Um dos projetos de lei mais controversos da atualidade nos Estados Unidos, a Lei GENIUS (Guidance and National Innovation for U.S. Stablecoins), está prestes a ser votado no Senado e tem provocado uma onda de críticas por parte de parlamentares progressistas, grupos civis e analistas políticos.
Lei GENIUS divide Senado dos EUA e gera alerta entre progressistas sobre risco de corrupção com criptomoedas
Projeto lei GENIUS nos EUA que regula stablecoins, com apoio de Trump e da indústria cripto, enfrenta forte oposição de grupos progressistas.
A Lei GENIUS propõe a criação de um arcabouço regulatório para stablecoins — criptomoedas cujo valor é atrelado ao dólar. A proposta tem como objetivo evitar colapsos como o da stablecoin Terra (UST), que ruiu em 2022 e causou bilhões de dólares em prejuízos.
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Objetivos declarados da proposta
- Garantir reservas obrigatórias para emissores de stablecoins;
- Criar uma estrutura de supervisão federal;
- Estimular a inovação regulada no ecossistema cripto;
- Inserir definitivamente os ativos digitais no sistema financeiro norte-americano.
Apoio da indústria e de aliados políticos de Trump

A proposta vem recebendo apoio de parte do setor de criptomoedas e também do presidente, Donald Trump, que recentemente demonstrou simpatia crescente pelo mercado de criptoativos. Trump chegou a organizar um jantar privado com investidores de suas memecoins, criptomoedas promocionais associadas à sua imagem.
A relação do presidente com ativos digitais ganhou novo contorno após a revelação de que ele e sua família possuem participação em uma empresa emissora de stablecoins. A conexão levanta suspeitas de conflito de interesse direto e fomenta os alertas sobre um possível uso do cargo público para fins financeiros pessoais.
Reação progressista: “legalização da corrupção”
A senadora democrata Elizabeth Warren (D-Massachusetts) tem sido a voz mais ativa contra a aprovação da Lei GENIUS. Segundo ela, a proposta representa “uma venda descarada da presidência dos Estados Unidos”, ao permitir que o chefe do Executivo enriqueça com ativos digitais enquanto exerce o cargo.
“Trump está basicamente postando seu ‘Pix’ presidencial para que governos e empresas estrangeiras depositem dinheiro diretamente em sua conta bancária”, criticou o senador Chris Murphy.
Organizações civis se posicionam contra
Diversas entidades ligadas à defesa da democracia e da regulação financeira também se manifestaram contra o projeto.
As principais entidades contrárias:
- Indivisible;
- Americans for Financial Reform;
- Democracy Defenders Action;
- Action Network.
Em carta enviada ao Senado, essas organizações afirmam que a Lei GENIUS:
- Facilita o lucro de bilionários com stablecoins de alto risco;
- Apresenta brechas regulatórias que favorecem abusos;
- Enfraquece proteções financeiras conquistadas ao longo das décadas;
- Permite emissão de moedas digitais por big techs como Amazon, Google e Meta;
- Abre caminho para corrupção institucionalizada e pay-to-play.
A ligação com os Emirados Árabes e a Binance
A situação se agravou com a divulgação de um suposto acordo bilionário entre a família Trump e um fundo soberano dos Emirados Árabes Unidos, estimado em US$ 2 bilhões. A transação teria sido intermediada por meio de uma stablecoin de propriedade da família Trump.
Denúncia grave:
A Action Network afirma que a corretora Binance também estaria envolvida na operação. A empresa foi recentemente condenada nos EUA por envolvimento em lavagem de dinheiro e violação de leis federais.
Os opositores alegam que a Lei GENIUS pode legalizar esse tipo de mecanismo financeiro opaco e potencialmente ilegal, institucionalizando práticas que hoje estão à margem da legislação.
Stablecoins: regulação ou liberação total?
A proposta do projeto de lei prevê algumas exigências para emissores de stablecoins, como:
- Manutenção de reservas em caixa equivalentes ao valor emitido;
- Auditorias regulares;
- Registro junto a órgãos reguladores.
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No entanto, os opositores apontam que os dispositivos são fracos, vagos ou de fácil contorno. A preocupação central é que empresas privadas possam atuar como verdadeiros bancos emissores de moeda, sem o devido escrutínio do Congresso ou da SEC (Securities and Exchange Commission).
Big Techs e o risco de dominação monetária
Outro ponto sensível levantado pelos opositores é o impacto potencial da Lei GENIUS ao permitir que empresas de tecnologia emitam suas próprias stablecoins.
Riscos apontados:
- Monopolização de sistemas de pagamento;
- Controle abusivo sobre dados de consumo;
- Risco de colapsos sistêmicos em caso de falências de big techs emissores de moeda.
“A lei daria um poder econômico descomunal às empresas de tecnologia”, declarou o senador Josh Hawley (Republicano-Missouri).
Negociações em curso no Senado
Apesar das críticas, alguns senadores democratas estão tentando negociar ajustes para tornar a lei mais palatável.
Nomes envolvidos nas negociações:
- Ruben Gallego (D-Arizona);
- Kirsten Gillibrand (D-Nova York);
- Angela Alsobrooks (D-Maryland);
- Mark Warner (D-Virginia).
Esses parlamentares tentam inserir mecanismos de controle mais rígidos, mas enfrentam pressão tanto da ala progressista quanto de lobbies do setor cripto e empresarial.
Conclusão: regulação em disputa

A Lei GENIUS representa um divisor de águas para o futuro das criptomoedas nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo que promete avançar na regulação das stablecoins, também levanta preocupantes alertas sobre corrupção, conflito de interesses e poder excessivo de bilionários e big techs.
A decisão do Senado terá repercussão global, podendo influenciar como outras nações regulam seus mercados de criptoativos. A batalha política em Washington, portanto, está longe de ser apenas sobre tecnologia financeira: ela também diz respeito à própria integridade da democracia norte-americana.
