A poucos dias da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), o mercado financeiro brasileiro apresenta uma divisão incomum: metade dos gestores de fundos multimercados projeta um aumento da taxa Selic, enquanto a outra metade acredita na manutenção dos atuais 14,75% ao ano. A informação é da mais recente pesquisa Pré-Copom da XP Investimentos, divulgada após ouvir 27 gestoras com foco em estratégias baseadas em cenários macroeconômicos.
Juros em debate: gestores estão divididos sobre Selic antes do Copom, diz XP
Pesquisa XP mostra mercado dividido: metade espera alta da Selic, outra metade prevê estabilidade. Veja o que dizem as gestoras multimercado.
A expectativa dividida reflete o momento de incerteza que domina o cenário doméstico. Enquanto alguns agentes enxergam espaço para continuidade do ciclo de aperto monetário, outros apontam para sinais de desaceleração da inflação e crescimento mais moderado da economia — o que justificaria manter os juros estáveis.
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Resultado da pesquisa da XP mostra equilíbrio

Metade prevê alta de 0,25 p.p.; metade aposta em estabilidade
A sondagem feita entre os dias 4 e 12 de junho pela XP revelou que 50% das casas esperam uma elevação de 0,25 ponto porcentual na Selic, levando-a para 15% ao ano. Os demais acreditam que a taxa será mantida no nível atual.
Além disso, a média das projeções para a taxa Selic no fim de 2025 subiu de 14,77% para 14,83%. Esse pequeno ajuste pode indicar que parte do mercado começa a considerar um novo ciclo de alta, ainda que modesto.
Levantamento do Projeções Broadcast confirma divisão
Maioria também se mostra incerta no relatório publicado no dia 12
Outro levantamento, o Projeções Broadcast, divulgado no dia 12 de junho, reforça essa divisão. Das 48 instituições consultadas, 27 esperam manutenção da Selic em 14,75% ao ano, e 21 apostam em aumento de 0,25 ponto porcentual.
A divergência revela um ponto central: o Banco Central está diante de um dilema sobre o combate à inflação e a preservação do crescimento. O Copom terá de pesar os riscos com cautela, em meio a um cenário interno instável e ao mesmo tempo impactado por fatores externos.
Inflação e crescimento econômico influenciam apostas
Inflação tem queda e PIB mostra recuperação moderada
A inflação projetada para 2024 recuou pela segunda vez consecutiva, de 5,56% em maio para 5,35% em junho, segundo a XP. Esse movimento acompanha a tendência de revisões para baixo no Relatório Focus (atualmente em 5,44%) e reflete a diminuição das pressões cambiais.
O Produto Interno Bruto (PIB) estimado para 2025 também subiu: de 2,11% para 2,38%. A expectativa de crescimento moderado, mas constante, sugere que há espaço para juros mais altos sem sufocar a atividade.
Mudança nas posições de juros nominais e reais

Gestoras começam a enxergar fim do aperto monetário
As gestoras também alteraram seu posicionamento em relação aos juros. Em juros nominais, o número de casas com posição neutra aumentou 12 pontos percentuais. Em juros reais, o avanço foi ainda maior: 24 p.p.
Esse reposicionamento sinaliza que uma parcela significativa do mercado acredita na proximidade do fim do ciclo de aperto monetário — ou ao menos considera os juros atuais suficientemente restritivos.
Real valorizado e dólar enfraquecido dominam o câmbio
Casas estão compradas em real e vendidas em dólar
O cenário cambial também mudou. A XP aponta que 67% das gestoras estão atualmente compradas em real, ante 33% em janeiro. Em contrapartida, a posição vendida em dólar saltou de 13% para 95%.
Essa virada reflete a perda de força da tese de um dólar forte, além da percepção de que o real pode se beneficiar do atual equilíbrio externo e das taxas de juros ainda elevadas no Brasil.
Outras moedas também ganham espaço nas carteiras
A pesquisa também destaca realocações para outras moedas: todas as casas com posição em euro estão compradas, e o iene japonês tem ganhado espaço como ativo defensivo.
Leve melhora na Bolsa brasileira, mas cautela predomina
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Investidores ainda hesitam diante de incertezas externas
Na renda variável, houve uma melhora tímida na percepção dos gestores sobre o Brasil. O número de casas compradas em ações locais subiu de 42% para 44%, enquanto as vendidas caíram para 15%. A maioria (41%) permanece neutra.
No exterior, a postura é ainda mais conservadora. Nos Estados Unidos, 52% estão neutros, e apenas 37% comprados. Em mercados globais, a neutralidade cresceu de 81% para 85%.
Perspectiva mais positiva para o cenário internacional
Visão negativa global diminui e avaliações positivas aumentam
A visão negativa sobre a economia global caiu de 68% em maio para 41% em junho, segundo a XP. Ao mesmo tempo, aumentaram as avaliações neutras e positivas — estas passaram de 3% para 15%.
Os analistas destacam que “a seletividade segue como premissa”, com uma ligeira preferência por ativos locais diante das incertezas no exterior. O alívio nas tensões comerciais globais é apontado como um dos fatores que justificam essa mudança de sentimento.
Multimercados se destacam com desempenho acima do CDI

Flexibilidade e diversidade explicam bom rendimento
Outro destaque da pesquisa foi o desempenho das estratégias multimercado. Esses fundos entregaram, em média, 134% do CDI nos últimos 12 meses. Para a XP, essa performance se deve à flexibilidade dos gestores em operar diferentes classes de ativos — juros, câmbio e bolsa — tanto no Brasil quanto no exterior.
A resiliência dessas carteiras, segundo a análise, está relacionada à menor dependência do cenário macroeconômico, o que as torna atrativas em ambientes de alta volatilidade e incerteza.
Conclusão
Às vésperas de uma das decisões mais esperadas do ano, o mercado financeiro brasileiro se vê em um impasse sobre o rumo da taxa Selic. A divisão entre elevação e manutenção do juro básico mostra não apenas o grau de incerteza que paira sobre a economia nacional, mas também a complexidade do cenário atual. Enquanto a inflação cede e o PIB surpreende positivamente, o Copom terá de calibrar sua decisão com cautela, em meio a uma conjuntura que exige leitura fina e estratégica. O posicionamento dos gestores e os dados apresentados mostram que, independentemente da decisão, a volatilidade deve seguir como marca registrada do mercado nos próximos meses.
