Durante décadas, o Habib’s foi muito mais do que uma rede de restaurantes. A marca ajudou a transformar a esfiha em uma opção popular de alimentação rápida no Brasil e construiu um modelo baseado em preços acessíveis, grande volume de vendas e expansão por franquias.
Agora, porém, o grupo que controla a rede enfrenta uma das situações financeiras mais delicadas de sua história.
O Grupo Gennius Brasil, controlador do Habib’s e de marcas como Ragazzo e Tendall Grill, levou à Justiça uma dívida de R$ 312,4 milhões e conseguiu uma proteção temporária contra cobranças e execuções. A medida alcança 174 empresas ligadas ao conglomerado e foi concedida por 60 dias para permitir negociações com credores.
Mas há uma diferença importante: isso não significa que o Habib’s faliu ou que entrou em recuperação judicial.
A decisão judicial criou uma espécie de intervalo para que o grupo tente reorganizar suas obrigações financeiras e negociar com os credores. Ao mesmo tempo, a empresa afirma que as operações continuam funcionando.
Para entender por que uma das marcas mais conhecidas do fast-food brasileiro chegou a esse ponto, é preciso olhar além do tamanho da dívida.
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O que aconteceu com o Habib’s?

O problema veio à tona em julho de 2026, quando o Grupo Gennius Brasil recorreu à Justiça para obter proteção contra cobranças enquanto tenta negociar seu passivo.
A dívida informada chega a R$ 312,4 milhões, com forte concentração em obrigações bancárias. A decisão da Justiça de São Paulo suspendeu por 60 dias determinadas cobranças e execuções contra 174 empresas relacionadas ao grupo.
A medida também busca evitar que problemas financeiros interrompam a operação cotidiana das redes.
Na prática, isso é relevante para um negócio de alimentação porque uma rede desse tamanho depende de uma cadeia contínua de fornecedores, funcionários, logística, ingredientes, aluguel, energia, tecnologia e serviços.
Se um fornecedor deixa de entregar produtos essenciais, por exemplo, o problema financeiro rapidamente pode virar um problema operacional.
A empresa pediu falência?
Não.
Também não houve, neste momento, um anúncio de encerramento das atividades do Habib’s.
O que foi obtido é uma tutela cautelar antecedente, mecanismo previsto na legislação brasileira que pode permitir a suspensão temporária de execuções enquanto uma empresa em dificuldade tenta negociar com seus credores.
A Lei nº 11.101/2005 prevê a possibilidade de suspensão das execuções por até 60 dias em determinadas circunstâncias, quando há negociação ou mediação com credores antes de um eventual pedido de recuperação judicial.
Portanto, é incorreto resumir o episódio como “o Habib’s entrou em recuperação judicial”.
O que existe neste momento é uma proteção judicial temporária para negociação.
Por que o grupo está endividado?
O próprio grupo apontou diferentes fatores para a deterioração financeira.
Entre eles estão os impactos provocados pela pandemia de Covid-19, a mudança no comportamento dos consumidores com a expansão do delivery e o aumento do custo de capital em um cenário de juros elevados.
O ponto importante é que esses fatores não atuam isoladamente.
Uma empresa de alimentação com centenas de unidades precisa vender muito para diluir despesas como aluguel, funcionários, energia, logística, insumos e manutenção.
Quando o custo aumenta e o consumidor muda a forma de comprar, a margem de lucro pode diminuir rapidamente.
A pandemia deixou efeitos prolongados
A pandemia foi particularmente difícil para restaurantes.
Durante os períodos de restrição, estabelecimentos que dependiam do atendimento presencial perderam uma parcela importante da receita. O Grupo Gennius argumenta que as dificuldades econômicas e financeiras começaram a se intensificar nesse período, entre 2020 e 2022.
O mercado como um todo sofreu.
Segundo levantamento da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) citado pelo NeoFeed, o mercado brasileiro de alimentação fora do lar movimentava R$ 235 bilhões em 2019. Em 2020, esse valor caiu para R$ 175 bilhões. Depois houve recuperação, chegando a R$ 495 bilhões em 2025, com perspectiva de R$ 540 bilhões em 2026.
Isso mostra uma diferença importante: o setor se recuperou, mas as empresas não necessariamente voltaram à mesma situação financeira que tinham antes da pandemia.
Dívidas acumuladas, mudanças de comportamento e aumento dos custos podem continuar pressionando uma companhia mesmo quando o faturamento do setor volta a crescer.
O avanço do delivery mudou o jogo
Outra transformação importante aconteceu na forma como os brasileiros compram comida.
