O número de pescadores registrados no sistema do Ministério da Pesca teve um salto alarmante em 2025.
Investigação aponta suspeita de nova fraude ao INSS com pescadores‑fantasma
Investigação revela possível fraude no seguro‑defeso: pescadores‑fantasma recebem INSS. Governo inicia auditoria para apurar irregularidades.
De 1,2 milhão em 2024, passou para quase 2 milhões até julho deste ano, acendendo o sinal de alerta em órgãos de controle e fiscalização.
Em diversas cidades, já foi constatado que a quantidade de beneficiários do seguro-defeso, pago pelo INSS, ultrapassa em muito a estimativa real de pescadores atuantes.
Essa disparada de registros levanta a suspeita de uma nova fraude previdenciária envolvendo os chamados “pescadores-fantasma”.
São pessoas que, em tese, exercem a atividade pesqueira, mas que, na prática, não têm qualquer vínculo com a profissão.
Mesmo assim, estariam se beneficiando indevidamente do auxílio pago pelo governo federal.
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O que é o seguro-defeso e quem tem direito?

Um benefício criado para proteger a pesca artesanal
O seguro-defeso é um benefício do INSS destinado a garantir a renda de pescadores artesanais durante o período de defeso, quando a pesca de determinadas espécies é proibida para preservar o meio ambiente.
Criado em 1991, o benefício passou a representar um dos principais instrumentos de apoio social à categoria.
Requisitos para receber o benefício
Para ter direito ao seguro-defeso, é necessário:
- Comprovar o exercício da pesca artesanal como atividade exclusiva;
- Estar devidamente registrado no Registro Geral da Atividade Pesqueira (RGP);
- Ter realizado contribuições ao INSS;
- Comprovar a comercialização do pescado.
O valor e o impacto financeiro
O seguro é pago mensalmente durante o período de proibição da pesca, geralmente entre 3 a 5 meses. O valor equivale a um salário mínimo por mês. Em 2024, o gasto total com o benefício foi de cerca de R$ 6 bilhões.
A multiplicação dos pescadores: números que não batem
Cidades com mais beneficiários do que habitantes pescadores
A reportagem do UOL identificou que em algumas localidades — especialmente em municípios pequenos do interior — há mais pescadores registrados do que seria plausível, considerando o número de habitantes e a estrutura econômica da cidade.
Em determinados municípios, o número de pessoas recebendo o seguro-defeso supera a quantidade de pescadores ativos segundo levantamentos do próprio IBGE.
Isso indica não apenas possível fraude individual, mas esquemas organizados de aliciamento de pessoas para simular a condição de pescador artesanal.
A força política das federações de pesca
Segundo a colunista Natália Portinari, que participou do episódio #81 do Podcast UOL Prime, há indícios de que parte das fraudes tenha ligação com a atuação de líderes locais e federativos.
“Os presidentes das federações de pesca têm muita força no interior, porque controlam o seguro-defeso e conseguem se beneficiar politicamente disso”, afirmou Natália.
Esse poder de influência, somado à dificuldade de fiscalização em regiões remotas, cria um terreno fértil para irregularidades.
A reação do governo: auditoria e promessa de rigor
Ministério da Pesca anuncia auditoria nacional
Após a repercussão da reportagem, o governo federal anunciou uma auditoria completa no sistema de concessão do seguro-defeso. A intenção é cruzar dados dos beneficiários com outras bases de informação, como o Cadastro Único (CadÚnico), registros de venda de pescado, e contribuições ao INSS.
O Ministério da Pesca e Aquicultura, em nota, declarou que está “comprometido com a lisura do processo” e que já houve suspensão cautelar de milhares de registros suspeitos, inclusive com a convocação de recadastramento presencial em algumas regiões.
A atuação da Controladoria-Geral da União (CGU) e do TCU
Tanto a CGU quanto o Tribunal de Contas da União (TCU) passaram a acompanhar o caso. As instituições já haviam alertado, em auditorias anteriores, sobre a fragilidade nos critérios de concessão do benefício.
