O mercado financeiro brasileiro chega à véspera de mais uma decisão importante do Comitê de Política Monetária (Copom) em um cenário marcado por mudanças significativas de estratégia entre os principais gestores de fundos multimercados do país. Uma pesquisa realizada pela XP Investimentos revelou uma forte alteração no posicionamento das gestoras em relação ao dólar, à Bolsa brasileira e aos juros, sinalizando uma postura mais cautelosa diante das incertezas econômicas globais e domésticas.
XP aponta saída do “kit Brasil” antes da decisão do Copom
Pesquisa mostra mudança de estratégia dos fundos multimercados com alta do dólar, cautela na Bolsa e expectativa para a Selic.
O levantamento mostra que o otimismo observado nos primeiros meses do ano perdeu força. Se anteriormente os gestores apostavam na valorização do real e no desempenho dos ativos brasileiros, agora a preferência migrou para posições defensivas, especialmente ligadas à moeda americana.
A mudança acontece em meio a preocupações com inflação, juros elevados por mais tempo, tensões geopolíticas e o aumento da volatilidade nos mercados globais.
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O que revela a pesquisa com gestores multimercados?
O estudo ouviu 25 gestoras entre os dias 8 e 12 de junho, poucos dias antes da reunião do Copom responsável por definir os rumos da taxa Selic.
Os resultados mostram uma das maiores mudanças de posicionamento registradas nos últimos meses.
Dólar passa de aposta de queda para ativo de proteção
O movimento mais expressivo ocorreu no mercado cambial.
Em abril, todos os gestores consultados estavam posicionados na expectativa de queda do dólar frente ao real. O consenso era tão forte que representava o maior já registrado pela série histórica da pesquisa.
Pouco mais de um mês depois, o cenário mudou completamente.
Agora:
- 80% das gestoras estão compradas em dólar;
- Apenas 20% permanecem apostando na desvalorização da moeda americana.
Essa mudança indica que o dólar voltou a ser visto como instrumento de proteção em um ambiente mais incerto.
Por que os gestores voltaram a comprar dólar?
A alteração de estratégia não está relacionada apenas ao cenário brasileiro.
Segundo os analistas responsáveis pelo levantamento, houve uma mudança importante no fluxo global de investimentos.
Capital internacional busca oportunidades em inteligência artificial
Nos últimos meses, grandes investidores direcionaram recursos para empresas ligadas à inteligência artificial, especialmente nos Estados Unidos e em países asiáticos.
Esse movimento impulsionou mercados internacionais e reduziu o interesse relativo por economias emergentes, incluindo o Brasil.
Ao mesmo tempo, fatores internos contribuíram para aumentar a cautela dos investidores.
Entre eles estão:
- Pressões inflacionárias;
- Alta do petróleo;
- Incertezas fiscais;
- Aproximação do calendário eleitoral;
- Expectativas de juros elevados por mais tempo.
Nesse contexto, o dólar passou a ser utilizado como proteção contra eventuais turbulências.
Real perde espaço nas carteiras dos fundos
O reposicionamento dos gestores também ficou evidente nas apostas envolvendo a moeda brasileira.
Queda expressiva do otimismo com o real
Em abril, 91% das gestoras mantinham posições compradas no real, apostando na valorização da moeda nacional.
Agora, esse percentual caiu drasticamente.
Os números mostram que:
- As posições compradas no real recuaram para 31%;
- As posições vendidas subiram para 69%.
A mudança sugere uma revisão das expectativas em relação ao desempenho da economia brasileira nos próximos meses.
Segundo os analistas da XP, o movimento não representa necessariamente uma perda de confiança estrutural no Brasil, mas uma adaptação ao novo ambiente econômico global.
Mercado espera corte moderado da Selic
Apesar do aumento da cautela em outros ativos, a maioria dos gestores ainda acredita em uma redução dos juros básicos da economia.
Qual é a expectativa para a reunião do Copom?
De acordo com a pesquisa:
- 84% das gestoras esperam um corte de 0,25 ponto percentual;
- 16% acreditam na manutenção da taxa atual.
Caso a projeção majoritária se confirme, a Selic passará de 14,50% para 14,25% ao ano.
A expectativa reflete a percepção de que o Banco Central ainda possui espaço limitado para flexibilizar a política monetária diante dos riscos inflacionários.
Juros altos podem permanecer por mais tempo
Embora exista expectativa de redução no curto prazo, os gestores estão menos confiantes em um ciclo prolongado de cortes.
Selic de longo prazo continua elevada
As projeções para o fim de 2026 mostram que o mercado passou a enxergar juros mais altos por um período maior.
Segundo a pesquisa, a expectativa média para a Selic ao final de 2026 chegou a 14,1%.
Esse número reflete preocupações relacionadas a:
- Pressões inflacionárias persistentes;
- Valorização das commodities;
- Oscilações nos preços da energia;
- Cenário fiscal brasileiro;
- Condições financeiras globais.
A combinação desses fatores reduz o espaço para uma queda mais intensa dos juros.
Inflação continua sendo uma preocupação
Os gestores também revisaram suas estimativas para a inflação dos próximos anos.
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Projeções seguem acima da meta
A inflação esperada para 2026 subiu para 5,2%, permanecendo acima do centro da meta perseguida pelo Banco Central.
Essa perspectiva reforça a necessidade de cautela por parte da autoridade monetária.
Quando as expectativas inflacionárias permanecem elevadas, o Banco Central tende a manter uma política monetária mais restritiva para evitar a perda de controle sobre os preços.
Bolsa brasileira perde força entre os gestores
O mercado acionário também sofreu mudanças importantes de percepção.
Embora a maioria dos fundos ainda mantenha exposição positiva à Bolsa brasileira, o nível de confiança diminuiu.
Cresce a cautela com ações nacionais
Os dados mostram que:
- As posições compradas em ações brasileiras caíram de 71% para 60%;
- As posições vendidas aumentaram de 10% para 20%.
A mudança reflete um ambiente mais desafiador para os ativos de risco.
Além da concorrência de mercados internacionais que vêm atraindo investimentos, a economia brasileira enfrenta desafios relacionados à inflação, aos juros e às incertezas políticas.
Como os gestores enxergam a economia brasileira?
A percepção sobre o cenário doméstico tornou-se mais conservadora nos últimos meses.
Visão negativa ganha espaço
Segundo a pesquisa:
- A parcela de gestores com visão negativa sobre a economia dobrou, passando de 19% para 38%;
- A visão positiva permaneceu próxima de 24%;
- Cresceu o número de gestores com posicionamento neutro.
Essa postura mais equilibrada demonstra que muitos investidores preferem aguardar sinais mais claros antes de assumir posições mais agressivas.
O que isso significa para investidores?

A pesquisa mostra que os gestores profissionais estão priorizando a preservação de capital em um momento de maior incerteza.
Isso não significa abandono dos ativos brasileiros, mas uma estratégia de espera diante de questões ainda sem resposta.
Fatores que podem definir os próximos movimentos
Os mercados continuarão acompanhando de perto:
- As decisões do Copom;
- A trajetória da inflação;
- O comportamento do dólar;
- Os preços internacionais do petróleo;
- O cenário político e eleitoral;
- A política monetária dos Estados Unidos.
Enquanto essas variáveis permanecem indefinidas, a tendência é que muitos fundos mantenham uma postura mais defensiva, com maior exposição ao dólar e menor apetite por risco.
Imagem: Reprodução
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