Uma reunião entre o empresário brasileiro Joesley Batista e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, colocou a carne bovina do Brasil no centro de uma decisão comercial com efeitos nos dois países.
Segundo o Wall Street Journal, Joesley esteve no Salão Oval da Casa Branca em 20 de agosto de 2026. Na conversa, teria defendido que o aumento das importações brasileiras poderia ajudar a reduzir o preço da carne para o consumidor americano.
No dia seguinte, Trump anunciou que ampliaria temporariamente a entrada de carne bovina com tarifa reduzida. A decisão foi formalizada em 26 de agosto e começou a valer em 1º de setembro, com uma cota adicional de 300 mil toneladas de aparas magras de carne.
A medida não foi concedida exclusivamente ao Brasil nem beneficia apenas a JBS. Entretanto, a competitividade da carne brasileira e a presença da companhia nos Estados Unidos colocam o país e a empresa em posição favorável para aproveitar a abertura.
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O que aconteceu na reunião entre Joesley Batista e Trump

Joesley Batista, um dos controladores da JBS, teria se reunido com Trump na Casa Branca em 20 de agosto. A informação foi publicada pelo Wall Street Journal com base em pessoas familiarizadas com o encontro.
A pauta incluiu a tarifa que incidia sobre a carne brasileira depois do preenchimento da cota de importação com alíquota menor. O empresário teria explicado que uma oferta maior do Brasil poderia ajudar a reduzir o custo da carne moída nos supermercados americanos.
O jornal afirmou não ter conseguido determinar quem organizou a reunião. Até a publicação das informações, não havia um relato público detalhado da Casa Branca ou da JBS sobre o conteúdo completo da conversa.
A Reuters reproduziu a informação, mas ressaltou que não verificou o encontro de maneira independente.
Portanto, é necessário separar dois fatos:
- a reunião e a atuação de Joesley foram relatadas pelo Wall Street Journal;
- a ampliação temporária da cota de importação foi confirmada oficialmente pelo governo americano.
A proximidade entre as datas chama atenção, mas não prova, por si só, que a conversa determinou a decisão de Trump. Políticas comerciais desse porte também envolvem análises do Departamento de Agricultura, da representação comercial e de outros órgãos do governo.
Trump realmente retirou a tarifa da carne brasileira?
A mudança é mais específica do que uma retirada geral da tarifa. Trump aumentou temporariamente a quantidade de aparas magras de carne bovina que pode entrar nos Estados Unidos dentro da cota tarifária.
A cota tarifária, conhecida pela sigla inglesa TRQ, permite importar determinado volume com uma alíquota reduzida. Depois que esse limite é preenchido, os embarques adicionais passam a pagar uma tarifa mais alta.
No caso da carne brasileira, a alíquota fora da cota chegava a aproximadamente 26,4%. Esse custo diminuía a competitividade do produto no mercado americano.
A nova medida adicionou 300 mil toneladas à cota disponível para “outros países ou áreas”. Isso significa que o volume não foi reservado apenas para o Brasil.
Como a nova cota será dividida
A proclamação assinada por Trump dividiu o volume em três etapas:
| Período | Volume adicional |
|---|---|
| 1º a 30 de setembro de 2026 | 100 mil toneladas |
| 1º a 30 de outubro de 2026 | 100 mil toneladas |
| 31 de outubro a 30 de novembro de 2026 | 100 mil toneladas |
| Total | 300 mil toneladas |
A distribuição segue o critério de ordem de chegada. Exportadores de países elegíveis disputarão o espaço dentro de cada período.
O Brasil poderá usar parte relevante desse volume porque possui capacidade produtiva, frigoríficos habilitados e preços competitivos. Ainda assim, não existe garantia de que os embarques brasileiros ocuparão toda a cota.
Qual tipo de carne poderá entrar com tarifa menor
A medida está concentrada nas aparas magras, conhecidas no setor como beef trimmings. São pedaços obtidos durante o corte e a preparação das carcaças.
Nos Estados Unidos, esse produto costuma ser misturado a carnes com maior teor de gordura para produzir hambúrgueres e carne moída. Não se trata necessariamente dos cortes nobres encontrados em churrascarias, como picanha, contrafilé ou filé-mignon.
Essa distinção ajuda a entender a decisão. O governo americano quer aumentar a matéria-prima utilizada em alimentos consumidos diariamente, especialmente hambúrgueres.
A expectativa oficial é que o produto importado entre com preço 25% inferior ao valor de mercado das aparas magras. O governo dos Estados Unidos informou que poderá interromper a ampliação da cota se o desconto não chegar ao mercado e resultar apenas em ganhos maiores para os fornecedores.
Por que a carne ficou tão cara nos Estados Unidos
Os Estados Unidos enfrentam uma redução histórica do rebanho bovino. Segundo a Casa Branca, o número de animais caiu ao menor nível em 75 anos.
