O Brasil enfrenta um sério problema de efetividade na fase de execução judicial. Segundo o Banco Mundial, o país recupera apenas 18,20 centavos de cada dólar em processos judiciais — número muito inferior à média global de 36,90 centavos. Esse baixo índice evidencia a dificuldade de converter decisões judiciais em valores efetivamente pagos aos credores.
Uber e Ifood irão revelar localização de devedores; descubra o impacto dessa decisão
Justiça usa dados de plataformas como Uber e iFood para localizar devedores e garantir execução judicial, respeitando a LGPD e decisões recentes do STJ.
Entre os principais obstáculos está a localização dos devedores e a identificação de seus bens, especialmente em um cenário de digitalização das relações financeiras.
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O novo perfil digital dos devedores inadimplentes

Com o avanço das tecnologias, muitos devedores adotam estratégias sofisticadas para ocultar patrimônio e evitar citações judiciais. As ferramentas digitais facilitaram esse processo, permitindo que eles:
- Utilizem carteiras digitais e bancos digitais sem vínculo físico;
- Realizem transações com criptomoedas, difíceis de rastrear;
- Prestem serviços em plataformas como Uber e iFood sem vínculo formal;
- Utilizem endereços voláteis ou falsos;
- Mantenham perfis com dados incompletos em serviços online.
Essas práticas aumentam a complexidade das execuções e exigem novas abordagens por parte do Poder Judiciário.
Medidas atípicas e cooperação de empresas digitais
O papel das plataformas no rastreio de devedores
Para enfrentar esse novo cenário, o Judiciário tem recorrido às chamadas medidas atípicas — soluções legais fora do procedimento padrão, mas permitidas diante da necessidade e proporcionalidade. Entre elas, destaca-se o envio de ofícios a plataformas digitais solicitando dados sobre devedores.
Empresas como:
- Uber e 99, para identificar motoristas;
- iFood e Rappi, para localizar entregadores autônomos;
- Mercado Livre e Amazon, para dados de vendedores;
- Nubank, Mercado Pago e PicPay, para rastrear ativos;
estão sendo acionadas judicialmente para colaborar na localização de devedores e na descoberta de bens passíveis de penhora.
Jurisprudência favorável à inovação judicial
Tribunais como o TJSP (Tribunal de Justiça de São Paulo) e o TJDFT (Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios) já validaram essas medidas como legítimas, desde que esgotadas as tentativas convencionais.
Tema 1.137 do STJ
Um marco importante nesse contexto foi o julgamento do Tema 1.137 pelo STJ, que reconheceu a legalidade do compartilhamento de dados por empresas privadas com o Judiciário, quando houver autorização judicial fundamentada. Esse entendimento tem ampliado a eficácia das ações contra devedores que atuam no ambiente digital.
Citação válida: etapa essencial na execução contra devedores

Por que localizar o devedor é tão importante?
A citação válida é o ato jurídico que dá ciência ao devedor sobre a existência de uma ação contra ele. Sem essa etapa, a execução não pode seguir seu curso legal.
Muitos devedores, no entanto, recorrem a meios digitais para evitar que essa citação ocorra, tornando-se “invisíveis” para os meios tradicionais de notificação.
Táticas digitais de ocultação
Entre as estratégias comuns usadas por devedores digitais estão:
- Informações falsas em cadastros;
- Mudança frequente de localidade;
- Trabalho informal em apps sem vínculo;
- Linhas pré-pagas com identificação falsa.
Frente a isso, a Justiça tem considerado válidos dados como geolocalização via apps, histórico de entregas e transações digitais como indícios suficientes para justificar medidas de localização.
LGPD e a proteção dos dados dos devedores
Como garantir a legalidade na obtenção de dados?
O uso de dados pessoais para localizar devedores precisa respeitar os princípios da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Isso significa que os dados só podem ser acessados quando:
- Houver decisão judicial fundamentada;
- Os pedidos forem específicos, proporcionais e necessários;
- O uso dos dados estiver diretamente relacionado à ação em curso;
- Houver controle de acesso e finalidade clara.
A responsabilidade das empresas
As plataformas acionadas judicialmente têm colaborado com o Judiciário, criando canais específicos para o envio de informações. Entre as medidas adotadas estão:
- Portais exclusivos para autoridades;
- Relatórios detalhados sobre movimentação dos devedores;
- Termos de sigilo e auditoria de dados.
Essa colaboração fortalece a eficiência do processo judicial e evita o uso indiscriminado de informações pessoais.
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Efeitos positivos na Justiça e na economia
Recuperação de crédito e desestímulo à inadimplência
A adoção dessas medidas tem permitido maior efetividade na identificação de devedores, trazendo benefícios como:
- Mais penhoras efetivas, especialmente de valores digitais;
- Aumento do cumprimento espontâneo das decisões judiciais;
- Desestímulo ao uso de artifícios digitais para inadimplência.
Isso contribui diretamente para a credibilidade do sistema de Justiça e para a segurança jurídica nas relações econômicas.
Transformação digital do Judiciário
A tendência é que essas medidas se tornem cada vez mais comuns, com o Judiciário utilizando:
- Redes sociais, para rastrear movimentações;
- Apps de mobilidade, para geolocalização de devedores;
- Histórico de consumo online, para detecção de padrão de vida incompatível com a alegada insolvência.
Essas ferramentas, se utilizadas com critério e legalidade, podem transformar o cenário da execução judicial no Brasil.
Desafios futuros e cuidados necessários

Garantia de direitos e prevenção de abusos
O uso crescente de dados digitais impõe ao Judiciário e às empresas a responsabilidade de:
- Proteger os dados pessoais dos devedores;
- Garantir o uso limitado e proporcional das informações;
- Impedir excessos ou abusos por parte das partes credoras.
A modernização da Justiça não pode comprometer os princípios do devido processo legal e da privacidade.
Conclusão
A possibilidade de acionar plataformas digitais para localizar devedores é um avanço estratégico na busca por maior efetividade na fase de execução judicial. Ao utilizar dados de aplicativos e fintechs, a Justiça responde aos desafios de um cenário onde a inadimplência se sofisticou com o apoio da tecnologia.
Com respaldo jurídico, respeito à LGPD e medidas proporcionais, essas novas práticas têm potencial para transformar a recuperação de créditos e fortalecer o cumprimento das decisões judiciais no Brasil.
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