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Habib’s entra em RJ após alta dos juros pressionar dívida do grupo

Habib’s entra em recuperação judicial com dívida de R$ 265,2 milhões. Entenda a crise, o peso dos juros e os próximos passos.

Melissa BarbosaPor Melissa Barbosa··10 min de leitura
Habib's

O Grupo Gennius, dono das redes Habib’s, Ragazzo e Tendall, entrou em recuperação judicial com R$ 265,2 milhões em dívidas sujeitas ao processo. A decisão ocorre cerca de dois meses depois de a companhia recorrer à Justiça para tentar se proteger de credores e negociar uma saída para sua crise financeira.

Apesar do tamanho do passivo, a recuperação judicial não significa que o Habib’s faliu ou que as lojas serão fechadas. A companhia informou que as operações continuam normalmente. O que está em jogo agora é a capacidade do grupo de reorganizar as dívidas, preservar o caixa e convencer os credores de que o negócio continua sendo viável.

A situação também expõe um problema que vai além das esfihas: crédito caro, endividamento elevado e mudanças no comportamento do consumidor vêm pressionando empresas do setor de alimentação.

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O que aconteceu com o Habib’s?

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Imagem: Edição/ Seu Crédito Digital

O Grupo Gennius entrou oficialmente com o pedido de recuperação judicial depois de uma tentativa anterior de negociar suas obrigações diretamente com os credores.

A companhia já havia recorrido à Justiça com uma medida cautelar para ganhar tempo e evitar que cobranças e execuções comprometessem ainda mais sua operação. Como as negociações não chegaram a uma solução definitiva, o grupo avançou para a recuperação judicial.

O processo tramita na Justiça de São Paulo e envolve diversas empresas relacionadas às operações do grupo.

Segundo as informações apresentadas no processo, estão incluídos restaurantes próprios do Habib’s, unidades do Ragazzo, churrascarias Tendall e empresas responsáveis pela estrutura societária e operacional do conglomerado.

A KPMG foi nomeada administradora judicial e deverá acompanhar o processo, fiscalizando as informações apresentadas pelas empresas e auxiliando na relação entre companhia e credores.

Quanto o dono do Habib’s deve?

O valor informado no pedido de recuperação judicial é de R$ 265,2 milhões.

Desse total, aproximadamente:

  • R$ 241,7 milhões correspondem a créditos quirografários, ou seja, dívidas sem uma garantia real específica;
  • R$ 22,3 milhões correspondem a créditos trabalhistas.

O número, porém, não representa necessariamente todo o endividamento financeiro do grupo.

O Grupo Gennius também informou possuir mais de R$ 300 milhões em dívidas bancárias. Parte dessas obrigações possui garantias e tratamento jurídico específico, razão pela qual não aparece integralmente dentro dos R$ 265,2 milhões submetidos à recuperação.

Essa diferença é importante para entender o tamanho do problema.

Por que o Habib’s entrou em recuperação judicial?

A crise não tem uma única causa.

O grupo aponta uma combinação de fatores que deteriorou sua situação financeira ao longo dos últimos anos. Entre eles estão os efeitos da pandemia, mudanças no comportamento dos consumidores, avanço do delivery e aumento do custo do crédito.

A pandemia atingiu especialmente empresas que dependiam do movimento presencial. Restaurantes localizados em regiões comerciais, shoppings e áreas de grande circulação tiveram uma queda significativa nas vendas durante os períodos de restrição.

Depois disso, o mercado de alimentação mudou.

O consumidor passou a utilizar mais aplicativos de entrega, enquanto restaurantes precisaram adaptar suas operações para atender a uma demanda maior fora do salão.

O problema é que o delivery também pode pressionar as margens. Além dos custos tradicionais de uma operação, existem taxas e despesas relacionadas às plataformas, embalagens e logística.

E, para uma companhia que já possui uma dívida elevada, o aumento dos juros pode transformar esse desequilíbrio operacional em um problema financeiro ainda maior.

A Selic tem relação com a crise?

Sim, embora não seja correto atribuir a recuperação judicial exclusivamente à Selic.

A taxa básica de juros da economia brasileira influencia o custo de empréstimos, financiamentos e renegociações de dívidas. Quando os juros permanecem elevados, empresas endividadas enfrentam maior dificuldade para refinanciar suas obrigações em condições favoráveis.

Imagine uma empresa que precisa constantemente renovar parte de seus empréstimos.