Antes, a localização física do restaurante era um dos principais fatores para conquistar clientes. A pessoa passava em frente ao estabelecimento, fazia uma parada depois do trabalho ou escolhia uma unidade próxima de casa.
Com o avanço dos aplicativos, a concorrência deixou de ser apenas geográfica.
Um consumidor pode abrir o celular e comparar restaurantes, preços, promoções, avaliações e tempo de entrega sem sair de casa.
O próprio Grupo Gennius apontou a mudança de hábitos provocada pelas plataformas de delivery como um dos fatores que afetaram a receita das lojas físicas.
Isso cria uma nova pressão para grandes redes.
O restaurante precisa manter uma estrutura física, mas também precisa ser competitivo no ambiente digital.
O delivery também aumenta a competição
Uma das consequências mais importantes dos aplicativos é que o consumidor passou a ter acesso a negócios que antes dificilmente competiriam diretamente com uma grande rede.
Uma pequena esfiharia de bairro, uma hamburgueria independente ou um restaurante familiar podem aparecer na mesma tela que uma marca nacional.
Assim, o tamanho da empresa deixa de ser uma vantagem absoluta.
A marca conhecida continua tendo valor, mas precisa disputar preço, qualidade, avaliação, prazo de entrega e promoções em um ambiente muito mais amplo.
Os juros também pesaram sobre a dívida
Outro fator citado pelo grupo foi o custo de capital.
Quando os juros aumentam, empresas endividadas podem enfrentar despesas financeiras maiores. Isso é especialmente relevante quando uma parcela significativa do passivo está concentrada em dívidas bancárias.
O efeito pode ser explicado de maneira simples.
Imagine uma empresa que precisa tomar dinheiro emprestado para manter o capital de giro — recursos utilizados para pagar despesas enquanto o dinheiro das vendas ainda não entrou.
Se o custo desse empréstimo aumenta, uma parcela maior do dinheiro gerado pela operação passa a ser destinada ao pagamento de juros.
Isso reduz o espaço para investir, abrir lojas, modernizar unidades ou fazer promoções.
No caso do Grupo Gennius, a dívida informada de R$ 312,4 milhões torna o custo financeiro uma questão central na tentativa de reorganização.
O Habib’s ainda é uma empresa grande?
Sim.
Esse é outro ponto que ajuda a entender por que o caso chama tanta atenção.
O problema financeiro não significa que a marca tenha deixado de ter presença relevante no mercado.
O próprio Habib’s informa que foi fundado em 1988, em São Paulo, e que iniciou a expansão por franquias em 1992. A companhia afirma atualmente estar presente em 18 estados e contar com mais de 17 mil colaboradores no grupo.
Segundo o NeoFeed, o grupo possui cerca de 300 lojas Habib’s e aproximadamente 200 unidades do Ragazzo, além de formatos híbridos.
Ou seja, estamos falando de uma operação extensa.
E justamente por isso uma crise financeira pode ter efeitos que vão muito além da empresa controladora.
O que acontece com as lojas?
Até o momento, a informação disponível é de continuidade das operações.
A decisão judicial também determinou proteção para contratos e serviços essenciais à atividade durante o período de 60 dias, com condições para que determinados fornecedores continuem atendendo a operação mediante pagamento à vista, evitando o agravamento do passivo.
Isso ajuda a explicar por que uma proteção judicial pode ser importante para uma rede de restaurantes.
Se a empresa perde acesso a ingredientes ou serviços essenciais, a consequência pode ser imediata: unidades deixam de operar, consumidores deixam de ser atendidos e a geração de caixa diminui.
A tentativa de preservar a operação busca justamente evitar esse efeito em cadeia.
Isso significa que todas as lojas estão seguras?
Não necessariamente.
A proteção judicial cria um período para negociação, mas não resolve automaticamente o problema financeiro.
O resultado dependerá da capacidade do grupo de chegar a acordos com seus credores, manter o fluxo de caixa e encontrar uma estrutura financeira sustentável.
Por isso, os próximos passos serão importantes.
O modelo de negócio também está mudando
Além da situação financeira, o Habib’s enfrenta um desafio estratégico.
O modelo tradicional da marca foi construído sobre grandes restaurantes, atendimento em volume e preços competitivos.
Com o passar dos anos, a empresa passou a testar formatos menores e diferentes modelos de operação.
Atualmente, a própria companhia apresenta opções de franquia que incluem:
- quiosques;
- lojas compactas;
- lojas em praças de alimentação;
- unidades de rua;
- estabelecimentos com drive-thru;
- modelos híbridos.
