O setor agropecuário brasileiro enfrenta um cenário de inadimplência crescente, preocupando bancos e produtores. Apesar de projeções recordes de safra, especialmente de milho e soja em 2025, diversas dificuldades econômicas e jurídicas estão pressionando as finanças do setor.
Crise no campo: inadimplência no agronegócio cresce entre produtores
Saiba como a inadimplência no agro ameaça bancos e produtores. Entenda o cenário e proteja seus investimentos.
Nos últimos meses, a inadimplência no agronegócio disparou, mesmo sem problemas climáticos ou de safra. O principal fator é a queda nos preços das commodities, que afetou diretamente a margem de produtores altamente alavancados.
Muitos tomaram crédito quando a Selic estava em mínimas históricas, nos anos de 2020 e 2021. Além disso, mudanças regulatórias, como a Resolução 4.966 do Banco Central, alteraram regras de provisionamento, introduzindo o conceito de “perda esperada” e pressionando ainda mais os bancos.
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Impacto nos Bancos

O Banco do Brasil, com participação de quase 50% do crédito agro, é o mais afetado. A inadimplência atingiu 3,94%, frente a 2,45% um ano antes, em uma carteira que soma R$ 404,9 bilhões. Atualmente, cerca de 20 mil clientes estão inadimplentes, e 74% nunca tinham registrado calote até 2023.
Distribuição Geográfica e Cultural
- Regiões: 52% da inadimplência está concentrada no Centro-Oeste e Sul.
- Culturas: 50% nos setores de soja, milho e bovinos.
Além disso, 808 clientes encontram-se em recuperação judicial, com uma carteira de R$ 5,4 bilhões. O aumento está relacionado a decisões do STF que equiparam grandes produtores rurais a empresas, permitindo que solicitem RJs na pessoa física.
Ação Judicial e “Litigância Predatória”
O BB tem denunciado campanhas de escritórios de advocacia voltadas à litigância predatória, incentivando pedidos de recuperação judicial, muitas vezes sem necessidade real. A presidente do banco, Tarciana Medeiros, afirma que medidas judiciais podem ser tomadas contra essas práticas abusivas.
Dados do Crédito Rural
Segundo o Banco Central, o crédito rural totalizou:
- Pessoa física: R$ 539,8 bilhões, crescimento anual de 7,5%.
- Pessoa jurídica: R$ 99,3 bilhões, alta de 9,4%.
Na pessoa física, a inadimplência saltou de 1,5% para 3,5% em apenas um ano.
A Serasa Experian identificou 389 pedidos de recuperação judicial no agro no primeiro trimestre, alta de 44,6% em comparação com o início de 2024.
Perspectiva dos Bancos Privados
Santander
O CEO Mario Leão alerta para trimestres desafiadores à frente, afirmando que o setor pode estar passando pelo momento mais difícil do ciclo agrícola.
Itaú
Milton Maluhy Filho destaca que a inadimplência afetou o setor nos últimos dois anos, mas o Itaú mantém uma carteira equilibrada, com apenas 5% dos pedidos de RJ do setor.
Bradesco
Marcelo Noronha reforça que a inadimplência está controlada e que o banco atua com foco em culturas rentáveis e linhas de crédito com garantias robustas.
Cooperativas e Situação Regional
O Sicredi observa aumento da inadimplência, mas de forma desigual, refletindo particularidades climáticas e perfis dos produtores. Cooperativas destacam a necessidade de distinguir casos legítimos de recuperação judicial de usos estratégicos do instrumento.
Plano Safra 25/26 e Expectativas
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O governo anunciou um Plano Safra de R$ 594,4 bilhões, sendo R$ 516,2 bilhões para médios e grandes produtores e R$ 78,8 bilhões para agricultura familiar. O aumento de apenas 1,69% frente à safra anterior está abaixo da inflação acumulada, gerando preocupação sobre a capacidade de rolagem de dívidas.
Juros e Subsídios
Juros elevados e redução de subsídios para grandes produtores contribuem para incerteza e endividamento. O diretor de agro do Santander, Carlos Aguiar, afirma que o contexto fiscal limita políticas de equalização, tornando 2025 um ano de desafios para o setor.
Estratégias do Banco do Brasil
Para conter a inadimplência, o BB adotou medidas como:
- Substituição de garantias tradicionais (penhor e hipoteca) por alienação fiduciária;
- Melhoria na esteira de cobrança;
- Judicialização de casos estratégicos.
O vice-presidente financeiro, Geovanne Tobias, destaca que o banco está deixando de priorizar relações amistosas para focar em gestão ativa de risco.
Desafios e Perspectivas Futuras

Mesmo com safras recordes, os produtores enfrentam:
- Custos altos;
- Prazos longos para recebimento;
- Maior exigência de garantias;
- Dificuldades na rolagem de dívidas.
A inadimplência deve permanecer pressionada até o terceiro trimestre de 2025, especialmente devido a atrasos no Plano Safra anterior.
Conclusão
O agronegócio brasileiro, apesar de produtivo e competitivo, enfrenta um cenário financeiro desafiador. O aumento da inadimplência preocupa bancos e produtores, destacando a importância de gestão de risco, acompanhamento do crédito e medidas estratégicas para garantir a sustentabilidade do setor.
Imagem: Freepik
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