Mesmo com bilhões de reais renegociados pelo novo Desenrola Brasil, a inadimplência dos brasileiros voltou a crescer e atingiu o maior patamar da série histórica do Banco Central. Os dados mostram que, embora milhares de pessoas tenham conseguido descontos e melhores condições para quitar débitos antigos, o número de atrasos superiores a 90 dias continuou aumentando.
O cenário evidencia que o problema do endividamento vai além da renegociação de dívidas. Especialistas apontam que fatores como juros elevados, aumento do custo de vida e maior dependência do crédito para despesas básicas continuam pressionando o orçamento das famílias.
Entenda por que a inadimplência segue em alta, quais modalidades concentram os maiores atrasos e o que esperar para os próximos meses.
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Inadimplência atinge maior nível da série histórica

Segundo as Estatísticas Monetárias e de Crédito do Banco Central, a taxa média de inadimplência nas operações de crédito chegou a 4,7% em maio, o maior índice desde o início da série histórica, iniciada em 2011.
O indicador considera operações com atraso superior a 90 dias envolvendo pessoas físicas e jurídicas.
Quando o foco são apenas as pessoas físicas nas operações de crédito livre, o cenário é ainda mais preocupante.
Nesse grupo, a inadimplência alcançou 7,6%, também o maior percentual já registrado pelo Banco Central.
O que é crédito livre?
O crédito livre é formado pelas modalidades em que os bancos têm autonomia para definir:
- taxas de juros;
- prazos;
- condições de pagamento;
- critérios de concessão.
Entre os principais exemplos estão:
- cartão de crédito;
- cheque especial;
- crédito pessoal;
- empréstimos sem destinação específica.
Essas modalidades costumam apresentar juros mais elevados do que linhas de crédito direcionado.
Crédito direcionado funciona de forma diferente
Já o crédito direcionado possui regras específicas estabelecidas por políticas públicas ou normas do sistema financeiro.
Nessa categoria estão financiamentos como:
- crédito imobiliário;
- crédito rural;
- financiamentos habitacionais;
- programas de incentivo a setores estratégicos.
Normalmente essas operações possuem juros menores e condições mais favoráveis.
Por que a inadimplência continua aumentando?
Segundo economistas, o aumento da renda observado nos últimos anos não foi suficiente para acompanhar o crescimento do custo de vida.
Mesmo com mercado de trabalho aquecido, despesas como:
- alimentação;
- aluguel;
- energia elétrica;
- transporte;
- medicamentos;
continuam consumindo parcela significativa da renda das famílias.
Como consequência, muitos brasileiros recorrem ao crédito para pagar despesas do dia a dia.
Crédito deixou de ser exceção
Especialistas destacam uma mudança importante no comportamento financeiro das famílias.
Antes, empréstimos e parcelamentos eram utilizados principalmente para compras maiores ou investimentos.
Hoje, em muitos casos, o crédito passou a complementar a renda mensal.
Na prática, parte da população utiliza:
- cartão de crédito para supermercado;
- cheque especial para pagar contas básicas;
- empréstimos pessoais para quitar outras dívidas.
Esse ciclo aumenta o comprometimento da renda e dificulta a recuperação financeira.
Juros elevados agravam a situação
Outro fator decisivo é o nível das taxas de juros.
Com a taxa Selic em patamar elevado, diversas modalidades de crédito continuam cobrando juros bastante altos.
Isso torna mais difícil:
- renegociar dívidas;
- quitar parcelas em atraso;
- substituir empréstimos caros por linhas mais baratas.
Além disso, muitas operações utilizam juros compostos, fazendo com que a dívida cresça rapidamente ao longo do tempo.
O Desenrola ajudou, mas não resolveu o problema
O governo federal lançou uma nova etapa do Desenrola Brasil justamente para facilitar a renegociação de dívidas.
Segundo dados oficiais, o programa renegociou cerca de R$ 15,9 bilhões desde o início da nova fase.
Grande parte desse valor corresponde ao:
- Desenrola Famílias;
- Desenrola Fies.
O objetivo é permitir que consumidores obtenham descontos e melhores condições para quitar débitos.
Por que a renegociação não reduziu imediatamente a inadimplência?
Especialistas apontam dois motivos principais.
O programa ainda é recente
Como o Desenrola começou em maio, ainda não houve tempo suficiente para que seus efeitos apareçam nas estatísticas do Banco Central.
Os indicadores de inadimplência refletem atrasos acumulados ao longo de vários meses.
O programa trata as consequências
Economistas afirmam que o Desenrola melhora as condições de pagamento, mas não elimina as causas do endividamento.
Se a renda continuar insuficiente para cobrir as despesas mensais, muitas famílias poderão voltar a recorrer ao crédito após renegociar suas dívidas.
Empresas também enfrentam aumento da inadimplência
O problema não afeta apenas pessoas físicas.
Entre as empresas, a inadimplência chegou a 3,2%, o maior nível registrado desde 2017.
O cenário reflete:
- maior custo financeiro;
- desaceleração em alguns setores;
- dificuldade de acesso ao crédito;
- aumento das despesas operacionais.
Endividamento continua elevado
Mesmo com renegociações, o comprometimento da renda das famílias permanece próximo de 50%, segundo dados do Banco Central.
Isso significa que uma parcela significativa da renda mensal continua destinada ao pagamento de financiamentos, empréstimos e demais obrigações financeiras.
Quanto maior esse comprometimento, menor é a capacidade de enfrentar imprevistos ou absorver novos aumentos de despesas.
Bets também preocupam especialistas
Além dos fatores tradicionais, economistas passaram a citar outro elemento que pode estar pressionando o orçamento das famílias.
O crescimento das apostas esportivas online, conhecidas como bets, vem sendo apontado como mais um fator que reduz a renda disponível para pagamento de contas e dívidas.
Embora esse não seja o principal motivo da inadimplência, especialistas consideram que o aumento desse tipo de gasto pode agravar a situação financeira de parte da população.
Como evitar o aumento das dívidas
Em um cenário de juros elevados, especialistas recomendam alguns cuidados.
Entre eles:
- evitar utilizar o cheque especial de forma recorrente;
- pagar integralmente a fatura do cartão de crédito sempre que possível;
- renegociar dívidas antes do atraso aumentar;
- comparar taxas entre diferentes instituições financeiras;
- priorizar o pagamento das dívidas com juros mais elevados.
Também é importante elaborar um orçamento doméstico para identificar despesas que possam ser reduzidas.
O que esperar para os próximos meses

A expectativa dos economistas é que o Desenrola contribua para reduzir parte da inadimplência ao longo dos próximos meses, principalmente entre famílias que conseguiram renegociar débitos com descontos significativos.
No entanto, a melhora tende a ser gradual. Enquanto fatores estruturais, como juros elevados, custo de vida e forte dependência do crédito para despesas essenciais, permanecerem presentes, o desafio do endividamento continuará afetando milhões de brasileiros.
Por isso, além de programas de renegociação, especialistas defendem a importância de educação financeira, ampliação do acesso a linhas de crédito mais baratas e políticas que fortaleçam a renda das famílias, criando condições para uma redução mais duradoura da inadimplência no país.