No material oficial para franqueados, o Habib’s informa investimento inicial a partir de R$ 480 mil para quiosques, R$ 1 milhão para determinados modelos de loja e até R$ 2,7 milhões para uma loja convencional de rua.
Essa mudança mostra uma tentativa de adaptar a marca a diferentes pontos comerciais e perfis de consumo.
Por que lojas menores podem ser importantes?
Uma unidade compacta pode exigir menos espaço físico e, dependendo da localização e do modelo, ter uma estrutura operacional diferente de um restaurante tradicional.
Isso não significa que uma loja menor seja automaticamente mais lucrativa.
Mas, em um mercado no qual aluguel, mão de obra e manutenção pesam cada vez mais, formatos flexíveis podem ajudar uma rede a encontrar pontos de equilíbrio diferentes.
Para uma empresa que precisa preservar caixa, esse tipo de estratégia pode ganhar importância.
O Habib’s perdeu espaço para concorrentes?
Não existe uma única causa capaz de explicar a situação.
O mercado de alimentação ficou muito mais competitivo.
Hoje, o consumidor encontra:
- grandes redes internacionais;
- redes brasileiras;
- restaurantes independentes;
- cozinhas focadas exclusivamente em delivery;
- hamburguerias artesanais;
- esfiharias locais;
- lojas de conveniência;
- supermercados com refeições prontas;
- aplicativos que reúnem centenas de estabelecimentos.
Isso significa que a força de uma marca tradicional já não garante, sozinha, a preferência do consumidor.
O Habib’s continua tendo um ativo importante: reconhecimento de marca.
A empresa construiu uma identidade associada à esfiha, ao preço acessível e a uma experiência popular de fast-food. O desafio é transformar esse reconhecimento em vendas suficientes para sustentar uma estrutura empresarial muito maior e mais complexa.
Por que a esfiha foi tão importante para a marca?
A história do Habib’s ajuda a entender a dimensão do desafio.
A primeira loja foi inaugurada em 1988, na Rua Cerro Corá, em São Paulo. Segundo a própria empresa, o fundador Alberto Saraiva conheceu o chef Paulo Abud e incorporou ao negócio receitas de esfihas, quibes, homus e outros pratos árabes.
A partir daí, a esfiha se tornou o principal símbolo comercial da rede.
O produto tinha características muito adequadas ao modelo de fast-food: produção em escala, preço relativamente baixo e possibilidade de consumo rápido.
A expansão por franquias, iniciada em 1992, ajudou a levar o modelo para outras regiões do país.
Com isso, a marca deixou de ser apenas um restaurante de comida árabe e passou a fazer parte da cultura alimentar de várias gerações de brasileiros.
A crise representa o fim do Habib’s?
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Não há base, neste momento, para afirmar isso.
O que existe é uma crise financeira relevante, acompanhada de uma medida judicial de proteção temporária.
A diferença é fundamental.
Falência, recuperação judicial e tutela cautelar são situações jurídicas distintas. A proteção obtida pelo Grupo Gennius tem como objetivo criar espaço para negociação e não equivale, por si só, à decretação de falência ou ao encerramento das atividades.
O futuro da rede dependerá principalmente do resultado dessas negociações.
O que pode acontecer depois dos 60 dias?
Existem diferentes possibilidades.
Uma delas é o grupo conseguir negociar condições melhores com os credores e seguir operando sem entrar em recuperação judicial.
Outra possibilidade é a empresa entender que precisa de uma estrutura mais ampla de reorganização e buscar a recuperação judicial, caso preencha os requisitos legais.
Também existe a possibilidade de negociações individuais com credores e ajustes na operação.
Ainda é cedo para afirmar qual caminho será adotado.
O ponto central é que os 60 dias não representam uma solução automática. Eles funcionam como uma janela para que a empresa tente construir uma saída negociada.
O que a situação ensina sobre grandes redes de franquias?
O caso do Habib’s também oferece uma lição sobre o funcionamento de grandes redes.
Uma marca conhecida pode ter milhares de clientes, centenas de unidades e forte presença nacional e, mesmo assim, enfrentar dificuldades de caixa.
Isso acontece porque faturamento não é a mesma coisa que lucro e lucro não é a mesma coisa que caixa disponível.
Uma empresa pode vender muito e ainda ter dificuldades para pagar suas obrigações se:
- os custos crescerem mais rapidamente que as receitas;
- a dívida ficar elevada;
- os juros aumentarem;
- o capital de giro ficar comprometido;
- determinadas lojas apresentarem baixa rentabilidade;
- fornecedores exigirem pagamentos mais rápidos;
- investimentos anteriores demorarem para gerar retorno.
