O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez um discurso contundente na sexta-feira (6), em Paris, abordando temas sensíveis como o impacto das tecnologias digitais na democracia, a ascensão da inteligência artificial nas eleições e a crise da governança global. Durante o encerramento do Fórum Empresarial Brasil-França, o chefe do Executivo brasileiro mostrou-se preocupado com a crescente influência de algoritmos na vida das pessoas e com o potencial da IA para distorcer processos democráticos.
Lula afirma que IA nas campanhas eleitorais vai gerar “100% de mentira”
Em Paris, Lula alertou sobre os riscos da inteligência artificial nas eleições e criticou a manipulação de dados por algoritmos.
Além das questões tecnológicas, Lula aproveitou a ocasião para reforçar sua posição contrária ao ajuste fiscal baseado no congelamento do salário mínimo, atacou a ineficiência da Organização das Nações Unidas (ONU) e apontou a responsabilidade histórica dos países ricos na crise climática.
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“Estamos sendo manipulados por algoritmos”, diz Lula
Preocupação com a democracia digital
No ponto alto de seu discurso, Lula alertou para o papel cada vez mais determinante que os algoritmos desempenham na formação de opinião pública e nos rumos da democracia. O presidente afirmou que a população mundial está sendo manipulada por sistemas digitais criados para direcionar o comportamento das pessoas.
“Nós estamos inventando uma coisa chamada inteligência artificial. Imagina o que vai ser uma campanha eleitoral com inteligência artificial? Vai ser 100% de mentira”, disse Lula em tom de advertência.
A manipulação das eleições
A fala do presidente reforça um receio crescente entre líderes globais e especialistas em tecnologia: o uso da IA na produção em massa de desinformação e falsificações realistas, como os chamados deepfakes, capazes de alterar imagens e vozes de políticos, criando discursos falsos com alto grau de verossimilhança.
Em um mundo hiperconectado, onde a maioria dos eleitores se informa por meio de redes sociais, o uso indevido da inteligência artificial pode comprometer a integridade dos processos democráticos. Lula destacou que as ferramentas tecnológicas estão sendo utilizadas não apenas para influenciar o voto, mas para remodelar a própria percepção da realidade.
Críticas à política fiscal e defesa do salário mínimo
Outro tema forte abordado por Lula em Paris foi a condução da política econômica no Brasil. O presidente criticou setores que defendem a contenção de gastos públicos com base em cortes nos reajustes do salário mínimo como forma de controlar o déficit fiscal.
“No meu país, muita gente acha que para controlar o déficit fiscal você não precisa dar aumento do salário mínimo. Como é que você pode cortar o aumento do mínimo do mínimo?”, questionou.
O petista defende que o salário mínimo não pode ser encarado como mero índice contábil, mas sim como instrumento de justiça social. Segundo ele, conter a valorização do mínimo é penalizar a base da pirâmide social, que depende diretamente do valor para sustento e dignidade.
O embate com os economistas
As declarações de Lula refletem uma tensão constante com parte da comunidade econômica, que vê com preocupação o crescimento das despesas públicas em tempos de esforço para equilíbrio fiscal. Lula, por outro lado, reforça uma política de valorização do trabalho e da renda, buscando crescimento com inclusão.
Lula também ataca ineficácia da ONU

Perda de relevância e falta de liderança global
Durante o discurso, Lula criticou duramente a atuação da ONU, afirmando que a entidade perdeu relevância diante dos desafios contemporâneos. Ele citou a incapacidade do organismo em resolver o conflito entre Israel e Palestina como evidência da sua fragilidade institucional.
“A ONU criou o Estado de Israel em 1947, por que não criou o Estado da Palestina agora? Porque não tem força”, afirmou o presidente.
Em tom mais incisivo, Lula prosseguiu:
“Nós não temos governança mundial hoje, a ONU não representa quase nada mais. Nenhuma decisão da ONU é cumprida, e os cinco países que são membros permanentes do Conselho de Segurança também não obedecem à ONU.”
O presidente reforçou que a falta de reformas profundas no sistema internacional impede avanços em crises globais, como guerras, pandemias e aquecimento global, pois prevalece o veto e os interesses das grandes potências.
O mundo está sem liderança?
Lula também questionou a ausência de uma liderança global legítima e sugeriu que o mundo não pode aceitar um único país ditando as regras da geopolítica internacional.
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“Não vamos deixar o Trump ser essa governança. Tem que ser um coletivo, não pode ter direito de veto”, disse, referindo-se ao ex-presidente norte-americano e à atuação dos EUA em fóruns internacionais.
Questão ambiental: países ricos devem pagar o preço
Responsabilidade histórica dos poluentes
Ao abordar a crise climática, Lula voltou a apontar o dedo para os países desenvolvidos. Segundo ele, essas nações, que mais contribuíram historicamente para as emissões de gases de efeito estufa, têm o dever de compensar financeiramente os países em desenvolvimento.
“Eles têm que pagar esse contencioso, senão não resolve o problema. Vocês já tiraram proveito do planeta, já criaram o Estado de bem-estar social, e nós que não criamos nada não vamos poder criar?”, questionou Lula, em tom de denúncia.
A declaração reflete uma visão recorrente nos fóruns climáticos, nos quais o Brasil tem cobrado mais financiamento e transferência de tecnologia para garantir que países em desenvolvimento consigam crescer de maneira sustentável.
Lula em Paris: agenda internacional e articulação política
A presença de Lula em Paris faz parte de uma agenda oficial que se estende até segunda-feira (9), incluindo encontros com líderes europeus, empresários e autoridades multilaterais. A visita tem como objetivo fortalecer relações bilaterais, atrair investimentos e posicionar o Brasil como protagonista nas discussões globais sobre democracia, meio ambiente e tecnologia.
Além do Fórum Brasil-França, o presidente deve participar de reuniões com a prefeita de Paris, Anne Hidalgo, e com representantes de entidades da sociedade civil.
Repercussão do discurso

As declarações de Lula repercutiram fortemente tanto no Brasil quanto no exterior. Enquanto setores da sociedade civil e partidos de esquerda aplaudiram o tom crítico e a defesa da soberania digital e da justiça social, críticos acusaram o presidente de radicalizar o discurso em um momento de incerteza econômica.
No campo internacional, a fala sobre inteligência artificial nas eleições encontrou eco em debates já em curso na União Europeia, que discute uma regulação ampla sobre o uso da tecnologia, especialmente em contextos políticos e eleitorais.
Imagem: Reprodução/Miguel Schincariol/AFP