Se o custo desse dinheiro aumenta, uma parcela maior da receita precisa ser destinada ao pagamento de juros. Consequentemente, sobra menos caixa para despesas como salários, fornecedores, aluguel, manutenção e expansão.

Foi justamente a combinação entre endividamento, pressão sobre a operação e custo financeiro elevado que contribuiu para agravar a situação do Grupo Gennius.

Habib’s vai fechar as portas?

Não há indicação de um fechamento geral das lojas.

A recuperação judicial foi criada justamente para permitir que uma empresa em dificuldades continue funcionando enquanto tenta reorganizar suas finanças.

O Habib’s continua atendendo clientes, vendendo seus produtos e mantendo suas operações. O mesmo vale para as demais marcas abrangidas pelo processo.

É preciso separar dois conceitos que costumam ser confundidos:

Recuperação judicial: mecanismo utilizado para tentar reorganizar uma empresa endividada e preservar sua atividade.

Falência: processo destinado à liquidação da empresa quando não há condições de continuidade, seguindo as regras previstas na legislação.

Portanto, dizer que “o Habib’s faliu” neste momento seria incorreto.

O que muda para quem costuma comprar no Habib’s?

Para o consumidor, a mudança imediata tende a ser pequena.

Quem compra uma esfiha, uma pizza ou outro produto da rede não precisa tomar nenhuma providência por causa da recuperação judicial.

As lojas continuam funcionando e as compras seguem sendo realizadas normalmente.

A situação é diferente para fornecedores, funcionários, bancos e outros credores. Esses grupos passam a lidar com um processo judicial de reorganização das obrigações, que estabelece regras específicas para os créditos abrangidos.

O que são as travas bancárias?

Um dos pontos mais delicados do caso envolve os chamados recebíveis.

Quando um consumidor paga uma compra com cartão, o restaurante tem direito a receber aquele dinheiro posteriormente. Esses valores futuros podem ser utilizados como garantia para operações de crédito.

É daí que surge a chamada trava bancária.

Na prática, determinados recebíveis ficam vinculados a uma instituição financeira. Em vez de o dinheiro ficar totalmente livre para a empresa utilizar, ele pode ser direcionado ao pagamento de uma dívida garantida.

Para uma rede de restaurantes, isso é particularmente relevante.

O caixa gerado pelas vendas é necessário para manter a operação funcionando todos os dias. Se uma parcela importante desses recursos está comprometida com garantias financeiras, a empresa tem menos dinheiro disponível para suas despesas correntes.

O Grupo Gennius buscou na Justiça a liberação de parte desses recebíveis, mas não conseguiu obter integralmente o que pretendia.

O que acontece agora com a recuperação judicial?

O próximo grande passo será a apresentação do plano de recuperação judicial.

Pela Lei nº 11.101/2005, que regulamenta a recuperação judicial e a falência no Brasil, a empresa possui prazo legal para apresentar uma proposta detalhando como pretende reorganizar suas dívidas.

Esse plano poderá envolver diferentes mecanismos previstos na legislação, como:

  • alongamento dos prazos;
  • alteração das condições de pagamento;
  • reorganização societária;
  • venda de determinados ativos;
  • mudanças na estrutura operacional;
  • outras medidas destinadas à recuperação da empresa.

Depois, os credores poderão analisar a proposta, apresentar objeções e, conforme o caso, participar de uma assembleia-geral de credores.

A aprovação do plano será um dos momentos decisivos para o futuro do grupo.

O Habib’s ainda é um negócio viável?

Essa é uma das principais questões da recuperação judicial.

Uma empresa pode ter uma marca forte, milhares de clientes e restaurantes funcionando e, mesmo assim, enfrentar uma crise financeira grave.

Isso acontece porque faturamento não é a mesma coisa que geração de caixa.

Uma operação pode vender bastante, mas ter custos tão altos que o dinheiro restante não seja suficiente para pagar empréstimos, juros e demais obrigações.

No caso do Grupo Gennius, informações divulgadas sobre o processo indicam que a companhia pretende continuar operando e adaptar seus restaurantes aos novos hábitos de consumo.

Entre as estratégias estão formatos mais enxutos e maior foco em operações como delivery, drive-thru e consumo rápido.

O modelo de restaurantes também mudou

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O Habib’s cresceu em uma época em que o restaurante físico era o centro da experiência.

Unidades grandes, estacionamento, salão amplo, playground e drive-thru fizeram parte da expansão da marca pelo país.

