A saída da Häagen-Dazs do mercado brasileiro reacendeu uma discussão que envolve empresas de diferentes setores: por que algumas marcas internacionais encerram fábricas, fecham lojas, abandonam determinadas categorias ou deixam de operar diretamente no país?
A General Mills anunciou que deixará de distribuir a Häagen-Dazs no Brasil após quase três décadas de presença. Segundo a companhia, a decisão faz parte de um plano de reformulação de portfólio.
O movimento não é isolado. Nos últimos anos, empresas como Ford, Sony, Mercedes-Benz, Forever 21, Fnac, Nikon e Haribo também reduziram ou encerraram determinadas atividades no país. Em alguns casos, porém, a companhia continuou presente no mercado brasileiro por meio de importações, distribuidores ou outras divisões.
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Häagen-Dazs deixa de ser distribuída no Brasil

A Häagen-Dazs chegou ao Brasil em 1997 e construiu uma trajetória de quase 30 anos no país. Durante parte desse período, a marca também manteve lojas próprias.
Em 2018, a General Mills encerrou as lojas que ainda operava diretamente no Brasil, mas os sorvetes continuaram sendo comercializados por outros canais.
Agora, a mudança é maior. A companhia informou que a Häagen-Dazs deixará de ser distribuída no mercado brasileiro. A justificativa apresentada foi um plano de reformulação de portfólio anunciado pela General Mills em março de 2026.
A empresa não divulgou um motivo adicional específico para a decisão.
Na prática, os produtos devem desaparecer gradualmente das prateleiras conforme os estoques disponíveis forem sendo vendidos.
Haribo encerrou a produção em São Paulo
A fabricante alemã de doces Haribo também anunciou uma mudança importante em sua operação brasileira em 2026.
A empresa iniciou a produção nacional em 2016, em uma fábrica localizada em Bauru, no interior de São Paulo. A unidade foi a primeira fábrica da companhia fora da Europa.
Em abril deste ano, a Haribo comunicou o encerramento das atividades fabris no país. A produção continuou até julho, seguindo o cronograma estabelecido pela empresa.
A companhia citou dificuldades relacionadas à competitividade e fatores externos que afetaram o ambiente de negócios. Também afirmou que avalia continuamente suas operações de acordo com as condições de cada mercado.
O encerramento da fábrica, entretanto, não significa necessariamente o fim da marca para os consumidores brasileiros. A empresa avalia formas de continuar atendendo o mercado por meio de outro modelo de operação.
Ford encerrou a fabricação de veículos no Brasil
A Ford é um dos exemplos mais conhecidos de uma multinacional que deixou de produzir veículos no Brasil sem abandonar completamente o mercado.
A montadora iniciou suas atividades no país em 1919. Décadas depois, construiu uma importante estrutura industrial, com fábricas em diferentes estados.
Em janeiro de 2021, a Ford anunciou o encerramento da produção nacional de veículos. As fábricas de Camaçari, na Bahia, e Taubaté, em São Paulo, tiveram suas atividades encerradas naquele ano. A unidade da Troller, em Horizonte, no Ceará, também foi fechada.
A empresa citou capacidade ociosa, redução das vendas e anos de prejuízos, além dos impactos provocados pela pandemia.
Mas a Ford não deixou de vender seus veículos no Brasil. A estratégia passou a ser baseada principalmente em modelos importados, enquanto outras estruturas da companhia permaneceram funcionando no país.
Mercedes-Benz fechou fábrica de automóveis
Outro caso importante ocorreu com a Mercedes-Benz.
A montadora alemã encerrou em 2020 a produção de automóveis na fábrica de Iracemápolis, no interior de São Paulo. A unidade havia sido inaugurada apenas quatro anos antes e produzia modelos como Classe C e GLA.
A empresa citou o cenário econômico, a queda nas vendas de veículos premium e uma reorganização da estrutura global de produção.
A decisão, porém, não representou a saída da Mercedes-Benz do Brasil.
A companhia continuou produzindo caminhões e chassis de ônibus no país e manteve a comercialização de automóveis importados.
Forever 21 fechou as lojas brasileiras
No setor de moda, a Forever 21 encerrou sua operação física no Brasil em 2022.
A marca norte-americana chegou ao país em 2014 e rapidamente ganhou espaço entre consumidores interessados em moda de preços mais acessíveis. A rede chegou a ter cerca de 15 lojas brasileiras.
