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Quer saber por que o Brasil tem os juros mais altos do planeta? A gente explica

Descubra por que os juros no Brasil seguem tão altos. Veja as causas, impactos e o que precisa mudar. Leia agora!

Ellen D'AlessandroPor Ellen D'Alessandro5 min de leitura
Notas de 10, 20 e 100 reais ao lado de um relógio. Os itens estão sobre uma placa com as letras da palavra juros.

Apesar de ser uma das maiores economias do mundo, o Brasil convive há décadas com taxas de juros persistentemente elevadas. Essa anomalia econômica afeta diretamente o consumo, o investimento produtivo e, por consequência, o crescimento do país.

Especialistas como o economista Roberto Troster apontam que o problema vai além do fiscal: trata-se de um modelo econômico ultrapassado, preso a distorções herdadas do período de hiperinflação.

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Juros
Imagem: Immersion Imagery / Shutterstock.com

A taxa Selic, utilizada pelo Banco Central como principal instrumento de controle inflacionário, tem sido mantida em patamares elevados, mesmo em contextos de desaceleração econômica. Hoje, o Brasil lidera o ranking mundial de juros reais, com índices superiores a 9% ao ano, descontada a inflação.

Comparação internacional

  • Estados Unidos: juros reais próximos de 2%;
  • Europa: alguns países trabalham com juros negativos;
  • Paraguai e Chile: spreads mais baixos e crescimento mais robusto.

Essa discrepância coloca o Brasil em uma posição de desvantagem competitiva, encarecendo o crédito e travando a economia.

O que explica juros tão altos no Brasil?

Entulho inflacionário: herança de uma era de instabilidade

Roberto Troster alerta que o país ainda carrega um “entulho inflacionário”, ou seja, uma série de práticas e distorções que remontam ao período anterior ao Plano Real:

  • Cobrança de impostos embutidos no crédito (IOF, PIS, Cofins, IR);
  • Utilização de indexadores obsoletos, como o IGP-M;
  • Moeda com liquidez diária que remunera aplicações de curtíssimo prazo;
  • Altíssimo spread bancário, mesmo com redução na Selic.

Papel do sistema bancário

O spread bancário — diferença entre o custo de captação dos bancos e o que é cobrado do consumidor — é um dos maiores do planeta. Isso acontece mesmo com a presença de fintechs e bancos digitais, que pouco alteraram a estrutura oligopolista do sistema financeiro.

Exemplo de taxas no Brasil:

  • Crédito rotativo do cartão: mais de 400% ao ano;
  • Cheque especial: cerca de 150%;
  • Crédito pessoal: supera 100%.

Segundo Troster, “o problema não é só educação financeira, mas abuso de poder econômico.”

Política monetária limitada e ineficiente

O Brasil utiliza exclusivamente a Selic como ferramenta de controle da inflação, ignorando outras alavancas, como a política cambial.

O que fazem outros países?

  • China e EUA: combinam políticas monetária e cambial;
  • Argentina (apesar de seus problemas): utiliza instrumentos múltiplos para tentar estabilizar a moeda.

Ao apostar apenas na elevação de juros, o Brasil acaba sufocando o consumo interno e desestimulando o investimento, sem atacar as causas estruturais da inflação.

Bomba-relógio da dívida pública

Custo crescente dos juros

Com uma taxa básica elevada, o custo para financiar a dívida pública explode. Em 2025, o Brasil deve gastar mais de R$ 1 trilhão com juros, valor que supera, somados, os gastos federais com saúde, educação e justiça. Essa realidade alimenta um ciclo vicioso:

  1. Juros sobem para conter inflação;
  2. Governo gasta mais com dívida;
  3. Déficit aumenta;
  4. Novos aumentos de juros são justificados.

Impacto fiscal

Enquanto o superávit primário projetado para 2025 é de aproximadamente R$ 60 bilhões, os gastos com juros multiplicam esse valor por mais de 17 vezes. É um desequilíbrio estrutural que compromete qualquer tentativa de reequilíbrio das contas públicas.

O que está travando o crescimento?

Falta de planejamento e ambição

Troster afirma que o Brasil vive em um eterno improviso: “Enquanto a China adota planos quinquenais, o Brasil segue apagando incêndios.” Falta visão de longo prazo, metas claras e foco em educação, tecnologia e produtividade.

Comparações com países emergentes

  • Paraguai: Crescimento mais acelerado, menor carga tributária e ambiente de negócios mais simples.
  • Índia: Avanços tecnológicos e forte investimento em infraestrutura.
  • Chile: Menor spread bancário e sistema mais eficiente.

O que precisa mudar?

Propostas estruturais de Roberto Troster

1. Eliminar a moeda com liquidez diária

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Obrigar prazos mínimos de 6 meses para aplicações evitaria a especulação de curtíssimo prazo e ajudaria a estabilizar a economia.

2. Acabar com depósitos compulsórios remunerados

Em 2024, esses depósitos custaram R$ 71 bilhões aos cofres públicos. Esse valor poderia ser redirecionado para áreas essenciais ou para reduzir o déficit fiscal.

3. Revisar os indexadores

A substituição do IGP-M e outros índices desatualizados por indicadores que reflitam a inflação real é urgente.

4. Reformar a tributação sobre o crédito

A carga tributária sobre operações de crédito encarece o custo para empresas e consumidores. Reduzir IOF e demais impostos é vital.

5. Criar um centro financeiro offshore em São Paulo

Inspirado em modelos de Londres e Ilhas Cayman, esse centro teria regras diferenciadas para atrair capital estrangeiro e baratear a captação.

6. Reativar a política cambial

Utilizar o câmbio como ferramenta complementar para controlar a inflação é prática comum em economias desenvolvidas e deveria ser retomada.

Política como obstáculo central

Juros brasil
Imagem: SewCreamStudio / shutterstock.com

Apesar de as soluções estarem claras, o Brasil esbarra na falta de liderança e na paralisia decisória. O custo político de reformas impopulares, somado à cultura do “jeitinho”, faz com que medidas estruturais sejam constantemente adiadas.

“Governar é tomar decisões difíceis e arbitrar interesses. Mas no Brasil há uma cultura de evitar o conflito político”, afirma Troster.

Brasil: um país com potencial, mas preso ao passado

Mesmo com tantas limitações, o Brasil tem potencial para crescer até 6% ao ano, segundo Troster. No entanto, isso depende de uma mudança profunda na forma como o país conduz sua política econômica:

  • Romper com a dependência de juros altos;
  • Abandonar o populismo de curto prazo;
  • Estabelecer planejamento estratégico de longo prazo.

A pergunta que se impõe é: até quando aceitaremos crescer menos que nossos vizinhos, enquanto seguimos alimentando um sistema disfuncional?

Imagem: rafastockbr / shutterstock.com

Ellen D'Alessandro

Autor

Ellen D'Alessandro

Ellen D'Alessandro é redatora no portal Seu Crédito Digital. Tem 24 anos e cursa Letras – Português e Alemão na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Apaixonada por leitura e séries de TV, alia sua formação acadêmica ao trabalho com produção de conteúdo informativo sobre direitos sociais, economia e temas que impactam o dia a dia do cidadão brasileiro.

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