Seu Crédito Digital
Seu Crédito Digital

Inflação recua com força em agosto, porém conta de luz deve voltar a subir

Avatar de Jéssica Cassana Jéssica Cassana · · 9 min de leitura
Inflacao agosto

A inflação oficial do Brasil registrou queda de 0,32% em agosto de 2026, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Foi a primeira deflação registrada no ano e o menor resultado para um mês de agosto desde 2022.

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) havia avançado 0,07% em julho. Com o resultado de agosto, a inflação acumulada em 2026 chegou a 3,11%, enquanto o avanço nos últimos 12 meses ficou em 4,22%.

A principal responsável pela queda foi a energia elétrica residencial, influenciada pelo Bônus de Itaipu. Transportes e alimentação também ajudaram a puxar o índice para baixo.

O resultado, entretanto, não significa que todos os produtos ficaram mais baratos nem que o consumidor deve esperar novas quedas generalizadas nos próximos meses.

Leia mais:

Eleição pode influenciar ritmo de cortes da Selic? Veja o que o Copom acompanha

Por que a inflação caiu 0,32% em agosto?

inflação
Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital

Quatro dos nove grupos pesquisados pelo IBGE apresentaram redução de preços em agosto: Habitação, Transportes, Alimentação e bebidas e Comunicação.

A maior queda ocorreu em Habitação, com recuo de 1,87%. Transportes caiu 0,86%, Alimentação e bebidas apresentou redução de 0,34% e Comunicação recuou 0,09%.

O principal destaque, porém, foi a conta de energia elétrica.

A energia residencial caiu 7,63% em agosto e teve impacto negativo de aproximadamente 0,33 ponto percentual no IPCA. Na prática, somente esse item teve influência suficiente para levar o índice geral para território negativo.

Isso ajuda a explicar por que a deflação de agosto precisa ser interpretada com cautela: uma parcela relevante da redução esteve concentrada em um item específico.

Bônus de Itaipu derrubou o preço da energia elétrica

A queda da conta de luz ocorreu principalmente devido à incorporação do Bônus de Itaipu nas faturas emitidas durante agosto.

O mecanismo permite que resultados positivos da Conta de Comercialização de Energia Elétrica de Itaipu sejam devolvidos a consumidores residenciais e rurais elegíveis por meio de créditos na conta de energia.

A legislação determina que, quando a conta apresenta resultado positivo, parte dos recursos pode ser rateada entre consumidores do Sistema Interligado Nacional dentro das regras estabelecidas para o benefício.

Para 2026, a Aneel aprovou a aplicação do crédito nas faturas emitidas durante agosto para consumidores elegíveis.

O desconto ajudou a fazer a energia elétrica residencial cair 7,63% na média apurada pelo IPCA, mesmo com a bandeira tarifária amarela em vigor durante o mês.

A bandeira amarela acrescentou R$ 1,885 a cada 100 quilowatts-hora (kWh) consumidos em agosto, segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

Ou seja, o crédito extraordinário de Itaipu foi forte o suficiente para mais do que compensar outras pressões existentes sobre a conta de luz na média calculada pelo IBGE.

Alimentos ficaram mais baratos pelo quarto mês seguido

A alimentação também contribuiu para a deflação.

O grupo Alimentação e bebidas caiu 0,34% em agosto. Dentro de casa, a redução foi ainda maior: a alimentação no domicílio recuou 0,61%.

Entre os alimentos que ficaram mais baratos no período estiveram produtos importantes da cesta das famílias, como batata-inglesa, cenoura, cebola, tomate, ovos e café moído.

A batata-inglesa apresentou uma das quedas mais expressivas, enquanto cenoura, cebola e tomate também tiveram reduções superiores a 10%.

Isso não significa, entretanto, que a alimentação como um todo voltou aos preços de anos anteriores.

O IPCA compara os preços com o mês imediatamente anterior. Portanto, uma queda de determinado produto em agosto apenas indica que ele ficou mais barato em relação a julho, e não necessariamente que voltou a um patamar considerado baixo pelo consumidor.

Passagens aéreas e combustíveis ajudaram a reduzir o IPCA

O grupo Transportes caiu 0,86% em agosto e também teve participação importante no resultado.

O principal destaque foram as passagens aéreas, que ficaram 13,17% mais baratas no mês e exerceram impacto de aproximadamente -0,11 ponto percentual sobre o índice geral.

Os combustíveis também apresentaram redução média.

O etanol caiu 3,95%, o óleo diesel recuou 0,80% e a gasolina ficou 0,59% mais barata. Na direção contrária, o gás veicular apresentou alta.

O transporte por aplicativo também registrou redução de preços no período pesquisado.

Essas quedas, somadas à energia elétrica e à alimentação, foram suficientes para compensar os aumentos observados em outras partes da cesta de consumo das famílias.

Deflação significa que tudo ficou mais barato?

Não.

Esse é um dos principais pontos para entender o resultado de agosto.

O IPCA é formado por centenas de produtos e serviços com pesos diferentes no orçamento familiar. Quando o índice fica negativo, significa que a variação média ponderada dessa cesta apresentou queda.

