A fintech Méliuz (B3: CASH3), conhecida por seu modelo de cashback e soluções de pagamento, provocou uma verdadeira onda de reações no mercado financeiro nesta semana ao anunciar a captação de R$180,08 milhões (US$32,4 milhões) exclusivamente para comprar Bitcoin.
Aposta em Bitcoin abala ações da Méliuz: estratégia ousada divide mercado financeiro
Méliuz anuncia captação de R$180 milhões para adquirir Bitcoin e se tornar a primeira empresa brasileira com tesouraria cripto. Ações caem mais de 5%.
O anúncio da oferta de ações, realizada com desconto em relação ao valor de mercado, derrubou o preço dos papéis da empresa em mais de 5% no pregão seguinte. Embora a empresa já tivesse sinalizado interesse em criptomoedas, o movimento de transformar o Bitcoin em ativo de tesouraria surpreendeu investidores e analistas.
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Detalhes da operação: como a Méliuz pretende comprar Bitcoin
A captação foi realizada por meio de uma oferta restrita de ações, precificada a R$7,06 por ação, valor aproximadamente 5% inferior ao preço de fechamento de R$7,43 no dia anterior ao anúncio. O BTG Pactual atuou como coordenador da operação.
Alocação específica dos recursos
Diferente de outras captações que visam expansão operacional, pagamento de dívidas ou investimentos tradicionais, a Méliuz foi direta: os recursos captados serão utilizados exclusivamente para aquisição de Bitcoin, que será incorporado ao balanço patrimonial da companhia.
Com isso, a empresa se propõe a tornar-se “a primeira tesouraria corporativa de Bitcoin do Brasil” — título que vem carregado de ambição, mas também de riscos.
O que significa ser uma “tesouraria de Bitcoin”?

O conceito de tesouraria de Bitcoin ganhou força internacionalmente após movimentos similares de empresas como Tesla, MicroStrategy e Block (antiga Square), que converteram parte de seus ativos em Bitcoin como estratégia de reserva de valor.
A Méliuz é a primeira empresa de capital aberto no Brasil a seguir este caminho de forma tão direta. Com isso, a fintech não apenas diversifica seus ativos, mas também se posiciona estrategicamente em um mercado de crescente interesse global.
Reação do mercado: por que as ações caíram?
Apesar da narrativa de inovação, o mercado reagiu com ceticismo. O valor das ações caiu mais de 5% nas primeiras horas após o anúncio. O principal motivo apontado por analistas é a alta volatilidade do Bitcoin — um ativo que, embora tenha se valorizado expressivamente ao longo da última década, também enfrenta oscilações severas e riscos regulatórios.
Além disso, investidores questionam a capacidade da empresa de lidar com a gestão ativa de criptomoedas, bem como os riscos operacionais envolvidos em segurança, custódia e precificação contábil de ativos digitais.
Méliuz aposta alto: estratégia disruptiva ou salto no escuro?
Atualmente, a Méliuz se destaca como o terceiro aplicativo de compras que mais cresce no Brasil, com mais de 41 milhões de usuários cadastrados até o primeiro trimestre de 2025. A empresa, com capitalização de mercado de R$647 milhões, busca inovar sua estrutura financeira apostando na valorização do Bitcoin como forma de proteger e potencializar seu caixa.
Segundo a fintech, o objetivo não é apenas “investir” em criptoativos, mas redefinir o papel da tesouraria em empresas digitais, integrando a lógica de reserva de valor ao seu modelo de negócios.
Bitcoin como ativo corporativo: precedentes e projeções
Casos globais inspiradores
Empresas como MicroStrategy são frequentemente citadas como precursoras da estratégia adotada pela Méliuz. Desde 2020, a empresa liderada por Michael Saylor comprou mais de 200.000 BTC, consolidando-se como a maior tesouraria corporativa de Bitcoin do mundo.
A estratégia trouxe visibilidade, mas também fortes oscilações nas ações da empresa, que passaram a acompanhar o desempenho do criptoativo.
Potencial de valorização e risco atrelado
O argumento central dessas empresas é a crença de que o Bitcoin funcionará como um “ouro digital”, especialmente em contextos de inflação elevada e instabilidade monetária.
No entanto, o movimento também é interpretado como altamente especulativo, principalmente em ambientes regulatórios ainda indefinidos, como o do Brasil.
Impactos no setor financeiro e no mercado de capitais
Se bem-sucedida, a experiência da Méliuz pode abrir caminho para outras companhias de capital aberto no Brasil avaliarem alocações alternativas em ativos digitais. Isso representaria uma mudança importante no perfil conservador tradicional das empresas listadas na B3.
Pressão sobre CVM e regulação
A entrada de criptomoedas no ativo permanente de empresas listadas também deve pressionar a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) a atualizar seus posicionamentos e oferecer diretrizes claras sobre a contabilidade e divulgação dessas operações ao mercado.
O que dizem os especialistas?
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Especialistas em criptomoedas consideraram a decisão visionária, embora arriscada. Segundo Rafael Castaneda, analista da Blockchain Solutions:
“A Méliuz está se posicionando como pioneira no Brasil, algo que pode gerar retornos substanciais se o Bitcoin continuar seu ciclo de valorização.”
Já economistas tradicionais veem o movimento com mais reserva. Segundo Fernanda Teixeira, professora de Finanças da FGV:
“Converter caixa operacional em um ativo de alta volatilidade coloca pressão adicional sobre a empresa em momentos de retração econômica. É preciso ter uma estratégia de hedge clara.”
Riscos envolvidos na estratégia de Bitcoin
Volatilidade extrema
O Bitcoin é conhecido por apresentar oscilações de dois dígitos em curtos períodos, o que pode afetar diretamente o valor contábil dos ativos da empresa e influenciar seu desempenho no mercado de ações.
Riscos regulatórios e fiscais
No Brasil, ainda não há um marco regulatório definitivo sobre a custódia e tributação de criptomoedas por empresas listadas, o que pode gerar insegurança jurídica em eventuais fiscalizações.
Segurança e custódia
Ao manter grandes quantidades de Bitcoin, a empresa precisa adotar soluções robustas de custódia e gerenciamento de chaves privadas. Um vazamento ou ataque cibernético pode representar perdas severas e danos à reputação.
Próximos passos e o que observar no curto prazo
O mercado agora acompanhará de perto como e quando a Méliuz fará a aquisição de Bitcoins e se divulgará o preço médio de entrada, o que pode impactar sua transparência com acionistas.
Comportamento das ações (CASH3)
Com o preço das ações já pressionado, a evolução da cotação de CASH3 dependerá da reação dos investidores institucionais, da performance do próprio Bitcoin e da comunicação clara da companhia sobre os riscos assumidos.
Conclusão: inovação ou imprudência? O tempo dirá

A decisão da Méliuz de investir em Bitcoin como estratégia de tesouraria inaugura uma nova fase no mercado financeiro brasileiro. A iniciativa é audaciosa, disruptiva e certamente será observada com lupa por investidores, analistas e reguladores.
Enquanto alguns enxergam uma aposta no futuro do dinheiro, outros veem um movimento especulativo arriscado demais para uma empresa de capital aberto. A história mostrará se a fintech estará entre as pioneiras bem-sucedidas ou se será lembrada como um exemplo de imprudência financeira em tempos de hype digital.