A operação, entretanto, enfrentou dificuldades financeiras e um cenário cada vez mais competitivo no varejo.
As unidades foram fechadas ao longo de 2022, com liquidações para escoar os estoques.
A saída brasileira aconteceu em um momento delicado para a própria Forever 21, que enfrentava problemas financeiros e forte concorrência de plataformas de comércio eletrônico e varejistas internacionais.
Fnac encerrou as lojas no país
A francesa Fnac chegou ao Brasil em 2000, apostando em um modelo que reunia livros, música, filmes, eletrônicos e outros produtos culturais.
A rede chegou a ter várias unidades brasileiras, mas sua operação passou por uma mudança de controle.
Em 2017, a Livraria Cultura comprou a operação brasileira da Fnac. No ano seguinte, as lojas foram encerradas. A última unidade, localizada em Goiânia, fechou as portas em outubro de 2018.
A história da Fnac no Brasil também acompanha uma transformação profunda no mercado de produtos culturais, marcado pelo crescimento do comércio eletrônico e pela migração de conteúdos físicos para plataformas digitais.
Walmart deixou de existir como marca no Brasil
O Walmart apresenta um caso diferente.
A empresa chegou ao Brasil em 1995 e construiu uma ampla rede de supermercados e hipermercados.
Em 2018, o fundo Advent International comprou 80% da operação brasileira. A partir da mudança de controle, começou uma grande reorganização das lojas.
Em 2019, a operação passou a utilizar principalmente a marca Grupo BIG, substituindo gradualmente a bandeira Walmart.
Posteriormente, o Grupo BIG foi comprado pelo Carrefour Brasil, em uma operação concluída em 2022.
Por isso, não é totalmente correto dizer que o Walmart simplesmente “fechou as portas” no país. A marca deixou de existir nas lojas brasileiras após uma sequência de mudanças societárias e estratégicas.
Sony reduziu sua presença no Brasil
A Sony também encerrou uma parte importante de sua operação brasileira.
Em 2020, a empresa anunciou o fechamento de sua fábrica em Manaus e o encerramento da produção nacional de televisores, câmeras e equipamentos de áudio.
Em março de 2021, a companhia confirmou o fim da comercialização desses produtos diretamente no Brasil.
A saída, porém, foi parcial.
A Sony continuou presente em áreas como PlayStation, música, entretenimento e soluções profissionais. Também manteve estruturas relacionadas ao atendimento e à assistência de produtos comercializados anteriormente.
Nikon encerrou a operação direta
A japonesa Nikon, conhecida principalmente por suas câmeras e lentes fotográficas, anunciou em 2017 que deixaria de comercializar diretamente seus produtos fotográficos no Brasil.
No ano seguinte, a companhia confirmou o encerramento de suas atividades no país.
A decisão foi relacionada a uma reestruturação global da Nikon, que envolvia mudanças em áreas como fabricação, pesquisa, desenvolvimento e vendas.
Assim como em outros casos, o encerramento da operação direta não significa necessariamente que produtos da marca deixaram de chegar ao consumidor brasileiro. Importações e distribuidores podem continuar abastecendo o mercado, dependendo da estratégia adotada.
Roche fechou fábrica no Rio de Janeiro
Na indústria farmacêutica, a Roche oferece outro exemplo de redução da estrutura produtiva.
A companhia mantinha uma fábrica em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, onde produzia medicamentos destinados ao mercado brasileiro.
Em 2019, a Roche anunciou o encerramento da unidade, citando mudanças em sua estratégia global e redução dos volumes de produção.
O processo foi concluído em 2024.
A Roche, entretanto, continuou operando comercialmente no Brasil e mantendo o fornecimento de medicamentos ao mercado nacional.
Mais uma vez, o fechamento de uma fábrica não significou a saída completa da companhia.
Topshop fechou sua última loja brasileira
A britânica Topshop chegou ao Brasil em 2012, com uma loja no Shopping JK Iguatemi, em São Paulo.
A marca chegou a ampliar sua presença para quatro endereços no estado, mas a expansão não se sustentou.
Em 2016, a Topshop fechou sua última unidade brasileira, encerrando a operação física no país.