Isso não quer dizer que todos os preços diminuíram.

O próprio levantamento de agosto mostra isso claramente. O índice de difusão calculado pelo IBGE ficou em 54%, indicando que mais da metade dos 377 produtos e serviços pesquisados apresentou aumento de preço durante o mês.

Assim, duas famílias podem ter percepções bastante diferentes da inflação.

Quem teve uma conta de energia beneficiada pelo crédito e comprou alimentos que ficaram mais baratos pode ter percebido maior alívio. Já uma família que concentrou os gastos em serviços e produtos que subiram pode não ter sentido redução alguma no orçamento.

IPCA de 12 meses caiu para 4,22%

Apesar de a deflação mensal chamar atenção, o acumulado em períodos mais longos oferece uma visão mais completa sobre a evolução do custo de vida.

Nos 12 meses encerrados em agosto, o IPCA acumulou alta de 4,22%, abaixo dos 4,44% registrados nos 12 meses encerrados em julho.

No acumulado de janeiro a agosto de 2026, a alta chegou a 3,11%.

Portanto, mesmo com a redução registrada especificamente em agosto, os preços médios continuam superiores aos observados no início do ano e há 12 meses.

É justamente por isso que uma deflação mensal não pode ser interpretada como uma reversão completa da inflação acumulada.

A inflação vai continuar caindo?

O resultado de agosto não permite concluir que o Brasil entrou em um período prolongado de queda de preços.

Uma das principais forças por trás da deflação foi o crédito relacionado ao Bônus de Itaipu, um efeito específico sobre as contas de energia daquele período.

Além disso, as expectativas para o restante de 2026 continuam apontando inflação positiva no acumulado do ano.

No Relatório Focus divulgado pelo Banco Central em 21 de setembro, a mediana das projeções do mercado apontava IPCA de 4,92% para 2026. O Focus reúne estimativas de instituições financeiras e outros participantes do mercado e não representa uma previsão própria do Banco Central.

A projeção mostra a diferença entre uma queda mensal e a trajetória da inflação ao longo do ano.

É possível ter deflação em um mês e, ainda assim, terminar o ano com alta relevante no nível geral de preços.

Além disso, alimentos continuam sujeitos a fatores como clima, oferta agrícola e custos de produção. O Banco Central já destacou riscos relacionados ao El Niño para a inflação da alimentação ao longo de 2026 e 2027.

Como a queda da inflação afeta o orçamento familiar?

Inflação
Imagem: Edição/ Seu Crédito Digital

A deflação pode representar algum alívio imediato quando ocorre justamente em despesas relevantes para o orçamento.

Uma família que gastava R$ 250 com energia elétrica, por exemplo, pode perceber uma redução significativa se tiver direito ao crédito concedido na fatura. O valor efetivo, porém, depende de consumo, tarifa da distribuidora, impostos e demais componentes da conta.

O mesmo vale para alimentos.

Quando produtos como tomate, batata, cebola e cenoura ficam mais baratos ao mesmo tempo, a compra no supermercado pode diminuir, especialmente para famílias que consomem esses itens com frequência.

Contudo, o ideal é não considerar uma queda pontual como permanente.

Caso uma despesa fique temporariamente menor, uma estratégia simples é direcionar parte da diferença para reserva de emergência, pagamento de dívidas ou despesas futuras.

IPCA e INPC caíram juntos em agosto

Outro indicador importante divulgado pelo IBGE também apresentou deflação.

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) caiu 0,32% em agosto, mesmo resultado mensal do IPCA. O índice acumula alta de 3,17% em 2026 e de 3,98% em 12 meses.

A diferença entre os dois indicadores está principalmente no público considerado.

O IPCA mede a variação dos preços para famílias com rendimento mensal de um a 40 salários mínimos e é utilizado como indicador oficial da inflação brasileira.

Já o INPC acompanha famílias com rendimento de um a cinco salários mínimos, grupo que tende a destinar uma parcela maior da renda para despesas essenciais.

Por isso, acompanhar os dois índices ajuda a entender como as mudanças nos preços atingem diferentes parcelas da população.

Queda de agosto traz alívio, mas não encerra a pressão sobre os preços

A deflação de 0,32% registrada em agosto de 2026 trouxe um alívio importante depois da alta de 0,07% observada em julho.

Energia elétrica, passagens aéreas, combustíveis e alimentos foram os principais responsáveis pelo resultado negativo.

Porém, a queda da conta de luz teve forte influência de um fator específico: o Bônus de Itaipu. Por isso, o resultado mensal não deve ser interpretado como sinal de que todos os preços começaram a cair de forma permanente.

Para o consumidor, a leitura mais útil é acompanhar não apenas o número do mês, mas também o IPCA acumulado em 12 meses e, principalmente, os preços que possuem maior peso no próprio orçamento.

Mesmo com a deflação de agosto, a inflação acumulada em 12 meses permaneceu positiva, em 4,22%, mostrando que o custo de vida ainda está acima do registrado um ano antes.

Compartilhar