Secas e incêndios em regiões produtoras elevaram custos e dificultaram a recomposição dos rebanhos. Ao mesmo tempo, restrições sanitárias à entrada de gado vivo do México reduziram uma fonte importante de abastecimento.
O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos projetou queda de aproximadamente 4% na produção de carne bovina em 2026, na comparação com o ano anterior. O consumo, por outro lado, deve permanecer elevado.
Essa combinação é conhecida de qualquer consumidor: quando a oferta diminui e a procura continua forte, os preços tendem a subir.
Importar mais carne funciona como uma solução de curto prazo. O aumento da oferta pode aliviar os valores da carne moída, mas não resolve os problemas estruturais do rebanho americano.
Por que o Brasil está bem posicionado
O Brasil está entre os maiores produtores e é o principal exportador mundial de carne bovina. A distinção é importante: produzir mais não significa necessariamente vender mais ao exterior, porque parte da produção é consumida internamente.
Dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos mostram que os embarques brasileiros cresceram após a liberação da carne bovina fresca para o mercado americano em 2020.
O Brasil não possui uma cota exclusiva. Seus produtos disputam o limite destinado a “outros países”, que também pode ser utilizado por diferentes fornecedores.
Quando o volume normal da cota é preenchido, a carne enviada fora desse limite enfrenta a tarifa de 26,4%. Mesmo com essa cobrança, o Brasil continuou ampliando as vendas devido à diferença de custos e à necessidade americana de aparas magras.
Segundo o Wall Street Journal, o país exportou aproximadamente US$ 1,5 bilhão em carne bovina para os Estados Unidos nos primeiros seis meses de 2026, avanço de 10% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Como a JBS pode ser beneficiada
A JBS atua nos dois lados da operação. Ela possui produção e unidades de processamento no Brasil, mas também controla uma parcela expressiva da indústria de carne nos Estados Unidos.
Ao ampliar as importações, a companhia pode:
- aumentar embarques de unidades brasileiras;
- abastecer fábricas americanas com matéria-prima mais barata;
- elevar a produção de carne moída e hambúrgueres;
- melhorar o aproveitamento de sua rede de distribuição;
- disputar participação com outros frigoríficos.
Isso não significa que a nova cota será ocupada exclusivamente pela JBS. Outros frigoríficos brasileiros habilitados e exportadores de países elegíveis também poderão enviar produtos.
A companhia, contudo, possui escala, estrutura logística e presença industrial suficientes para reagir rapidamente à abertura. Essa combinação ajuda a explicar o interesse de Joesley Batista na política comercial americana.
Joesley negociou em nome do Brasil?
Não há indicação de que Joesley tenha representado formalmente o governo brasileiro. Ele teria atuado como empresário e acionista de uma companhia privada com interesses comerciais nos Estados Unidos.
Negociações oficiais entre países são conduzidas por presidentes, ministérios, diplomatas e representantes comerciais. Um empresário pode apresentar argumentos, demonstrar impactos econômicos e defender mudanças, mas não substitui uma delegação governamental.
A distinção é relevante porque a redução tarifária beneficia potencialmente diversos exportadores brasileiros, embora tenha efeitos diretos sobre os negócios da JBS.
O governo brasileiro também mantém diálogo próprio com os Estados Unidos sobre tarifas aplicadas aos produtos nacionais.
A relação da JBS com o governo Trump
A JBS possui presença econômica e política relevante nos Estados Unidos. A companhia controla a Pilgrim’s Pride, uma das maiores processadoras de frango do país.
De acordo com o Wall Street Journal, a Pilgrim’s Pride contribuiu com US$ 5 milhões para o comitê responsável pela posse de Trump. A doação teria sido a maior recebida pelo evento.
Contribuições políticas e encontros com autoridades são permitidos dentro das regras americanas de financiamento e transparência. Por si só, uma doação não comprova irregularidade ou troca de favores.
A proximidade, contudo, amplia o escrutínio sobre decisões capazes de beneficiar empresas do grupo. Por isso, a sequência entre reunião, anúncio e formalização da medida passou a receber atenção da imprensa e dos setores concorrentes.
Por que pecuaristas americanos são contra a medida
Entidades de produtores rurais afirmam que o aumento das importações pode reduzir a remuneração dos pecuaristas e atrasar a recuperação do rebanho.
A National Cattlemen’s Beef Association criticou a intervenção. Para a entidade, estimular a entrada de produto estrangeiro pode prejudicar quem enfrenta custos elevados para criar gado nos Estados Unidos.
O argumento dos produtores é que preços mais baixos agora podem desestimular investimentos na pecuária americana. Sem incentivo para aumentar o rebanho, o país permaneceria dependente de importações por mais tempo.
Já o governo Trump defende que a medida é temporária e necessária para aliviar o orçamento das famílias. A disputa coloca dois grupos importantes em lados opostos:
- consumidores, interessados em carne mais barata;
- pecuaristas, preocupados com preços e rentabilidade.
A resistência também chegou ao Partido Republicano, especialmente entre parlamentares de estados rurais que disputam as eleições legislativas de meio de mandato.
