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Imposto de 14% para quem ganha mais de R$ 50 mil mensais é sugerido pelo Ipea

Imposto mínimo de 14% sobre renda acima de R$ 50 mil mensais pode gerar R$ 145 bi por ano, segundo estudo do Ipea sobre justiça tributária no Brasil.

Bruna MachadoPor Bruna Machado6 min de leitura
Impostômetro imposto

Uma proposta de criação de um imposto global mínimo de 14% sobre a renda dos brasileiros mais ricos, com ganhos acima de R$ 50 mil por mês, tem potencial para elevar em até R$ 145,6 bilhões por ano a arrecadação com o Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF).

A estimativa foi apresentada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), na mais recente edição da Carta de Conjuntura.

A medida, que teria impacto direto sobre os 2% mais ricos da população, é vista por especialistas como um passo em direção à justiça tributária, corrigindo distorções que hoje penalizam proporcionalmente mais os contribuintes de renda baixa e média.

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Imagem: user6309018 – Freepik

O atual modelo brasileiro de tributação tem sido amplamente criticado por sua natureza regressiva. Isso significa que, proporcionalmente, quem ganha menos paga mais impostos do que quem ganha mais — principalmente quando se considera o peso dos tributos indiretos, como o ICMS, e as isenções sobre rendas do capital, como dividendos.

Segundo o técnico de planejamento e pesquisa do Ipea, Pedro Humberto Carvalho, autor do estudo, a ideia do imposto mínimo é corrigir essa regressividade no topo da pirâmide de renda. A proposta baseia-se no conceito de Tributação Efetiva Global da Renda (TEGR), que considera tanto o IRPF quanto as contribuições previdenciárias (CP) pagas pelo contribuinte.


Como funcionaria o imposto mínimo de 14%

Base ampla e progressiva

A alíquota de 14% seria aplicada apenas a contribuintes com renda mensal superior a R$ 50 mil e que hoje pagam uma carga tributária efetiva abaixo desse percentual.

O estudo mostra que, em 2022, o maior nível de tributação efetiva foi justamente de 14,1%, observado em grupos com renda média de R$ 16 mil — abaixo, portanto, do topo da distribuição de renda.

A proposta defende que esse patamar deveria ser o piso para os mais ricos. Ou seja, nenhum contribuinte com ganhos acima de R$ 50 mil por mês poderia ser tributado abaixo dessa alíquota global, considerando todas as fontes de renda e os tributos aplicados.

Incidência sobre renda total

A grande inovação está na definição da renda total, que incluiria:

  • Salários
  • Dividendos
  • Bônus
  • Prêmios de seguro
  • Reembolsos
  • Restituições
  • Auxílios diversos

Atualmente, muitos desses componentes não são tributados, o que distorce a carga fiscal real dos mais ricos.


Diferença em relação ao Projeto de Lei 1.087/2025

A proposta do Ipea vai além do Projeto de Lei nº 1.087/2025, enviado pelo governo ao Congresso Nacional, que também visa ampliar a faixa de isenção do IR para os mais pobres e aumentar a carga sobre os mais ricos.

Enquanto o PL propõe uma reforma progressiva, a sugestão do imposto mínimo se destaca por:

  • Estabelecer uma alíquota mínima obrigatória para o topo da pirâmide;
  • Unificar o tratamento da renda do trabalho e do capital;
  • Evitar a “fuga” de rendimentos para categorias isentas.

Impacto esperado na arrecadação

R$ 145,6 bilhões por ano

A simulação apresentada na Carta de Conjuntura do Ipea projeta que o imposto mínimo global de 14% poderia aumentar em até 40% a arrecadação anual do IRPF, o equivalente a R$ 145,6 bilhões.

Esse valor corresponde ao dobro do orçamento anual do Bolsa Família em 2024 e permitiria:

  • Ampliar programas sociais
  • Reduzir o déficit fiscal
  • Investir em infraestrutura e educação
  • Fomentar políticas públicas de redistribuição de renda

Tributação de dividendos: complemento à proposta

Alíquota de 15% na fonte

O autor do estudo defende ainda a tributação direta de 15% sobre todos os dividendos distribuídos, como forma de equalizar a carga entre trabalhadores assalariados e detentores de capital.

