Brasileiros com mais de 60 anos respondem por 35,6% de todas as dívidas em atraso do país, segundo o Mapa da Inadimplência da Serasa de fevereiro de 2026. São 29 milhões de registros de dívidas de idosos — a maior fatia entre todas as faixas etárias. E o BPC de R$ 1.621 por mês, para quem depende dele, exigiria mais de 4 meses inteiros só para quitar a dívida média.
R$ 6.598 de dívida no Serasa: nem a aposentadoria nem o BPC estão protegendo os idosos
Idosos são 35% dos inadimplentes no Serasa — mais que qualquer outra faixa. Nem aposentadoria nem BPC cobrem a dívida média. Entenda e veja como negociar.
Quando o Brasil fala sobre inadimplência, a imagem mental costuma ser a de um jovem endividado no cartão de crédito ou um desempregado que não conseguiu pagar as contas. Os dados da Serasa, no entanto, contam uma história muito diferente — e muito menos visível.
Brasileiros com 60 anos ou mais são a maior parcela dos inadimplentes do país. Eles respondem por 35,6% de todas as dívidas em atraso, segundo o Mapa da Inadimplência da Serasa referente a fevereiro de 2026. Para efeito de comparação, jovens entre 18 e 25 anos respondem por apenas 17,4%.
E tem um detalhe que torna essa situação ainda mais grave: apenas 2% das pessoas que fecharam acordos no Serasa Limpa Nome têm 65 anos ou mais. Idosos devem mais — e buscam menos solução.
O tamanho do problema
O Brasil fechou fevereiro de 2026 com 81,7 milhões de inadimplentes — quase metade da população adulta (49,87%). O valor total das dívidas em atraso chegou a R$ 539 bilhões. O valor médio de dívida por pessoa é de R$ 6.598.
Dentro desse universo, a fatia dos 60+ é a maior:
| Faixa etária | % dos inadimplentes |
|---|---|
| Acima de 60 anos | 35,6% |
| 26 a 40 anos | 33,5% |
| 18 a 25 anos | 17,4% |
| 41 a 60 anos | 11,1% |
| Outros | 2,4% |
Isso significa que 29 milhões de registros de dívidas no banco de dados da Serasa pertencem a brasileiros com mais de 60 anos — superando todas as outras faixas etárias.
Quem é o idoso endividado?
Para entender por que os idosos lideram o ranking, é preciso olhar para a composição da renda na terceira idade — e para o acesso ao crédito que ela permite.
A maioria dos idosos brasileiros recebe algum benefício previdenciário. O INSS registra 27,3 milhões de beneficiários que recebem até 1 salário mínimo — grupo que inclui boa parte dos aposentados por idade e trabalhadores rurais. O BPC (Benefício de Prestação Continuada) atende 5,7 milhões de pessoas com renda familiar per capita abaixo de 1/4 do salário mínimo.
Essa renda — ainda que pequena — é estável, mensal e descontada na fonte. Para o sistema de crédito, ela é um ativo: o idoso consegue tomar empréstimo consignado descontado diretamente do INSS, financiar compras, fazer acordos parcelados.
O problema é o que acontece depois.
A dívida média registrada pela Serasa é de R$ 6.598. Para quem vive com um BPC de R$ 1.621 por mês, isso equivale a mais de 4 meses de renda bruta — sem gastar nada.
A armadilha do consignado na terceira idade
O crédito consignado é amplamente divulgado como a modalidade mais segura para o idoso: juros menores, desconto automático na folha, sem risco de inadimplência formal. Mas essa narrativa esconde um problema estrutural.
Quando o idoso compromete grande parte da aposentadoria em parcelas de consignado, o que sobra para as despesas básicas pode não ser suficiente. Ele então recorre ao cartão de crédito — que cobra juros de até 400% ao ano — para cobrir alimentação, remédios, plano de saúde.
É uma espiral: o consignado parece barato, cria folga na conta corrente, mas o que não entra no consignado vai para o cartão. E o cartão, com taxas absurdas, se transforma na dívida que puxa o idoso para a inadimplência.
O Mapa da Inadimplência da Serasa confirma que estados onde a inadimplência no cartão de crédito supera 10% — como Maranhão, Pará, Amazonas e Goiás — são os mesmos onde o acesso a crédito formal é historicamente menor, e onde a parcela de idosos sem aposentadoria contributiva é maior.
O BPC não está cobrindo — e os dados provam
O BPC existe para proteger exatamente quem não teve acesso ao mercado de trabalho formal o suficiente para se aposentar pelo INSS. Em abril de 2026, ele paga R$ 1.621 por mês — o salário mínimo nacional.
Mas esse valor, mesmo para quem não tem dívidas, é insuficiente na maioria das capitais brasileiras. Segundo levantamento do Seu Crédito Digital, o custo básico mensal estimado de uma pessoa vivendo sozinha em São Paulo é de R$ 5.253. No Rio de Janeiro, R$ 4.479. Em Belo Horizonte, R$ 3.341.
