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Isenção de até R$ 5 mil no IR pode aumentar desigualdade? Entenda

Estudo do Ministério da Fazenda mostra que isentar IR até R$ 5.000 sem imposto mínimo para ricos agrava a desigualdade e distorce o sistema.

Bianca BorgesPor Bianca Borges6 min de leitura
IR

Um novo estudo da Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Fazenda aponta que isentar do Imposto de Renda (IR) pessoas com rendimento mensal de até R$ 5.000, sem a contrapartida da criação de um imposto mínimo sobre as rendas mais altas, pode acentuar a desigualdade social no Brasil.

A medida, popular e amplamente apoiada no Congresso Nacional, traria benefícios concentrados em uma faixa intermediária da população, mas deixaria os mais ricos isentos de uma cobrança justa, segundo o estudo.

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O que o estudo mostra sobre a desigualdade

imposto de renda ir
Imagem: Freepik/ Edição: Seu Crédito Digital

Simulações realizadas com base em dados da Receita Federal e da Pnad Contínua de 2022 revelam que, com a aprovação apenas da isenção até R$ 5.000, o índice de Gini — que mede a desigualdade de renda — subiria de 0,6185 para 0,6192.

Já na hipótese de se aprovar a proposta completa, com a isenção para os mais pobres e a criação de um imposto mínimo de 10% para quem ganha acima de R$ 50 mil mensais, o índice cairia para 0,6178.

Alíquota efetiva: distorção no topo da pirâmide

A alíquota efetiva é a razão entre o valor efetivamente pago de IR e a renda total do contribuinte. Apesar da alíquota nominal chegar a 27,5%, os mais ricos frequentemente recolhem menos devido às isenções legais, principalmente sobre lucros e dividendos.

Um dos dados mais surpreendentes do estudo revela que o 0,01% mais rico da população — com renda média de R$ 5,3 milhões mensais — paga hoje uma alíquota efetiva de apenas 5,67%. Isso é quase o mesmo percentual pago por pessoas com renda de R$ 7.294,74 mensais, cuja alíquota efetiva é de 5,77%.

Com a criação do imposto mínimo, a alíquota efetiva do topo subiria para 8,25%, aproximando-se da alíquota de contribuintes com renda em torno de R$ 9.799,03 (8,36%).

Por que o imposto mínimo é essencial, segundo a Fazenda

O Ministério da Fazenda argumenta que o imposto mínimo é a única forma de tornar o sistema verdadeiramente mais progressivo.

A proposta não apenas corrige distorções históricas no IRPF (Imposto de Renda da Pessoa Física), como também equilibra o impacto fiscal da isenção para as faixas de renda mais baixas.

“A proposta integral, que desonera a base de contribuintes ao mesmo tempo em que garante o custeio dessa desoneração com um imposto mínimo sobre os mais ricos, é a única capaz de efetivamente reduzir a desigualdade de renda quando se considera toda a população brasileira”, afirma o estudo.

O que está em jogo no Congresso

A proposta de isenção até R$ 5.000 conta com forte apoio político, especialmente em ano pré-eleitoral. Já a parte que trata do imposto mínimo enfrenta resistências, especialmente entre parlamentares que representam interesses do empresariado ou classes com maiores rendimentos.

Além disso, há receios de que a tributação sobre lucros e dividendos possa impactar negativamente investimentos e a geração de empregos. No entanto, o governo argumenta que esse tipo de renda é amplamente concentrado e beneficiado por isenções injustificáveis.

Impacto fiscal da proposta

Estima-se que a isenção até R$ 5.000 resulte em perda de arrecadação de até R$ 25 bilhões por ano. O imposto mínimo para os super-ricos teria potencial de compensar essa perda, garantindo impacto fiscal neutro.

Mas, como o estudo destaca, mais do que o equilíbrio fiscal, está em jogo o papel redistributivo do imposto de renda.

“O sistema atual permite que pessoas com fortunas milionárias paguem proporcionalmente o mesmo, ou até menos, que trabalhadores assalariados da classe média”, disse um técnico da SPE.

O papel da distribuição de lucros e dividendos

A isenção da tributação sobre lucros e dividendos é um dos principais fatores que reduzem a alíquota efetiva dos mais ricos. Em 2023, esse tipo de rendimento somou R$ 1 trilhão — valor altamente concentrado entre os 5% mais ricos da população.

No Brasil, esse tipo de rendimento é isento desde 1996. A mudança da regra é uma das principais apostas da equipe econômica para tornar o sistema mais justo.

Comparação internacional

O Brasil é um dos poucos países do mundo que ainda isenta lucros e dividendos no imposto de renda da pessoa física. Na maioria das economias desenvolvidas, esse tipo de renda é tributado, muitas vezes com alíquotas progressivas.

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Essa anomalia contribui para o fato de que o sistema tributário brasileiro é considerado um dos menos progressivos do mundo, pesando mais sobre o consumo do que sobre a renda.

O impacto na população mais pobre

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Imagem: Canva

Como a maioria dos brasileiros mais pobres já é isenta do IRPF, a ampliação da faixa de isenção até R$ 5.000 não traria benefícios diretos a essa parcela da população.

“O efeito prático da medida seria dar alívio a uma classe média baixa e média tradicional, mas não teria impacto algum para os que vivem com menos de dois salários mínimos”, afirma o estudo.

Três cenários simulados pela Fazenda

1. Regras atuais:
Índice de Gini: 0,6185

2. Isenção até R$ 5.000 sem imposto mínimo:
Índice de Gini: 0,6192
Aumenta a desigualdade

3. Isenção + imposto mínimo para os mais ricos:
Índice de Gini: 0,6178
Reduz a desigualdade

Reforma tributária: próxima etapa

A equipe econômica aposta que a reforma do Imposto de Renda será o próximo grande passo após a aprovação da reforma da tributação sobre o consumo.

Com o diagnóstico detalhado da SPE em mãos, o governo Lula pretende pressionar o Congresso para incluir a taxação de lucros e dividendos e criar a alíquota mínima para as altas rendas.

Conclusão: redistribuição em foco

A proposta de isenção de IR para quem ganha até R$ 5.000 é um passo importante para aliviar a carga tributária da classe média, mas isoladamente, sem a criação de um imposto mínimo para os mais ricos, ela intensifica desigualdades e perpetua distorções históricas.

O estudo do Ministério da Fazenda deixa claro que qualquer reforma tributária que ignore o topo da pirâmide será incompleta — e, pior, regressiva.

Bianca Borges

Autor

Bianca Borges

Bianca Borges é estudante de Publicidade e desenvolvedora em formação, com paixão por cultura pop, tecnologia e universos geek. Fã de Star Wars, DC Comics, RPG e The Walking Dead, ela traz sua visão criativa e analítica para o time do Seu Crédito Digital, colaborando na produção de conteúdos relevantes sobre consumo, serviços públicos e finanças do dia a dia. Com estilo descontraído e foco em clareza, Bianca ajuda leitores a entender temas complexos com leveza e precisão.

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