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Horário de verão pode ajudar na crise energética do Brasil? Saiba o que está em jogo

O horário de verão, extinto no Brasil desde 2019, voltou ao centro do debate público e técnico. Com a pressão crescente sobre o sistema elétrico brasileiro, esp

Bruna MachadoPor Bruna Machado6 min de leitura
Horário de verão não

O horário de verão, extinto no Brasil desde 2019, voltou ao centro do debate público e técnico. Com a pressão crescente sobre o sistema elétrico brasileiro, especialistas e representantes do setor discutem se essa antiga tática de adiantamento dos relógios ainda faz sentido nos dias atuais — e, principalmente, se pode ser uma solução eficaz diante dos novos padrões de consumo e da expansão das fontes renováveis, como a energia solar.

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Por que o horário de verão foi criado?

Horário de verão Lula
Imagem: New Africa / Shutterstock.com

O horário de verão era tradicionalmente adotado entre os meses de novembro e fevereiro, período de dias mais longos no Brasil. Durante esses meses, os relógios eram adiantados em uma hora. O principal objetivo era reduzir a demanda no chamado “horário de ponta” — entre o final da tarde e o início da noite — quando o consumo de energia disparava por conta da iluminação pública, banhos elétricos e eletrodomésticos acionados após o expediente de trabalho.

A medida foi oficialmente extinta pelo governo federal em 2019, após estudos apontarem que os ganhos energéticos já não compensavam as mudanças no comportamento de consumo. Mas com o aumento da geração solar e as transformações na matriz energética brasileira, o tema volta à pauta.

O que mudou no consumo de energia?

O novo horário de ponta

Segundo Walter Fróes, presidente da CMU Energia, o pico de consumo já não ocorre mais exclusivamente no início da noite. “Hoje, o maior consumo se dá no meio da tarde, impulsionado pelo uso massivo de aparelhos de ar-condicionado”, afirma. Ainda assim, o anoitecer continua sendo um ponto crítico, pois é quando a geração de energia solar começa a cair drasticamente.

Geração intermitente e desafios de estabilidade

Fernando Umbria, consultor em energia, aponta que o problema atual é mais complexo. “Com a inserção da energia solar, que é intermitente e depende da luminosidade, o sistema precisa lidar com uma curva de geração que começa no amanhecer, atinge o pico ao meio-dia e decresce até a noite. Quando o consumo aumenta no fim do dia, as fontes solares já estão em declínio.”

Esse descompasso entre geração e demanda exige que outras fontes sejam rapidamente acionadas — em especial as hidrelétricas e, eventualmente, as termelétricas. Isso impõe desafios operacionais ao Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), que precisa manter a estabilidade entre o que é gerado e o que é consumido.

A energia solar e o dilema do fim de tarde

A energia fotovoltaica hoje representa cerca de 20% da matriz energética brasileira, de acordo com a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar). No entanto, sua contribuição à rede elétrica se reduz consideravelmente após as 17h, justamente quando ocorre a elevação da demanda em muitas regiões urbanas.

Essa combinação de aumento no consumo e queda na oferta solar obriga o sistema a recorrer a fontes flexíveis de geração. A transição precisa ser rápida e eficiente — e é aí que o horário de verão pode ajudar, ao deslocar o uso de energia elétrica para momentos em que ainda há sol e, portanto, maior geração.

Retomar o horário de verão ainda vale a pena?

Argumentos favoráveis

Para os defensores da medida, o horário de verão continua relevante como instrumento de gestão da demanda. A economia de energia pode não ser tão expressiva quanto no passado, mas o alívio momentâneo nas horas críticas pode evitar sobrecargas, reduzir a necessidade de acionar usinas termelétricas — mais caras e poluentes — e contribuir para uma operação mais segura da rede elétrica.

Além disso, o horário de verão tem impactos positivos no consumo residencial e na iluminação pública, que permanece desligada por mais tempo ao longo do dia. Cidades com infraestrutura moderna, como iluminação LED com sensores de luminosidade, podem potencializar esse efeito.

Argumentos contrários

Por outro lado, estudos recentes do setor elétrico têm demonstrado que a economia direta gerada pelo horário de verão é limitada. A mudança de hábitos, o uso crescente de aparelhos de refrigeração e a descentralização da geração — com painéis solares em residências e empresas — tornaram os antigos benefícios menos evidentes.

Além disso, há fatores psicossociais a considerar. A mudança no relógio pode afetar o sono e a produtividade das pessoas. Crianças e idosos, em especial, sentem mais os impactos dessa alteração no ciclo circadiano.

O papel do ONS e a possível recomendação em 2025

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O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) tem sido pressionado a buscar soluções para manter o equilíbrio da rede nos próximos anos. Ainda que não tenha oficializado qualquer recomendação pelo retorno do horário de verão, fontes do setor indicam que a ideia está sendo analisada internamente como uma medida auxiliar diante da crescente complexidade da operação do sistema brasileiro.

O ONS trabalha com modelos que simulam diferentes cenários de oferta e demanda, levando em conta chuvas, disponibilidade de usinas, armazenamento hídrico e geração renovável. Nesse contexto, o horário de verão poderia ser uma “válvula de escape” temporária enquanto outras tecnologias — como baterias — ainda não são viáveis em larga escala.

O futuro: baterias e tecnologias de armazenamento

Uma das grandes apostas do setor elétrico está na popularização de baterias capazes de armazenar a energia gerada ao longo do dia para ser utilizada à noite. Isso reduziria drasticamente a dependência das fontes flexíveis e permitiria maior aproveitamento da energia solar.

Walter Fróes, da CMU Energia, afirma: “O futuro do setor elétrico aponta para bateria barata e competitiva. Quando isso acontecer, o horário de verão perderá ainda mais relevância.” No entanto, essa realidade ainda está distante para a maioria das residências e empresas brasileiras, que dependem de incentivos, redução de custos e avanços tecnológicos.

Reservatórios e período úmido abaixo da média

imagem mostra o sol atrás de torres de energia
Veto presidencial do Decreto de 2019 pode autorizar a volta do Horário de Verão | Reprodução/Canva.com

A instabilidade no regime de chuvas também pressiona o sistema. Embora os níveis atuais dos reservatórios de hidrelétricas não estejam críticos, o ONS alertou que o chamado período úmido de 2024 e 2025 foi abaixo da média. Isso acende um sinal amarelo, já que a geração hidrelétrica é uma das principais fontes de resposta rápida em momentos de pico de consumo.

A gestão eficiente da água estocada será determinante para garantir o fornecimento regular de energia até 2026. A adoção de medidas como o horário de verão, ainda que paliativas, pode aliviar parte da pressão caso um novo período seco se consolide.

Considerações finais: retorno é possível, mas exige decisão política

O retorno do horário de verão não é apenas uma decisão técnica, mas também política. Exige articulação entre o Ministério de Minas e Energia, o ONS e a Presidência da República, além de diálogo com estados e municípios.

A tendência é que, diante da necessidade de manter a estabilidade da rede e evitar apagões, medidas antes descartadas possam voltar ao debate. O horário de verão, mesmo com sua eficácia reduzida, pode ser uma dessas alternativas — ao menos até que tecnologias mais avançadas estejam amplamente disponíveis.

Bruna Machado

Autor

Bruna Machado

Bruna Cassana é gaúcha, natural de Pelotas, e atua como redatora no Seu Crédito Digital. Curiosa por natureza, está sempre conectada às tendências da web e às principais novidades sobre finanças, benefícios sociais e tecnologia. Com olhar atento às transformações digitais e linguagem acessível, Bruna contribui para informar e orientar leitores em decisões do cotidiano.

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