Hoje, a lógica do setor é diferente.

O consumidor pode pedir comida pelo celular, retirar o pedido rapidamente ou consumir em estabelecimentos menores. Para as redes, isso abre espaço para formatos que exigem menos investimento e possuem custos fixos mais baixos.

Essa transformação pode ser fundamental para o processo de recuperação do Grupo Gennius.

Não basta renegociar a dívida. A empresa também precisa garantir que sua operação futura seja capaz de gerar caixa suficiente para sustentar os pagamentos previstos no plano.

O que acontece se o plano for rejeitado?

A recuperação judicial não garante que uma empresa será salva.

Caso o plano não seja apresentado dentro do prazo legal ou ocorram determinadas situações previstas na legislação, o processo pode resultar na decretação da falência.

Por outro lado, se os credores aprovarem uma proposta considerada viável e a companhia conseguir cumprir suas obrigações, a recuperação pode funcionar como uma ponte para a reorganização financeira.

No caso do Habib’s, os próximos meses serão fundamentais para determinar qual desses caminhos ganhará força.

A recuperação judicial pode afetar os funcionários?

Os créditos trabalhistas estão entre aqueles contemplados no processo.

A legislação brasileira dá tratamento específico às dívidas decorrentes da relação de trabalho, justamente por envolverem valores de natureza alimentar.

Isso não significa que os funcionários serão automaticamente demitidos por causa da recuperação judicial.

Enquanto as empresas continuarem funcionando, os contratos de trabalho podem permanecer normalmente. Eventuais mudanças dependerão das decisões operacionais e financeiras tomadas pelo grupo durante a reestruturação.

E os fornecedores?

Os fornecedores estão entre os grupos que mais acompanham uma recuperação judicial.

Empresas que vendem alimentos, embalagens, equipamentos e serviços para o grupo podem possuir valores a receber que estejam sujeitos ao processo.

O plano de recuperação deverá estabelecer como essas obrigações serão tratadas, respeitando as classes e condições previstas na legislação.

Para os fornecedores, portanto, a recuperação pode significar receber os valores em condições diferentes das originalmente contratadas.

O que o caso do Habib’s revela sobre o setor?

A crise do Grupo Gennius mostra que tamanho e reconhecimento de marca não eliminam riscos financeiros.

Empresas de alimentação trabalham com margens pressionadas, custos de insumos, mão de obra, aluguel, energia, logística e tecnologia. Quando o crédito fica mais caro, uma dívida elevada pode se tornar ainda mais pesada.

Ao mesmo tempo, o consumidor passou a comparar preços, utilizar mais aplicativos e esperar maior conveniência.

O desafio do Habib’s será equilibrar esses fatores sem perder a característica que ajudou a transformar a rede em uma das maiores marcas de alimentação do país.

O que o consumidor deve esperar daqui para frente?

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Imagem: Canva

Por enquanto, não existe motivo para acreditar que o consumidor deixará de encontrar as marcas do grupo por causa do pedido de recuperação judicial.

Habib’s, Ragazzo e Tendall continuam com suas operações.

A principal mudança acontece nos bastidores: a empresa terá de negociar com credores, apresentar um plano de recuperação e demonstrar que consegue sustentar suas atividades enquanto reorganiza uma dívida de centenas de milhões de reais.

A recuperação judicial será, portanto, menos sobre a próxima esfiha vendida e mais sobre quanto caixa a empresa consegue gerar depois que todas as contas são pagas.

Se o grupo conseguir combinar redução do peso da dívida com uma operação mais eficiente, a recuperação poderá abrir espaço para uma nova fase. Caso contrário, a pressão financeira continuará sendo um obstáculo para a continuidade do negócio.

Conclusão

A recuperação judicial do Grupo Gennius mostra que nem mesmo marcas consolidadas estão imunes à combinação de endividamento elevado, crédito caro e mudanças no comportamento do consumidor. Com R$ 265,2 milhões em dívidas submetidas ao processo, o Habib’s agora terá de reorganizar suas finanças sem interromper as operações.

Para o consumidor, a princípio, a rotina continua a mesma: as lojas seguem abertas e as marcas permanecem em funcionamento. O verdadeiro desafio acontece nos bastidores e estará na capacidade do grupo de reduzir a pressão financeira, recuperar a geração de caixa e apresentar aos credores um plano capaz de garantir a continuidade do negócio.

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