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A empresa enfrentava dificuldades relacionadas ao desempenho das lojas e à expansão da marca no mercado brasileiro. Problemas envolvendo contratos de aluguel também apareceram durante o período de operação.
Por que marcas internacionais deixam o Brasil?
Não existe uma única razão capaz de explicar todos esses casos.
Cada empresa avalia fatores relacionados ao próprio setor, à estratégia internacional e ao desempenho de sua operação brasileira.
Entre os motivos mais comuns estão:
- baixa rentabilidade;
- custos elevados de operação;
- dificuldade para alcançar escala;
- redução das vendas;
- concorrência mais intensa;
- mudanças no comportamento do consumidor;
- transformação do varejo;
- reorganização global da companhia;
- revisão do portfólio;
- concentração da produção em outros países.
No caso da Häagen-Dazs, a explicação oficial foi a reformulação de portfólio da General Mills.
Já Ford e Mercedes-Benz adotaram decisões relacionadas à produção nacional e à reorganização de suas estruturas industriais.
Por isso, não é correto afirmar que todas as empresas deixaram o Brasil pelos mesmos motivos.
Sair do Brasil significa parar de vender no país?
Não necessariamente.
Uma empresa pode encerrar uma fábrica e continuar importando seus produtos. Também pode fechar lojas próprias e manter vendas por distribuidores, parceiros ou comércio eletrônico.
A Ford é um exemplo claro: encerrou a produção nacional, mas continuou comercializando veículos no Brasil.
A Mercedes-Benz seguiu caminho semelhante no segmento de automóveis, mantendo vendas de modelos importados.
A Sony também restringiu sua atuação a determinadas categorias, sem abandonar completamente o mercado brasileiro.
O que muda para o consumidor?
O impacto depende do tipo de decisão tomada pela empresa.
Quando uma fábrica é fechada, os produtos podem continuar disponíveis por meio de importação. Quando a distribuição é encerrada, como no caso anunciado para a Häagen-Dazs, a oferta tende a diminuir até o fim dos estoques.
Em situações de mudança de bandeira, o consumidor pode continuar utilizando a mesma loja ou serviço, mas sob outro nome.
Também é necessário observar questões como garantia e assistência técnica. Empresas podem manter canais de atendimento mesmo depois de encerrarem determinada operação comercial.
A saída dessas marcas significa que outras podem deixar o Brasil?
Não é possível concluir isso apenas a partir dos casos citados.
Empresas internacionais revisam seus portfólios constantemente e podem reduzir uma operação enquanto ampliam investimentos em outra. Da mesma forma, uma marca pode sair de uma categoria e continuar crescendo em outro segmento.
Por isso, cada anúncio precisa ser analisado individualmente.
O caso da Häagen-Dazs, por exemplo, está diretamente relacionado à estratégia de portfólio da General Mills. Já o encerramento da produção da Ford esteve ligado à estrutura industrial e à rentabilidade da operação.
São decisões diferentes, ainda que tenham como resultado uma redução da presença dessas marcas em determinadas áreas do mercado brasileiro.
O que os casos revelam sobre o mercado brasileiro?

A principal conclusão é que a presença de uma multinacional não é necessariamente permanente nem estática.
Uma companhia pode fabricar produtos no Brasil durante décadas e depois passar a importar. Pode manter lojas por alguns anos e posteriormente apostar no comércio eletrônico. Também pode vender uma operação para outra empresa ou substituir uma marca por outra.
Häagen-Dazs, Haribo, Ford, Mercedes-Benz, Forever 21, Fnac, Walmart, Sony, Nikon, Roche e Topshop mostram diferentes versões desse processo.
Para o consumidor, a informação mais importante é descobrir o que exatamente foi encerrado: a produção, a distribuição, as lojas, uma categoria de produtos ou toda a operação.
Conclusão
A saída da Häagen-Dazs do mercado brasileiro se soma a uma série de mudanças envolvendo marcas internacionais que, nos últimos anos, reduziram ou encerraram determinadas atividades no país.
Os casos são diferentes entre si. Enquanto algumas empresas fecharam fábricas, outras abandonaram lojas, trocaram de controlador ou deixaram de vender categorias específicas.
Por isso, dizer simplesmente que uma marca “saiu do Brasil” pode esconder uma realidade mais complexa. Em muitos casos, a empresa continua presente, mas com um modelo de negócio completamente diferente.