A carne ficará mais barata nos Estados Unidos?
A ampliação da cota pode ajudar, mas não garante uma redução imediata de 25% no preço final do supermercado.
O desconto citado pela Casa Branca está relacionado ao preço das aparas importadas, não necessariamente ao pacote de carne moída comprado pelo consumidor.
Entre o desembarque e a prateleira existem custos de:
- transporte;
- processamento;
- mistura da carne;
- armazenamento;
- distribuição;
- margem do frigorífico;
- margem do varejista.
Se a matéria-prima ficar mais barata, parte da economia pode chegar ao consumidor. A intensidade e a velocidade dependerão da concorrência entre frigoríficos e supermercados.
O governo americano determinou o acompanhamento dos preços. Se os importadores não venderem o produto dentro do desconto esperado, Trump poderá encerrar antecipadamente o benefício.
A medida pode aumentar o preço da carne no Brasil?
Um aumento das exportações reduz a quantidade de produto disponível para outros destinos e pode dar sustentação aos preços pagos aos produtores brasileiros. Isso não significa que o preço subirá automaticamente no açougue.
O mercado interno depende de vários fatores:
- tamanho do rebanho;
- ritmo de abate;
- consumo das famílias;
- câmbio;
- exportações para a China;
- custo da alimentação animal;
- quantidade embarcada aos Estados Unidos;
- tipo de carne exportada.
Como a medida americana prioriza aparas magras, o efeito pode ser diferente entre cortes. O preço da picanha ou do contrafilé não necessariamente acompanhará, na mesma proporção, a valorização da matéria-prima usada em carne moída.
Se o dólar estiver alto, a exportação fica mais atraente porque o frigorífico recebe em moeda americana. Se o consumo brasileiro estiver fraco, porém, o mercado interno pode limitar reajustes.
Para o consumidor, o mais correto é acompanhar os preços ao longo dos próximos meses, sem concluir que a decisão produzirá um aumento imediato.
A decisão já está valendo?
Sim. A primeira etapa da cota começou em 1º de setembro e permite a entrada de até 100 mil toneladas ao longo do mês.
Outras duas etapas estão programadas para outubro e novembro. O período termina quando o volume for preenchido ou em 30 de novembro de 2026.
A medida é temporária. Depois disso, as regras anteriores voltam a ser aplicadas, a menos que o governo americano publique uma nova decisão.
Também será necessário acompanhar quanto da cota será efetivamente utilizado pelo Brasil e quais empresas realizarão os embarques. Esses dados permitirão medir o benefício real para a indústria brasileira.
O que acontece agora
O encontro entre Joesley e Trump acrescenta uma dimensão política a uma medida apresentada oficialmente como resposta ao preço elevado dos alimentos.
Nos próximos meses, três questões serão decisivas:
- Quanto da cota será ocupado pela carne brasileira.
- Se a redução de custo chegará ao consumidor americano.
- Qual será a reação dos pecuaristas e parlamentares dos Estados Unidos.
Para a JBS, a abertura representa uma oportunidade de ampliar sua atuação integrada entre Brasil e Estados Unidos. Para outros frigoríficos brasileiros, também pode significar acesso a um mercado de alto valor sem a tarifa aplicada fora da cota.
A reunião relatada pelo Wall Street Journal mostra a capacidade de articulação de uma multinacional brasileira. No entanto, atribuir toda a decisão de Trump ao encontro seria uma conclusão que as informações disponíveis ainda não permitem sustentar.
Perguntas frequentes

Joesley Batista se reuniu com Donald Trump?
Segundo o Wall Street Journal, Joesley se reuniu com Trump no Salão Oval em 20 de agosto de 2026. A Reuters informou que não verificou o encontro de maneira independente.
Trump acabou com a tarifa sobre a carne brasileira?
Não de forma permanente ou geral. O governo ampliou temporariamente a cota de aparas magras que pode entrar com tarifa reduzida.
Qual era a tarifa cobrada sobre a carne do Brasil?
Depois do preenchimento da cota normal, a carne brasileira enfrentava uma tarifa de aproximadamente 26,4%.
A nova cota é exclusiva para o Brasil?
Não. As 300 mil toneladas adicionais foram destinadas à categoria “outros países ou áreas” e serão distribuídas por ordem de chegada.
Qual tipo de carne será importado?
A medida contempla principalmente aparas magras utilizadas na fabricação de carne moída e hambúrgueres.
A JBS será a única empresa beneficiada?
Não. Outros frigoríficos brasileiros habilitados e exportadores de países elegíveis poderão disputar a cota.
A carne vai ficar mais cara no Brasil?
Não necessariamente. O impacto dependerá do volume exportado, do câmbio, do rebanho, da demanda interna e de outros mercados compradores.
Até quando a medida americana ficará em vigor?
A cota adicional foi dividida entre setembro, outubro e novembro de 2026, com encerramento previsto para 30 de novembro ou quando o volume for preenchido.
