A digitalização dos pagamentos no Brasil avançou rapidamente, com as carteiras digitais ganhando espaço no cotidiano dos consumidores. No entanto, esse crescimento também gerou conflitos jurídicos, como o que envolve a Mastercard e o Itaú Unibanco, que hoje são alvos de uma ação na 2ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro.
A disputa está relacionada a cobranças consideradas abusivas em tarifas de intercâmbio e à recusa de transações oriundas dessas carteiras digitais, medidas que podem prejudicar os consumidores e o mercado de pagamentos no país. Neste artigo, explicamos o caso, seus desdobramentos e o impacto para o setor financeiro e os usuários.

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O que são carteiras digitais e sua importância no mercado
As carteiras digitais são plataformas que permitem a realização de pagamentos por meio do celular, simulando cartões de crédito e débito. Com a popularização dos smartphones e a pandemia, o uso desses serviços cresceu exponencialmente, oferecendo mais agilidade e segurança nas transações.
Entre as principais funções dessas carteiras estão o pagamento por aproximação (NFC), armazenagem digital de cartões, e facilitação de compras online e em lojas físicas. Esse avanço tecnológico, contudo, trouxe à tona questões regulatórias, especialmente sobre tarifas aplicadas por operadoras e bancos aos comerciantes e consumidores.
Como funcionam as tarifas de intercâmbio
As tarifas de intercâmbio são valores cobrados pela operadora de cartões, como a Mastercard, dos estabelecimentos comerciais para cada transação realizada com cartão. Esse custo é repassado aos bancos emissores e, eventualmente, impacta o preço final para o consumidor.
O aumento destas tarifas pode tornar os pagamentos digitais mais caros, e é essa prática que está sendo contestada na Justiça pelas entidades Abradecont e Abranet, que representam os direitos dos consumidores e o setor digital, respectivamente.
A ação judicial contra a Mastercard: aumento abusivo de tarifas
A Mastercard aplicou um aumento nas tarifas de intercâmbio, que segundo Abradecont e Abranet, é abusivo e pode inviabilizar financeiramente as operações realizadas por meio das carteiras digitais. A argumentação das entidades é que esse reajuste eleva o custo para os estabelecimentos, que acabam repassando os valores ao consumidor final.
Essa situação poderia restringir o uso das carteiras digitais, prejudicando a popularização e o acesso a meios de pagamento modernos, além de impactar negativamente a inclusão financeira no país.
Processo na Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon)
Diante da queixa, a Senacon suspendeu temporariamente o reajuste das tarifas da Mastercard, entendendo que a medida poderia lesar o consumidor. Porém, a operadora contestou a decisão judicial e o aumento acabou não sendo implementado, permanecendo a controvérsia.
A controvérsia com o Itaú: recusa de transações digitais
Paralelamente, Abradecont e Abranet acusam o Itaú Unibanco de recusar transações originadas das carteiras digitais. Segundo as associações, o banco atua de forma “injustificada” e prejudica o funcionamento desse serviço essencial, afetando diretamente os consumidores que utilizam esses meios de pagamento.
Essa prática estaria, ainda, inibindo a concorrência no setor financeiro, causando danos materiais e limitando as opções do usuário.
Multa do Cade e recurso do Itaú
O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aplicou uma multa de R$ 250 mil ao Itaú devido às recusas indevidas. No entanto, o banco conseguiu derrubar a sanção na Justiça em fevereiro de 2025, mantendo-se na disputa contra as acusações.
O pedido das entidades na 2ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro
Agora, Abradecont e Abranet buscam uma liminar para suspender tanto o aumento tarifário da Mastercard quanto as recusas de transações pelo Itaú. Além disso, as associações pedem que, caso as liminares sejam concedidas, sejam aplicadas multas diárias de R$ 50 mil para cada descumprimento das medidas.
As ações são acompanhadas pelos escritórios Salomão Advogados e Abboud & Advogados, especializados em direito do consumidor e digital.
Impactos para consumidores e o mercado financeiro
O conflito evidencia a tensão entre inovação tecnológica e interesses econômicos tradicionais. Se as tarifas abusivas forem mantidas, consumidores podem enfrentar custos maiores nas compras digitais, o que pode frear a adoção das carteiras digitais.
Por outro lado, a recusa de transações por parte do Itaú prejudica a liberdade do consumidor de escolher seu meio de pagamento preferido e pode limitar a concorrência no setor bancário, prejudicando a inovação e o desenvolvimento do mercado.
Riscos para a inclusão financeira
As carteiras digitais são importantes ferramentas de inclusão financeira, especialmente para pessoas que não possuem contas bancárias tradicionais ou preferem usar o celular para suas transações. Restrições impostas pelas operadoras ou bancos podem frear esse avanço, ampliando a desigualdade no acesso a serviços financeiros.
A importância do diálogo entre reguladores e setor privado
Casos como esse mostram a necessidade de um ambiente regulatório claro e equilibrado, que permita o crescimento das tecnologias financeiras sem onerar excessivamente comerciantes e consumidores.
O governo e os órgãos reguladores precisam atuar para garantir que as regras do jogo sejam justas, promovendo inovação, segurança e proteção dos direitos do consumidor.

A disputa entre Mastercard, Itaú e as entidades Abradecont e Abranet representa um momento crucial para o mercado de pagamentos digitais no Brasil. A decisão da Justiça poderá definir os rumos da adoção das carteiras digitais, impactando diretamente o bolso dos consumidores e a competitividade do setor.
É fundamental acompanhar os desdobramentos desse caso, pois ele reflete a evolução do sistema financeiro brasileiro e os desafios enfrentados pela inovação em meio a interesses econômicos estabelecidos. Para os usuários, a expectativa é por soluções que garantam tarifas justas, ampla aceitação dos meios digitais e maior inclusão financeira.