O BPC de R$ 1.621 cobre menos de 30% do custo básico em São Paulo — e menos de 50% em Belo Horizonte. Para o idoso que depende exclusivamente desse benefício e mora em qualquer capital do Sul ou Sudeste, a conta simplesmente não fecha.
O resultado não é difícil de imaginar: dívidas.
Quem recebe o quê na terceira idade
Para entender a dimensão do problema, é preciso olhar para a cobertura previdenciária dos brasileiros 60+:
| Benefício | Cobertura | Valor (2026) |
|---|---|---|
| Aposentadoria INSS (urbano) | ~20 mi pessoas | A partir de R$ 1.621 |
| Aposentadoria rural (INSS) | ~9 mi pessoas | R$ 1.621 (salário mínimo) |
| BPC LOAS (idoso 65+) | ~2,5 mi pessoas | R$ 1.621 |
| BPC PCD | ~3,2 mi pessoas | R$ 1.621 |
| Sem benefício formal | ~2 a 4 mi idosos | R$ 0 |
Estima-se que entre 2 e 4 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais não recebem nenhum benefício previdenciário ou assistencial. Para esses, a sobrevivência depende da família — ou de dívidas.
O dado mais desconcertante: idosos não buscam acordo
O Serasa Limpa Nome registrou 4 milhões de acordos fechados em fevereiro de 2026, com R$ 12,1 bilhões em descontos concedidos. O valor médio dos acordos foi de R$ 777 — uma redução significativa frente à dívida média de R$ 6.598.
Mas quando se olha quem fechou esses acordos, o contraste com a inadimplência é brutal:
Quem deve:
| Faixa | % dos inadimplentes |
|---|---|
| Acima de 60 anos | 35,6% — maior fatia |
| 26 a 40 anos | 33,5% |
| 18 a 25 anos | 17,4% |
| 41 a 60 anos | 11,1% |
Quem negociou no Limpa Nome:
| Faixa | % dos acordos |
|---|---|
| 30 a 40 anos | 30,2% — pico |
| 40 a 50 anos | 20,8% |
| 18 a 25 anos | 17,4% |
| 25 a 30 anos | 17,4% |
| 50 a 65 anos | 12,2% |
| Acima de 65 anos | 2,0% — quase ninguém |
A faixa que mais deve é a que menos busca renegociação. Apenas 2% dos acordos fechados no Limpa Nome são de pessoas acima de 65 anos.
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Por quê? Barreiras digitais (o app exige smartphone e internet), desconhecimento dos serviços, vergonha social, e — provavelmente — a crença de que a dívida não pode ser renegociada porque “já está descontando no INSS”.
A faixa que mais deve é a que menos negocia. O idoso brasileiro está preso em uma armadilha de crédito que o sistema não consegue alcançar.
O cruzamento que explica tudo: inadimplência + informalidade + renda
Quando cruzamos o Mapa da Inadimplência da Serasa com os dados do Score de Cidades — que analisa 5.570 municípios com base em 5 fontes oficiais — o padrão fica claro:
Os estados com maior inadimplência geral são, em muitos casos, aqueles com maior renda per capita urbana e maior acesso ao crédito formal — não os mais pobres. O Distrito Federal (IDH 0,824, o mais alto do Brasil) tem 62,11% de inadimplentes. São Paulo, 55,06%.
Isso confirma a tese: não é a pobreza que gera inadimplência — é o acesso ao crédito sem estrutura financeira para pagá-lo.
O idoso encaixa perfeitamente nesse perfil. Tem renda regular (INSS ou BPC), acessa crédito com facilidade, mas não tem folga orçamentária nem educação financeira para gerir múltiplos compromissos simultâneos.
O que fazer se você ou um familiar está nessa situação
Se um idoso da sua família está inadimplente, existem caminhos concretos:
1. Serasa Limpa Nome Negociação direta com credores, com descontos que chegam a 99% em alguns casos. Pode ser feito pelo site ou pelo app. O acordo médio é de R$ 777 — uma fração da dívida original.
2. Revisão do consignado INSS É possível verificar se há margem consignável sendo utilizada indevidamente. O portal Meu INSS (meu.inss.gov.br) mostra todos os descontos ativos.
3. BPC — verifique se tem direito Idosos com 65 anos ou mais e renda familiar per capita abaixo de 1/4 do salário mínimo têm direito ao BPC. Se ainda não recebe, o benefício pode ser solicitado online.
4. CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) Atendimento gratuito para orientação sobre benefícios sociais, renegociação de dívidas e acesso a programas de proteção.
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Fontes: Serasa — Mapa da Inadimplência, fevereiro de 2026. INSS — Boletim Estatístico da Previdência Social, janeiro de 2024. Score de Cidades — cruzamento de 5 bases oficiais, 5.570 municípios (IBGE, PNUD, MDS, Portal Transparência, Mapa Social). Custo de vida por capital: levantamento Seu Crédito Digital, abril de 2026. Os percentuais de faixa etária da Serasa referem-se à composição dos registros de inadimplência no banco de dados, não necessariamente ao percentual da população de cada faixa que está inadimplente.
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