Um documento revelado pelo senador Fabiano Contarato (PT) trouxe à tona novas informações sobre a crise que envolve o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). O material mostra que o ex-ministro da Previdência, José Carlos Oliveira — que atualmente se apresenta como Ahmed Mohamad — já havia sido informado em 2018 sobre descontos indevidos aplicados a aposentados e pensionistas. Naquele período, Oliveira ocupava o cargo de superintendente do INSS em São Paulo. A denúncia indica que ele tinha ciência das irregularidades cinco anos antes de assumir a pasta da Previdência no governo Jair Bolsonaro (PL).
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A CPMI e o depoimento decisivo

Na quinta-feira, 11 de setembro, Oliveira prestou depoimento à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que investiga fraudes no INSS. Durante a sessão, foi confrontado com as contradições entre seu depoimento e as evidências apresentadas pelo MPF. Em mais de uma ocasião, parlamentares chegaram a cogitar prisão em flagrante por falso testemunho.
O escândalo dos descontos irregulares
Como a fraude veio à tona
O escândalo dos descontos foi revelado pelo portal Metrópoles a partir de dezembro de 2023, em uma série de reportagens investigativas. Os conteúdos expuseram que aposentados vinham sendo filiados a associações sem consentimento, sofrendo descontos mensais que chegavam a comprometer parte significativa de seus benefícios. Em apenas um ano, a arrecadação dessas entidades disparou, alcançando R$ 2 bilhões. Muitas delas respondiam a milhares de processos na Justiça por fraude nas filiações.
Investigações e desdobramentos
As publicações jornalísticas desencadearam inquéritos da Polícia Federal (PF) e apurações internas da Controladoria-Geral da União (CGU). No total, 38 reportagens do Metrópoles foram citadas pela PF na representação que levou à Operação Sem Desconto, deflagrada em 23 de abril de 2024. A operação resultou nas demissões do presidente do INSS e do então ministro da Previdência, Carlos Lupi, marcando uma reviravolta na política previdenciária brasileira.
O alerta do MPF em 2018
O papel da procuradora Priscila Costa Röder
Em 5 de junho de 2018, a procuradora da República Priscila Costa Röder notificou José Carlos Oliveira sobre os descontos irregulares. O documento relatava casos de aposentados que tinham valores debitados em nome de entidades como CENTRAPE e ANAPPS, sem autorização prévia. Os beneficiários, ao tentar cancelar os débitos, enfrentavam obstáculos burocráticos. Segundo a denúncia, mesmo após o cancelamento, novos descontos eram reativados por outras associações.
O risco coletivo
A procuradora alertou que o problema não era isolado. Havia indícios de que a prática ocorria em escala nacional, afetando milhares de cidadãos. Ela exigiu medidas efetivas por parte do INSS para evitar que aposentados e pensionistas continuassem a ser lesados. Oliveira teve dez dias para se manifestar, respondendo em 26 de junho de 2018. Na ocasião, afirmou que o cancelamento deveria ser solicitado nas próprias entidades ou em agências do INSS. A resposta minimizou o problema e não trouxe soluções estruturais.
A ascensão de José Carlos Oliveira

De superintendente a ministro
Apesar das denúncias, Oliveira seguiu sua trajetória dentro da autarquia. Em 2021, foi convidado para a diretoria de benefícios do INSS. No ano seguinte, assumiu o Ministério da Previdência Social no governo Bolsonaro. Durante sua gestão, os descontos associativos se ampliaram, beneficiando principalmente entidades suspeitas de ligação com operadores do esquema fraudulento.
A ligação com a Ambec e o “careca do INSS”
Entidade mais beneficiada
A Associação de Aposentados Mutualista para Benefícios Coletivos (Ambec) desponta como uma das maiores beneficiadas pelo esquema. Até março de 2025, acumulava R$ 500,9 milhões em arrecadação proveniente de descontos aplicados diretamente nos benefícios previdenciários.
Crescimento exponencial
Segundo a CGU, em 2021, a Ambec arrecadou apenas R$ 135. No ano seguinte, após mudanças em acordos de cooperação, os valores saltaram para R$ 14,9 milhões. Em 2023, a cifra atingiu R$ 91,3 milhões, representando um aumento exponencial.
Relações suspeitas
Investigações apontam que a Ambec transferiu cerca de R$ 11,9 milhões a empresas ligadas ao empresário conhecido como “careca do INSS”, figura central no esquema fraudulento. O próprio Oliveira foi citado em representações da PF por supostas movimentações financeiras suspeitas.
As incoerências no depoimento
A negativa de conhecimento
Durante o depoimento à CPMI, Oliveira afirmou que não tinha conhecimento sobre os descontos indevidos. No entanto, a apresentação do documento do MPF contradiz frontalmente sua versão.
Ameaça de prisão
As contradições levaram senadores e deputados a cogitar prisão em flagrante por falso testemunho. O episódio aumentou a pressão sobre o ex-ministro, cuja atuação no INSS passa agora por um escrutínio rigoroso.
Impacto para os aposentados
A vulnerabilidade dos beneficiários
O esquema atingiu principalmente aposentados e pensionistas, considerados público vulnerável. Muitos deles tiveram dificuldades para contestar descontos que, em alguns casos, comprometiam parcela significativa da renda.
A necessidade de reparação
A CPMI deve propor medidas de reparação financeira às vítimas, além de recomendações para maior controle sobre acordos entre o INSS e entidades associativas.
Perspectivas das investigações

O papel da Polícia Federal e da CGU
A Polícia Federal segue investigando movimentações financeiras suspeitas envolvendo ex-gestores e entidades beneficiadas. Já a CGU reforça a necessidade de maior transparência e monitoramento dos convênios firmados pelo INSS.
Possíveis desdobramentos políticos
A revelação compromete ainda mais a imagem do ex-ministro, que poderá enfrentar processos judiciais. O caso também levanta questionamentos sobre a fiscalização interna da autarquia e a responsabilidade de outros ex-dirigentes.
Conclusão
O caso dos descontos indevidos no INSS expõe um dos maiores escândalos envolvendo aposentados e pensionistas na história recente do Brasil. O documento do MPF prova que o problema era conhecido desde 2018 e que medidas preventivas poderiam ter evitado perdas milionárias e sofrimento de milhares de beneficiários. As investigações em curso buscam não apenas responsabilizar os envolvidos, mas também garantir maior proteção para os segurados da Previdência Social.