Atualmente, os dividendos são isenos de IRPF no Brasil, o que faz com que empresários e investidores paguem proporcionalmente menos imposto que um trabalhador formal com renda semelhante.

Essa medida também evitaria que o sistema continue premiando quem estrutura sua renda para se beneficiar de isenções.


Por que a proposta é considerada mais justa?

Equidade horizontal e vertical

A proposta busca garantir equidade horizontal (tratamento igual para rendas iguais) e equidade vertical (tributação mais elevada para rendas mais altas). Atualmente, o sistema brasileiro falha em ambos os aspectos, com:

  • Isenção sobre grande parte da renda de empresários;
  • Elevada carga sobre salários formais;
  • Contribuições previdenciárias com teto, que reduzem a progressividade.

Evita distorções na base tributária

Ao unificar a base de cálculo da TEGR, a proposta evita incentivos à manipulação da renda, seja por meio de bonificações disfarçadas, seja pelo uso de lucros e dividendos como substitutos de salário.


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Quem seria afetado pelo imposto mínimo?

Os 2% mais ricos do país

O estudo é claro: a medida afetaria exclusivamente os 2% mais ricos da população, estimados em pouco mais de 1,5 milhão de contribuintes no Brasil.

Esses contribuintes, em sua maioria:

  • Têm múltiplas fontes de renda
  • Estão nos maiores percentis de acúmulo de patrimônio
  • São responsáveis por grande parte do consumo de luxo e da remessa de capital ao exterior

O que continua isento?

Nem toda renda isenta hoje passaria a ser tributada. A proposta prevê que o imposto mínimo só se aplica se a carga tributária efetiva estiver abaixo dos 14% estabelecidos.

Ou seja, quem já paga mais do que isso — mesmo com renda alta — não teria aumento de imposto.


Repercussão e perspectivas

IR 2025 IGP-M
Imagem: MIND AND I / Shutterstock.com

Debate no Congresso

Embora ainda não tenha sido formalizada como proposta legislativa, a recomendação do Ipea deve influenciar o debate em torno da reforma tributária em andamento. Parlamentares da base governista já defendem maior contribuição da elite econômica para custear programas sociais.

Apoio popular e resistência do mercado

Pesquisas recentes indicam apoio majoritário da população à taxação dos mais ricos. Por outro lado, setores empresariais e investidores têm alertado para possíveis efeitos negativos sobre o investimento e o crescimento econômico.

No entanto, o Ipea rebate essas críticas destacando que a medida foca apenas em uma parcela mínima da população, com grande capacidade contributiva.


Considerações finais

A proposta de criação de um imposto mínimo global de 14% para os mais ricos surge como uma alternativa concreta para tornar o sistema tributário brasileiro mais justo, equilibrado e progressivo. Com potencial de gerar R$ 145 bilhões por ano, ela visa corrigir distorções históricas que penalizam a base da pirâmide enquanto privilegiam o topo.

Mais do que uma proposta fiscal, trata-se de uma estratégia de justiça social que pode fortalecer programas públicos, reduzir desigualdades e garantir que todos contribuam de forma proporcional à sua capacidade econômica.

O desafio agora é politizar o debate com responsabilidade, equilibrando justiça tributária com estímulo à atividade econômica, em uma reforma que olhe para o futuro do país.

Bruna Machado

Autor

Bruna Machado

Bruna Cassana é gaúcha, natural de Pelotas, e atua como redatora no Seu Crédito Digital. Curiosa por natureza, está sempre conectada às tendências da web e às principais novidades sobre finanças, benefícios sociais e tecnologia. Com olhar atento às transformações digitais e linguagem acessível, Bruna contribui para informar e orientar leitores em decisões do cotidiano.

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