O cenário econômico brasileiro em 2025 é desafiador para micro, pequenas e médias empresas (MPMEs). A taxa Selic, atualmente em 15% ao ano — o maior nível em quase duas décadas —, tem gerado um efeito cascata sobre o custo do crédito, o consumo e, sobretudo, a saúde financeira das empresas de menor porte.
Nesse ambiente de juros elevados, o crédito tem se tornado um recurso vital para manter as portas abertas. No entanto, a escalada do endividamento e da inadimplência mostra que essa solução vem acompanhada de sérios riscos e limitações.
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Busca crescente por crédito

Empréstimos em alta mesmo com custo elevado
Segundo dados do Banco Central (BC), as MPMEs contrataram R$ 1,179 bilhão em empréstimos em maio de 2025 — uma alta de 11,6% em relação ao mesmo mês do ano anterior. Esse montante tem sido utilizado principalmente para capital de giro, a fim de manter a operação funcionando mesmo diante da redução no consumo e no faturamento.
Impacto do custo do crédito
Com a Selic em alta, todas as modalidades de crédito foram encarecidas. Isso inclui desde o capital de giro até o desconto de duplicatas. A economista Camila Abdelmalack, da Serasa Experian, destaca:
“Apesar do empréstimo estar mais caro, o crédito é a forma que o pequeno empreendedor tem para manter a rotina financeira.”
Essa dependência do crédito, entretanto, tem um custo: a inadimplência disparou.
Inadimplência em níveis recordes
Crescimento acelerado das dívidas
A taxa de inadimplência entre MPMEs alcançou 5,1% em maio, o maior nível desde o início da série histórica do Banco Central. Para efeito de comparação, em janeiro essa taxa estava em 4,5%.
O reflexo direto dessa inadimplência é o aumento no número de pedidos de recuperação judicial. Em abril, quase 90% dos pedidos apresentados à Justiça partiram de empresas desse porte.
Número alarmante de CNPJs negativados
Dados da Serasa indicam que, dos 7,3 milhões de CNPJs negativados até março, 6,9 milhões pertencem a micro, pequenas e médias empresas — o que equivale a mais de 94% do total. Isso evidencia a vulnerabilidade financeira desses negócios diante da alta dos juros e da inflação.
Fatores que pressionam a inadimplência
Inflação persistente
Mesmo com esforços para conter a inflação, o índice permanece elevado, reduzindo o poder de compra da população. Com menos dinheiro circulando, as vendas das PMEs caem, comprometendo o caixa e a capacidade de pagamento.
Tributação e o risco do IOF
Outro agravante é a carga tributária. O Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), que incide sobre empréstimos, poderia piorar ainda mais a situação. Felizmente, a aplicação de novas regras para o imposto foi suspensa após decisão do STF, que determinou uma reunião de conciliação entre Executivo e Legislativo.
“Qualquer aumento de imposto num ambiente já extremamente tributado encarece o crédito e pesa na capacidade de pagar dívidas”, alerta Miguel Ribeiro de Oliveira, diretor da Anefac.
Como as PMEs estão reagindo
Antecipação de recebíveis: uma alternativa emergencial
Com o crédito tradicional mais caro, muitos empreendedores têm recorrido à antecipação de recebíveis, especialmente via maquininhas de cartão. Essa modalidade oferece liquidez imediata, mas também apresenta custos elevados.
Reestruturação e autofinanciamento
Algumas empresas, como o aplicativo Eats For You, estão postergando investimentos e apostando em crescimento com recursos próprios:
“Postergamos investimentos para 2026 e 2027. Com crédito caro, reestruturamos a companhia para focar na autossuficiência”, afirma Nelson Andreatta, fundador da empresa.
Casos reais: crédito como ferramenta de sobrevivência
Cervejaria Hocus Pocus
A empresa chegou ao limite da produção e avalia se recorrerá a crédito ou aportes de investidores. A Selic alta, no entanto, torna o financiamento uma opção arriscada:
“Subindo ainda mais a Selic, fica difícil obter financiamento. É uma corda no pescoço”, desabafa Pedro Butelli, diretor da marca.
Agência de turismo no Norte do país
A RR Adventure, de Boa Vista (RR), buscou crédito com aval do Sebrae. A operação, de R$ 65 mil, foi usada como capital de giro e para renovação de equipamentos.
“Com o aval, o juro fica mais baixo. Preservamos caixa para emergências”, explica Lena Matos, sócia da agência.
Papel do Sebrae e do BNDES no apoio às PMEs

Crédito com aval: alternativa mais segura
O Sebrae atua como avalista, o que reduz os riscos para bancos e melhora as condições de empréstimo para os pequenos empresários. Entre 2023 e 2024, o Sebrae viabilizou R$ 3,5 bilhões em crédito para mais de 50 mil empreendedores, com meta de chegar a R$ 12 bilhões em 2025.
Fundo Garantidor BNDES-Sebrae
O lançamento do Fundo Garantidor BNDES-Sebrae (FGBS) foi um marco importante. A proposta é ampliar a concessão de crédito com garantia, reduzindo os riscos e facilitando o acesso aos recursos.
Recorde no crédito do BNDES
Em 2024, o BNDES aprovou R$ 92,4 bilhões em crédito para MPMEs, o maior volume desde 2013. A distribuição foi:
- R$ 52,2 bilhões para médias empresas;
- R$ 27,5 bilhões para pequenas empresas;
- R$ 12,7 bilhões para microempresas.
A expectativa para 2025 é manter esse patamar e lançar um fundo dedicado exclusivamente às PMEs.
O que esperar do futuro?
O cenário atual exige cautela e estratégia das MPMEs. Apesar dos esforços do governo e das instituições de fomento, como o Sebrae e o BNDES, o endividamento elevado e a inadimplência recorde indicam que o ambiente de negócios ainda é hostil para pequenos empreendedores.
A solução passa por uma combinação de fatores:
- Queda na Selic;
- Redução da carga tributária sobre crédito;
- Fortalecimento dos mecanismos de garantia e apoio técnico;
- Estímulo à inovação com financiamento acessível.
Enquanto isso não acontece, o crédito continua sendo o oxigênio — muitas vezes caro e limitado — que mantém vivas milhares de pequenas empresas em todo o Brasil.
Imagem: Canva
