Uma operação da Polícia Federal (PF) revelou um esquema de fraude milionária no saque de FGTS de jogadores de futebol, ex-atletas e treinadores, com a participação de bancários da Caixa Econômica Federal e a articulação da advogada Joana Costa Prado de Oliveira, que atuava no meio esportivo. O golpe, segundo as investigações, movimentou ao menos R$ 7,7 milhões entre os anos de 2022 e 2024.
Polícia Federal investiga bancários em esquema milionário de desvio de FGTS no futebol
PF investiga fraude de R$ 7,7 milhões no FGTS de jogadores e técnicos, com envolvimento de bancários e advogada ligada ao futebol.
As investigações indicam que diversos nomes conhecidos do futebol nacional e internacional foram vítimas do esquema, incluindo os jogadores Raniel, Ramires, Cueva, Titi, João Rojas, e o treinador Oswaldo de Oliveira. Ainda surgiram indícios de prejuízos envolvendo Gabriel Jesus, Felipão, Obina, Donatti e o comentarista Paulo Roberto Falcão.
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Bancários da Caixa e agência no Centro do Rio são alvos da PF
Operação teve mandados em bairros da capital fluminense
Nesta sexta-feira, agentes da PF cumpriram mandados de busca e apreensão nas casas de três bancários da Caixa Econômica Federal, localizadas nos bairros da Tijuca, Ramos e Deodoro, além de em uma agência da Caixa no Centro do Rio de Janeiro.
As diligências fazem parte do segundo desdobramento de uma investigação iniciada em maio de 2024, que identificou a abertura de contas bancárias fraudulentas em nome de atletas — inclusive do peruano Paolo Guerrero, ex-Corinthians, Flamengo e Internacional. A conta teria sido usada para desviar R$ 2,2 milhões do FGTS do jogador.
A operação é coordenada pela Unidade de Investigações Sensíveis da Delegacia de Repressão a Crimes Fazendários da PF, com apoio da área de segurança da Caixa.
Como funcionava o esquema de desvio do FGTS
Joana Prado atuava em duas frentes
De acordo com a Polícia Federal, a advogada Joana Costa Prado de Oliveira montou um esquema com dois modos de atuação para desviar os recursos do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) de atletas e treinadores:
1. Representante legal que não repassava valores
Joana era contratada por alguns dos profissionais como advogada em ações trabalhistas contra clubes. Após o recebimento judicial de valores — muitas vezes relativos ao FGTS —, ela não repassava o montante aos clientes, alegando que os pagamentos ainda não haviam sido liberados.
Um dos casos mais emblemáticos é o do técnico Oswaldo de Oliveira, que afirma ter perdido R$ 2,5 milhões em ações movidas contra Corinthians e Fluminense.
2. Uso indevido de dados e documentos
Em outros casos, a advogada não possuía qualquer vínculo profissional com os atletas lesados. Ela teria utilizado documentos falsificados ou obtidos indevidamente para:
- abrir contas bancárias;
- acessar sistemas internos da Caixa com ajuda de bancários;
- realizar saques não autorizados de FGTS.
Nessa modalidade, procurações falsas e falsificação de documentos públicos foram fundamentais para efetuar os desvios, segundo os investigadores.
Relação próxima com o meio esportivo favoreceu a fraude
Ex-diretora jurídica do Botafogo e membro da OAB
Joana Prado utilizava sua posição de destaque no meio esportivo para conquistar a confiança de atletas e técnicos. Com passagem de 12 anos pelo Botafogo, onde atuou como diretora jurídica, ela também foi membro do Tribunal de Justiça Desportiva do Rio de Janeiro e da Comissão de Direito Desportivo da OAB-RJ, até ser suspensa preventivamente.
As autoridades apuram se ela se valeu desse prestígio e acesso privilegiado a documentos sensíveis para praticar os crimes.
Jogadores e técnicos lesados: veja os nomes citados
Entre os atletas e treinadores mencionados diretamente nas investigações ou com indícios de prejuízos, estão:
Jogadores lesados diretamente:
- Cueva – meia peruano que atuou por São Paulo e Santos;
- João Rojas – equatoriano, ex-São Paulo;
- Ramires – ex-Cruzeiro, Chelsea e Seleção Brasileira;
- Raniel – passou por Vasco e Santos;
- Titi – zagueiro do Goiás, com passagem pelo Vasco;
- Christian Chagas Tarouco (Titi) – vítima em inquérito específico;
- Juninho – zagueiro com passagem pelo Botafogo;
- Paolo Guerrero – ex-Corinthians, Flamengo e Internacional.
Outros nomes mencionados:
- Gabriel Jesus – atacante da Seleção Brasileira;
- Donatti – zagueiro argentino com passagem pelo Flamengo;
- Obina – ex-atacante do Flamengo;
- Felipão (Luiz Felipe Scolari) – ex-treinador da Seleção;
- Paulo Roberto Falcão – ex-jogador e comentarista esportivo.
Técnico prejudicado:
- Oswaldo de Oliveira – ex-técnico de Corinthians, Botafogo, Flamengo e Vasco.
Prejuízo estimado: R$ 7,7 milhões em dois anos
Segundo a PF, os valores desviados entre 2022 e 2024 superam R$ 7,7 milhões, considerando os depósitos do FGTS acessados irregularmente e os montantes recebidos em ações judiciais.
No caso do zagueiro Titi, o próprio atleta teria descoberto os saques ao consultar seu saldo no aplicativo da Caixa. Parte dos recursos foi transferida para contas vinculadas ao escritório da advogada Joana Prado.
Crimes sob investigação
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A Polícia Federal apura os seguintes delitos:
- Falsificação de documento público;
- Estelionato;
- Associação criminosa;
- Falsidade ideológica;
- Lavagem de dinheiro, em alguns casos.
Os bancários investigados podem ainda responder por quebra de sigilo funcional, corrupção passiva e facilitação de acesso indevido a sistemas internos da Caixa.
O que diz a advogada Joana Prado?
Nota de defesa contesta acusações e suspensão da OAB
Por meio de sua defesa, Joana Prado nega todas as acusações e afirma ser vítima de um golpe. A nota destaca:
“Os processos disciplinares instaurados no âmbito da Ordem dos Advogados do Brasil tramitam sob sigilo, justamente para resguardar a dignidade e a imagem dos profissionais envolvidos”.
A defesa também contesta a suspensão preventiva da OAB-RJ, alegando que a medida:
- Viola o direito ao contraditório e à ampla defesa;
- Tem natureza arbitrária;
- Está sendo objeto de recurso.
“A defesa reitera sua plena confiança na reversão da decisão e na pronta restauração da justiça, reafirmando o compromisso da advogada com a ética, a legalidade e o exercício responsável da advocacia”, diz o texto.
O que acontece agora?
Dois inquéritos centrais e novas fases previstas
A Polícia Federal mantém dois inquéritos principais:
- Caso do técnico Oswaldo de Oliveira;
- Caso do zagueiro Titi (Christian Chagas Tarouco).
As investigações devem seguir com:
- Quebras de sigilo bancário e fiscal;
- Análise de documentos bancários apreendidos nas residências dos bancários;
- Identificação de mais vítimas e ramificações do esquema;
- Possível oferecimento de denúncia à Justiça Federal nos próximos meses.
Imagem: Seu Crédito Digital / Freepik
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