As limitações impostas à antecipação do saque-aniversário do FGTS, em vigor desde novembro do ano passado, provocaram forte reação entre trabalhadores e instituições financeiras. Pesquisa realizada pela AtlasIntel a pedido da Associação Brasileira dos Bancos (ABBC) e da Zetta aponta que a maioria dos trabalhadores considera as novas regras prejudiciais.
Além disso, os dados indicam uma queda imediata de 80% no volume de empréstimos com garantia do FGTS, percentual que pode chegar a 96% até 2027, segundo projeções das entidades do setor.
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O que mudou nas regras da antecipação
As mudanças foram aprovadas pelo Conselho Curador do FGTS em outubro e passaram a valer em novembro. Entre as principais alterações estão:
– Carência de 90 dias entre a adesão ao saque-aniversário e a antecipação
– Limite de até cinco parcelas anuais antecipadas até outubro de 2026
– Redução para três parcelas após esse período
– Apenas uma operação por trabalhador
– Prestação mínima de R$ 100 e máxima de R$ 500
Essas medidas atingem diretamente o crédito garantido pelo Fundo de Garantia do Tempo de Serviço, que vinha crescendo nos últimos anos.
Pesquisa mostra rejeição às limitações
O levantamento da AtlasIntel ouviu 4.243 trabalhadores com experiência no mercado formal, entre 16 e 23 de novembro. A margem de erro é de dois pontos percentuais e o nível de confiança é de 95%.
Entre os que conhecem a modalidade:
– 65,7% consideram que as novas regras prejudicam o trabalhador
– 34,3% acreditam que as medidas beneficiam
Entre quem já utilizou a antecipação:
– 86,9% são contrários ao fim da linha
– Apenas 13% se mostram favoráveis
A limitação de uma operação por ano foi rejeitada por quase 80% dos entrevistados.
Dinheiro foi usado para quitar dívidas, não para apostas
Um dos principais argumentos do governo ao restringir a linha era evitar o uso para apostas online. No entanto, a pesquisa aponta que nenhum entrevistado declarou utilizar os recursos para jogos de azar.
Os principais destinos do dinheiro foram:
– 59% para pagar dívidas urgentes ou mais caras
– 19,9% para despesas com saúde e medicamentos
– 11% para compra de bens pessoais
– 9,6% para aplicações financeiras
Entre os que anteciparam via empréstimo, 69,6% também usaram para quitar dívidas.
Segundo as entidades, isso reforça que o crédito era utilizado como ferramenta de reorganização financeira, especialmente em um contexto de endividamento elevado.
Queda drástica no volume de crédito
Dados da ABBC e da Zetta mostram que o crédito garantido pelo saque-aniversário chegou a movimentar R$ 3 bilhões por mês até outubro de 2025.
Após a entrada em vigor das novas regras:
– Novembro: caiu para R$ 600 milhões
– Projeção para dezembro: R$ 210 milhões
– Estimativa para dezembro de 2027: retração acumulada de 96%
A avaliação das entidades é que a linha pode se tornar inviável.
Debate sobre acesso ao crédito
Segundo a ABBC, existem cerca de 134 milhões de trabalhadores com conta ativa do FGTS, mas apenas 49 milhões são celetistas que poderiam acessar o consignado privado.
Isso deixaria aproximadamente 85 milhões de trabalhadores sem acesso a essa alternativa, caso a antecipação do FGTS seja esvaziada.
Além disso, mesmo entre celetistas, a aprovação do consignado privado é baixa. Pesquisa mencionada pelas entidades indica que, de cada 100 trabalhadores que tentaram contratar o consignado privado, apenas 25 conseguiram aprovação.
Comparação de juros
As associações defendem que o custo médio da antecipação do FGTS é inferior ao de outras modalidades:
– Antecipação FGTS: 1,79% ao mês
– Consignado privado: 3,79% ao mês
– Consignado comum: 6,66% ao mês
– Cartão parcelado: 9,25% ao mês
– Crédito para negativados: até 19,95% ao mês
Outro ponto destacado é que a antecipação do FGTS não compromete a renda mensal, pois o pagamento é feito com o saldo futuro do fundo, diferentemente do consignado, descontado diretamente do salário.
Impacto econômico
Segundo estimativas da ABBC e da Zetta:
– 40 milhões de trabalhadores aderiram ao saque-aniversário
– 28 milhões já utilizaram a antecipação
– O impacto econômico negativo do fim da linha pode chegar a R$ 35 bilhões
Para comparação, a estimativa de impacto positivo da redução do Imposto de Renda seria de R$ 32 bilhões, atingindo cerca de 16 milhões de contribuintes.
As entidades argumentam que a manutenção da linha beneficiaria um público mais amplo e de renda mais baixa.
Piso de R$ 100 foi decisivo na queda
Um dos pontos mais criticados é o piso de R$ 100 por parcela. Segundo a ABBC, 78 pontos percentuais da queda de 80% nas operações foram de contratos cuja prestação era inferior a esse valor.
Como o público da linha é majoritariamente de baixa renda, a limitação teria excluído justamente os trabalhadores que mais utilizavam o crédito.
Representantes do governo teriam demonstrado surpresa com esse impacto, mas ainda não há indicação oficial de revisão das medidas.
Tendência de mudanças no modelo
O debate segue aberto entre setor financeiro e governo. A estratégia oficial seria direcionar trabalhadores ao consignado privado, mas o setor argumenta que parte significativa do público não terá acesso a essa modalidade.
Com juros mais elevados em outras linhas e alto nível de endividamento da população, o futuro da antecipação do saque-aniversário permanece incerto.
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