O feriado fiscal mais conhecido do Brasil, o Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF), está no radar de muitos brasileiros — inclusive dos microempreendedores individuais (MEIs). Embora o MEI tenha CNPJ, por trás da empresa há sempre uma pessoa física que pode ser chamada a prestar contas à Receita Federal.
A dúvida surge especialmente quando há movimentações financeiras significativas. Afinal, será que o faturamento declarado como empresa também deve ser informado na declaração de pessoa física? A resposta pode surpreender muitos.
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O caso de Jorge André: um MEI com dúvidas reais

Jorge André, designer gráfico e MEI, procurou entender se precisaria declarar o IRPF em 2025. Trabalhando no modelo home office, ele faturou cerca de R$ 6.500 por mês em 2024, totalizando R$ 78 mil ao ano — dentro do limite permitido pelo Simples Nacional.
Ele já realizou sua Declaração Anual do Simples Nacional do MEI (DASN-SIMEI), mas não sabia como calcular o lucro efetivo nem se os rendimentos exigiam a entrega do IR.
Ao levantar seus custos com energia, internet, moradia e alimentação, Jorge começou a mapear as finanças e percebeu que a questão era mais complexa do que parecia.
Entendendo o lucro presumido do MEI
Como funciona a isenção sobre o faturamento
De acordo com a Receita Federal, apenas uma parte do faturamento bruto do MEI é considerada lucro isento. Para quem atua na área de serviços, presume-se que 32% da receita sejam livres de tributação.
No caso de Jorge André, isso significa:
- Receita bruta: R$ 78.000,00
- Lucro presumido isento (32%): R$ 24.960,00
- Excedente tributável (potencial pró-labore): R$ 53.040,00
Esse valor excedente, por si só, ultrapassa o limite de R$ 33.888,00 em rendimentos tributáveis, o que torna obrigatória a entrega do IRPF.
Tabela de presunção de lucro por atividade
| Tipo de atividade | Percentual de lucro isento |
|---|---|
| Serviços (como design) | 32% |
| Comércio | 8% |
| Indústria | 16% |
| Transporte de carga | 16% |
| Transporte de passageiros | 16% |
Cada atividade possui um percentual diferente, o que afeta diretamente a análise sobre a obrigatoriedade de declarar.
É possível deduzir despesas do MEI?

Sim, mas com restrições
A advogada Daniela Poli Vlavianos, da Poli Advogados, explica que despesas podem ser abatidas, desde que haja comprovação adequada. A Receita é rigorosa: despesas pessoais, como alimentação ou convênio médico, não entram na conta, mesmo se usadas durante o trabalho.
Por outro lado, custos compartilhados, como internet e energia elétrica no home office, podem ser parcialmente deduzidos, desde que exista um critério de rateio plausível e documentação.
Cálculo com despesas dedutíveis
Com base nas informações de Jorge, e considerando que 30% dos gastos são relacionados ao trabalho, temos:
- Condomínio: R$ 301,50/mês
- Energia: R$ 45/mês
- Internet/celular: R$ 75/mês
- Deslocamentos: R$ 45/mês
- Total mensal: R$ 466,50
- Total anual: R$ 5.598,00
Logo, o rendimento tributável seria:
Rendimento tributável = R$ 78.000 – R$ 24.960 (lucro isento) – R$ 5.598 (despesas)
Resultado: R$ 47.442,00
Mesmo com as deduções, o valor ultrapassa o limite de R$ 33.888,00, obrigando a entrega da declaração.
Quando o MEI deve declarar o IRPF?
Regras para obrigatoriedade
O MEI precisa entregar a declaração do Imposto de Renda como pessoa física se:
- Os rendimentos tributáveis superam R$ 33.888,00 ao ano;
- Obteve ganhos de capital;
- Possui bens superiores a R$ 300.000,00;
- Realizou operações em bolsa de valores;
- Entre outros critérios legais.
Como fazer a declaração corretamente
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Segundo Jean Paolo Simei e Silva, do Fonseca Brasil Advogados, o processo para MEIs deve seguir um passo a passo específico:
1. Declarar a parcela isenta
- Acesse a ficha “Rendimentos Isentos e Não Tributáveis”
- Informe os 32% da receita bruta como lucro isento.
2. Informar o lucro tributável
- Acesse a ficha “Rendimentos Tributáveis Recebidos de Pessoa Jurídica”
- Informe o valor excedente que corresponde ao rendimento tributável.
3. Anexar comprovantes
- Inclua comprovantes de despesas, planilhas de rateio e documentos que justifiquem os valores declarados.
O risco da malha-fina

Declarar incorretamente ou omitir valores pode resultar em sérias consequências. Daniela alerta que a Receita Federal possui diversos mecanismos de cruzamento de dados, e inconsistências levam à malha-fina.
Quem cair na malha pode pagar multas de até 75% do imposto devido, além de responder a processos administrativos.
Como evitar problemas com a Receita
- Declare sempre os valores reais recebidos;
- Documente todas as deduções com notas, recibos e planilhas;
- Procure orientação contábil, especialmente se tiver dúvidas sobre o lucro tributável;
- Não ignore convocações da Receita — regularize a situação o quanto antes.
Conclusão: o CNPJ pode obrigar o CPF a declarar
O caso de Jorge André exemplifica uma realidade comum entre MEIs: por mais que o faturamento anual esteja dentro do limite do Simples Nacional, o lucro tributável pode ultrapassar o limite de isenção da pessoa física, obrigando a entrega da declaração de IR.
A atenção a esses detalhes evita surpresas com o Fisco. O MEI deve entender que, mesmo com um CNPJ ativo, sua responsabilidade como pessoa física permanece — e pode vir acompanhada da necessidade de declarar, comprovar e justificar cada centavo movimentado.