Agora, com os novos indícios, pode haver abertura de inquéritos e responsabilizações administrativas e penais.
O impacto da fraude no sistema previdenciário
Prejuízos financeiros e sociais
As fraudes contra o INSS não afetam apenas o erário público. Elas prejudicam a credibilidade dos programas sociais e atrasam o pagamento para quem realmente necessita do benefício.
Com R$ 6 bilhões anuais sendo investidos no seguro-defeso, mesmo uma taxa de fraude relativamente baixa já representa um desvio milionário. Em alguns cenários levantados por especialistas, a fraude pode alcançar até 20% do total dos pagamentos, o que significaria cerca de R$ 1,2 bilhão por ano.
A importância de reformular os mecanismos de controle
Diversos especialistas defendem que o sistema de concessão do seguro-defeso precisa passar por uma reformulação completa. Propostas incluem:
- Digitalização e rastreamento de dados de produção pesqueira;
- Adoção de tecnologia de georreferenciamento para mapear áreas de atuação de pescadores;
- Parcerias com universidades e centros de pesquisa para validar a atividade pesqueira por meio de dados de campo.
Fraude ao INSS: um problema que vai além da pesca
Outras modalidades de fraude
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O caso dos pescadores-fantasma é apenas um entre vários episódios que envolvem fraudes ao INSS. Recentemente, outras investigações apontaram cadastros irregulares de aposentadorias, pensões por morte e auxílios-doença.
Também são frequentes as denúncias de descontos indevidos em contas de aposentados, muitas vezes sem autorização ou com uso de dados vazados.
A fragilidade dos sistemas públicos
Parte do problema está na complexidade dos sistemas e na dificuldade de cruzamento de dados em tempo real. A integração entre ministérios, INSS, Receita Federal e órgãos estaduais ainda é limitada, o que dificulta a detecção de fraudes antes que elas causem prejuízos.
O papel da sociedade e da imprensa na fiscalização
Reportagens como mecanismo de controle social
A apuração do UOL, que gerou a investigação atual, mostra como o trabalho da imprensa é essencial para revelar irregularidades que muitas vezes passam despercebidas pelas instituições públicas. A exposição de dados suspeitos provoca mobilização de órgãos de controle e do próprio governo.
Denúncia e participação cidadã
O cidadão comum também pode contribuir. O Ministério da Pesca possui canais para denúncia anônima, e o próprio INSS pode ser informado de irregularidades por meio da Ouvidoria-Geral.
O futuro do seguro-defeso

Manter o benefício, corrigindo distorções
Apesar das fraudes, o consenso entre especialistas é que o seguro-defeso continua sendo essencial para a subsistência de milhares de pescadores artesanais, especialmente em regiões ribeirinhas e no Norte e Nordeste do país.
No entanto, sem uma atuação firme do governo, o risco de o programa se transformar em instrumento político ou fonte de corrupção permanece alto.
Propostas em debate
Entre as sugestões que circulam no Congresso e no Executivo, estão:
- Implantação de um sistema único de dados de produção pesqueira;
- Certificação por cooperativas ou sindicatos com registro regularizado;
- Fiscalizações por amostragem com auditorias de campo.
A reforma do seguro-defeso, portanto, não é apenas um desafio técnico, mas também político e institucional.
Conclusão
A investigação sobre os pescadores-fantasma expõe uma face sensível do sistema previdenciário brasileiro: a facilidade com que fraudes ainda podem ser cometidas em programas sociais mal fiscalizados.
Com quase R$ 6 bilhões pagos anualmente, o seguro-defeso é vital para muitos — mas também pode se tornar um canal de corrupção institucionalizada se não houver rigor na concessão e controle dos benefícios.
A promessa de auditoria é um passo importante, mas precisa ser acompanhada de ações concretas e contínuas, capazes de restaurar a confiança na política pública e garantir que o recurso chegue, de fato, a quem realmente depende dele.
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