É justamente por isso que a análise de uma empresa grande não pode considerar apenas o número de lojas ou a popularidade da marca.
E os franqueados, funcionários e fornecedores?
Esse é um dos pontos que merecem acompanhamento.
O grupo reúne diferentes empresas e modelos de operação. Portanto, os efeitos sobre cada unidade podem variar conforme a estrutura societária, os contratos e a situação financeira de cada empresa envolvida.
Para funcionários e consumidores, a informação mais importante neste momento é que a proteção judicial não significa encerramento imediato das atividades.
Para fornecedores e credores, o processo de negociação é mais relevante, porque envolve a tentativa de reorganizar pagamentos e preservar a continuidade operacional.
Já para os franqueados, o cenário exige atenção aos contratos e à saúde financeira da unidade específica, pois a situação de uma franqueadora não necessariamente produz o mesmo efeito sobre todas as operações.
O que esperar do Habib’s daqui para frente?
A rede chega a este momento com dois desafios simultâneos.
O primeiro é financeiro: negociar uma dívida de R$ 312,4 milhões e preservar o caixa necessário para manter a operação.
O segundo é estratégico: adaptar uma marca tradicional a um mercado em que o consumidor mudou, o delivery ganhou espaço e a concorrência aumentou.
A empresa já demonstra uma tentativa de modernização do formato de lojas, com quiosques, unidades compactas e modelos com drive-thru.
A questão agora é saber se essas mudanças serão suficientes para melhorar a rentabilidade e, ao mesmo tempo, permitir que o grupo reorganize seu passivo.
Perguntas frequentes sobre a situação do Habib’s
O Habib’s faliu?
Não. Até o momento, não houve decretação de falência da rede. O Grupo Gennius Brasil obteve proteção judicial temporária para negociar uma dívida de R$ 312,4 milhões.
O Habib’s entrou em recuperação judicial?
Não neste momento. A medida concedida pela Justiça é uma tutela cautelar antecedente para suspensão temporária de cobranças e negociações com credores. Um eventual pedido de recuperação judicial seria um procedimento diferente.
Quanto o grupo que controla o Habib’s deve?
O passivo informado pelo Grupo Gennius chega a R$ 312,4 milhões, com grande concentração em dívidas bancárias.
Por que o Habib’s está enfrentando dificuldades?
O grupo aponta três fatores principais: os impactos financeiros da pandemia, a mudança nos hábitos de consumo com o avanço do delivery e o aumento do custo de capital em um ambiente de juros elevados.
As lojas do Habib’s vão fechar?
Não há, neste momento, anúncio de encerramento geral da rede. A proteção judicial foi justamente concedida para preservar a continuidade das operações enquanto as negociações são realizadas.
A dívida significa que o Habib’s vai desaparecer?
Não necessariamente. A existência de uma dívida elevada não determina sozinha o futuro da empresa. O resultado dependerá da negociação com credores, da capacidade de geração de caixa e das decisões estratégicas do grupo.
Quem controla o Habib’s?
O Habib’s é controlado pelo Grupo Gennius Brasil, que também reúne outras marcas, incluindo Ragazzo e Tendall Grill.
Quando o Habib’s foi criado?
A primeira unidade foi inaugurada em 1988, em São Paulo. A expansão por franquias começou em 1992.
Conclusão

A crise financeira do Habib’s não pode ser explicada simplesmente por uma suposta perda de popularidade da esfiha. O problema é mais amplo e envolve uma combinação de dívida elevada, efeitos prolongados da pandemia, transformação do consumo, crescimento do delivery e custo financeiro.
A proteção judicial de 60 dias representa uma tentativa de ganhar tempo para negociar. Durante esse período, o Grupo Gennius precisa encontrar uma solução que permita lidar com um passivo de R$ 312,4 milhões sem comprometer a operação das redes.
Para o consumidor, portanto, a mensagem mais importante é que o Habib’s não acabou e não foi declarado falido. A rede continua operando enquanto seu controlador tenta reorganizar a situação financeira.
O caso, entretanto, mostra como até marcas com décadas de história podem ser pressionadas quando o modelo de negócio precisa se adaptar rapidamente. A esfiha continua sendo um dos símbolos mais conhecidos do fast-food brasileiro; o desafio agora é fazer com que uma estrutura construída ao longo de quase quatro décadas volte a encontrar equilíbrio financeiro em um mercado completamente diferente daquele de 1988.



