. Especialistas apontam crise de confiança e reforço da governança.

Juliana PeixotoPor Juliana Peixoto6 min de leitura
Fintechs

O atraso na regulamentação do Pix Parcelado expôs um cenário de insegurança crescente no sistema financeiro digital brasileiro. Após uma série de ataques cibernéticos e operações da Polícia Federal que revelaram o uso de fintechs por organizações criminosas, o Banco Central (BC) decidiu frear temporariamente a inovação para priorizar a estabilidade e a confiança do mercado.

O debate foi destaque no evento Fitch in Fintechs 2025, realizado nesta terça-feira (14), em São Paulo, reunindo executivos e especialistas do setor financeiro para discutir o futuro das startups de tecnologia bancária em meio à crise de credibilidade.

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Crise de confiança freia a inovação

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O adiamento das regras de padronização do Pix Parcelado, inicialmente previstas para 2025, foi interpretado como um sinal de alerta pelo mercado. Segundo fontes do setor, o BC mudou o foco de atuação para reforçar as bases de segurança do sistema financeiro após episódios que abalaram a confiança de investidores e consumidores.

“Não dá pra continuar inovando se a base de confiança foi abalada. O momento é de reconstrução, e isso exige uma mudança de postura de todo o ecossistema”, afirmou Auziane Morais, líder de compliance do Stark Bank.

O temor é que a pausa na implementação de novas funcionalidades do Pix e de produtos financeiros inovadores afete o ritmo de crescimento do setor, especialmente o de fintechs e startups dependentes da infraestrutura do sistema de pagamentos instantâneos.


O dilema do Banco Central

O Banco Central enfrenta um dilema delicado: manter a credibilidade do sistema financeiro sem sufocar a inovação que impulsiona a digitalização dos serviços bancários.

Para Pedro Carvalho, diretor sênior da Fitch Ratings, o redirecionamento de esforços para conter riscos inevitavelmente provoca atrasos e aumenta os custos para os players do mercado.

“Muitos estavam se preparando para o Pix Parcelado. Com o adiamento, os investimentos ficam parados, e a incerteza pesa. As empresas dependem de previsibilidade para crescer”, explicou Carvalho.


Governança e cooperação: pilares em reconstrução

Dentro das fintechs, a nova prioridade é reconstruir a confiança. O momento pede cooperação, transparência e governança, valores que, segundo especialistas, devem guiar o setor daqui para frente.

“Se há desconfiança do usuário, todo mundo perde. Não adianta competir em inovação se a credibilidade do sistema está em risco”, reforçou Morais.

A especialista destacou que o setor está mais disposto a compartilhar informações e a investir em mecanismos de autorregulação, algo essencial para reduzir brechas exploradas por criminosos.


Falhas humanas e falta de diligência

Para François Guérin, diretor de serviços de banking da Opea, os recentes escândalos não foram apenas resultado de falhas técnicas, mas também de problemas de conduta e falta de diligência.

“Você pode ter todas as regras, mas se a pessoa não segue, não adianta. É preciso mais governança tanto na gestão dos colaboradores quanto nos prestadores de serviço”, alertou Guérin.

Segundo ele, parte dos incidentes recentes ocorreu porque instituições não avaliaram adequadamente seus Prestadores de Serviços de Tecnologia da Informação (PSTIs), empresas responsáveis por conectar sistemas bancários e processar transações.


Novas exigências do Banco Central

Em resposta, o Banco Central passou a exigir capital mínimo de R$ 15 milhões de PSTIs e certificação mínima de segurança para empresas que atuem como responsáveis por instituições de pagamento não autorizadas no Pix.

Para Guérin, a medida pode ter sido “repentina” para o mercado, mas representa boas práticas de governança já adotadas em outros países.

“Esses eventos serviram para lembrar o mercado que é importante observar a governança dos prestadores de serviço. São regras básicas que evitam crises maiores”, completou.


O risco da sobreposição regulatória

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Imagem: Jirsak via shutterstock

Os escândalos também reacenderam um debate antigo: a sobreposição de reguladores no sistema financeiro.

Para Alexandre Assolini, diretor de segurança da Vórtx, parte das falhas exploradas por criminosos decorre de lacunas entre o Banco Central (BC) e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

“No Brasil temos dois reguladores, um para o mercado de capitais e outro para o sistema financeiro. Quando há dois, sempre sobra uma fresta, e algumas coisas caem nela”, afirmou.

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Essa divisão, segundo especialistas, pode dificultar a coordenação de investigações e a responsabilização de empresas envolvidas em fraudes ou falhas de segurança.


A crise: fraudes, ataques e prejuízos bilionários

Os últimos meses foram marcados por uma sequência de episódios que abalaram a credibilidade das fintechs.

Em agosto, a Polícia Federal deflagrou três operações — Carbono Oculto, Quasar e Tank — que revelaram um esquema bilionário de lavagem de dinheiro no setor de combustíveis. O grupo criminoso, liderado por membros do PCC (Primeiro Comando da Capital), usava fundos de investimento e fintechs para disfarçar transações e ocultar patrimônio.

As investigações apontam que mais de R$ 7,6 bilhões em tributos deixaram de ser recolhidos, com irregularidades em várias etapas da cadeia de produção e distribuição de combustíveis.


Ciberataques em série

Além das operações policiais, o sistema financeiro foi alvo de três grandes ataques cibernéticos em apenas quatro meses.

  • Julho: a empresa C&M Software, que conecta instituições financeiras ao Banco Central, relatou um ataque à sua infraestrutura.
  • Setembro: a fintech Monbank sofreu um ataque que desviou R$ 4,9 milhões. Segundo a empresa, o valor foi quase totalmente recuperado.
  • Também em setembro: a Sinqia, fornecedora de sistemas para bancos e operadora do Pix, registrou transações não autorizadas de cerca de R$ 710 milhões.

Esses incidentes levantaram questionamentos sobre a capacidade do sistema de pagamentos instantâneos de resistir a ataques coordenados e sofisticados.


Reconstruindo a confiança

O desafio do Banco Central e das fintechs, agora, é restabelecer a confiança de consumidores, investidores e parceiros institucionais.

O consenso entre analistas é que o Brasil precisa equilibrar inovação e segurança, reforçando práticas de compliance, auditoria e gestão de riscos sem sufocar a criatividade que tornou o país um dos líderes globais em pagamentos instantâneos.

“O Pix é uma história de sucesso. Mas, para continuar crescendo, precisa ser uma história segura”, resume Morais.

Imagem: Jirsak via shutterstock

Juliana Peixoto

Autor

Juliana Peixoto

Juliana Peixoto é jornalista cearense, formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo. Apaixonada por informação e escrita, está sempre em busca de novos aprendizados, experiências e vivências que ampliem sua visão de mundo. Atualmente, colabora com o portal Seu Crédito Digital, contribuindo com conteúdo informativo e acessível para os leitores.

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