O Ibovespa registra forte oscilação nesta sexta-feira (29), refletindo tanto os desdobramentos do cenário internacional quanto decisões estratégicas do governo brasileiro.
Mercado acompanha impacto da inflação dos EUA e Lei de Reciprocidade no Ibovespa
Ibovespa reage à inflação dos EUA e possível retaliação do Brasil aos EUA com base na Lei de Reciprocidade. Dólar sobe; Fed pode cortar juros.
O foco dos investidores está na inflação dos Estados Unidos, indicador-chave para a política monetária global, e no movimento da diplomacia brasileira diante da escalada protecionista dos EUA.
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PCE traz alívio moderado ao mercado
O índice de preços de gastos com consumo (PCE, na sigla em inglês), o indicador de inflação preferido pelo Federal Reserve (Fed), subiu 0,2% em julho, alinhado com as expectativas dos analistas.
No acumulado de 12 meses, o indicador marcou alta de 2,6%, reforçando a perspectiva de que a inflação nos EUA está gradualmente convergindo para a meta de 2% ao ano.
Essa leitura foi bem recebida pelos mercados, que já precificam com cerca de 90% de probabilidade um corte de juros na reunião de setembro do Fed. A política monetária norte-americana tem forte influência sobre ativos globais, especialmente nos mercados emergentes.
Impacto nos ativos de risco
Com a perspectiva de juros mais baixos nos Estados Unidos, ativos de risco, como ações e moedas de países emergentes, tendem a ser favorecidos. No entanto, o movimento de valorização não é uniforme, uma vez que fatores locais também pesam sobre o desempenho de cada mercado.
No Brasil, o real teve uma leve depreciação frente ao dólar, enquanto o Ibovespa avançou puxado por setores ligados a commodities e exportações.
Brasil estuda retaliação tarifária aos EUA
Lei de Reciprocidade Econômica entra em pauta
Em resposta às recentes medidas tarifárias impostas pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros, o Ministério das Relações Exteriores solicitou à Câmara de Comércio Exterior (Camex) a análise da aplicação da Lei de Reciprocidade Econômica.
A norma prevê que o Brasil pode impor tarifas ou restrições comerciais semelhantes às aplicadas por países que tratem o Brasil de forma desigual no comércio internacional.
Contexto da medida dos EUA
O governo dos Estados Unidos, em uma decisão interpretada como parte do seu novo pacote protecionista, aumentou tarifas sobre importações brasileiras, especialmente de aço, alumínio e produtos agrícolas.
A justificativa seria a proteção da indústria local, mas a medida é vista por analistas como uma tentativa de fortalecer a base eleitoral do presidente norte-americano em ano de campanha.
Reação do mercado brasileiro
A possibilidade de retaliação comercial traz incertezas sobre as exportações brasileiras e impacta especialmente empresas ligadas ao agronegócio e à indústria de base.
Ainda assim, o mercado reagiu positivamente à postura firme do governo, interpretando a medida como um sinal de defesa dos interesses econômicos nacionais.
Dívida pública e déficit fiscal preocupam
Dívida bruta sobe além do esperado
Outro fator que pressionou os mercados foi a divulgação dos dados da dívida bruta do governo geral, que atingiu 76,5% do PIB em julho, acima da expectativa de 76,2%. O aumento reflete a elevação das despesas públicas e a dificuldade em conter o déficit fiscal em meio ao fraco crescimento econômico.
Setor público tem déficit primário maior que o previsto
Além disso, o setor público consolidado, que inclui governo federal, estados, municípios e estatais, apresentou um déficit primário de R$ 47,3 bilhões em julho, superior à mediana das projeções de mercado, que apontava para um déficit de R$ 42 bilhões.
Estes números reacenderam o debate sobre a sustentabilidade fiscal do Brasil e a necessidade de um novo arcabouço fiscal mais robusto para garantir o equilíbrio das contas públicas.
Ibovespa opera em alta, mas com volatilidade
Setores que impulsionam o índice
O Ibovespa registra avanço nesta manhã, superando os 120 mil pontos, com destaque para ações de mineradoras e exportadoras, beneficiadas pelo dólar mais alto e pela demanda global por commodities. Papéis como Vale (VALE3) e Petrobras (PETR4) são os principais vetores positivos do índice.
Empresas impactadas pela tensão com os EUA
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Por outro lado, ações de empresas do setor de agroexportação, como BRF (BRFS3) e JBS (JBSS3), operam sob pressão, refletindo o temor de uma escalada na disputa comercial com os Estados Unidos, que poderia afetar a competitividade dos produtos brasileiros no mercado internacional.
Dólar sobe com cautela dos investidores
A moeda norte-americana opera em alta frente ao real, cotada acima de R$ 5,15. A valorização reflete uma combinação de fatores, como o aumento das tensões comerciais, incertezas fiscais no Brasil e movimentos técnicos de proteção cambial por parte de investidores estrangeiros.
Perspectivas para os próximos dias
Espera por decisão do Fed
O foco dos mercados nas próximas semanas será a reunião de política monetária do Federal Reserve, prevista para setembro. Um corte de juros poderá impulsionar os mercados emergentes e reduzir a pressão sobre o câmbio brasileiro.
Acompanhamento das medidas do governo brasileiro
Internamente, os investidores estarão atentos aos desdobramentos da Camex sobre a Lei de Reciprocidade. A eventual adoção de medidas tarifárias contra produtos norte-americanos pode elevar a tensão comercial e gerar retaliações adicionais, o que seria prejudicial para o comércio exterior do Brasil.
Além disso, a evolução das negociações no Congresso sobre o novo arcabouço fiscal e a reforma tributária também devem influenciar o humor do mercado.
Opinião de analistas

Segundo economistas de bancos e corretoras, o cenário continua desafiador, mas não totalmente negativo. A leitura do PCE nos EUA foi considerada positiva, mas o Brasil precisa reforçar sua credibilidade fiscal para aproveitar melhor o momento de possível alívio monetário global.
“O mercado está em modo de espera. Temos sinais positivos lá fora, mas os ruídos internos, especialmente fiscais e comerciais, ainda preocupam”, afirma André Perfeito, economista-chefe da Necton.
“O uso da Lei de Reciprocidade, embora legítimo, deve ser manejado com cautela para evitar impactos mais amplos nas relações comerciais”, alerta Fernanda Consorte, estrategista do banco Ourinvest.
Conclusão
O Ibovespa encerra a semana sob influência de forças opostas: o alívio internacional com a inflação dos EUA e a tensão doméstica gerada pelas incertezas fiscais e possíveis retaliações comerciais.
A prudência continuará sendo a palavra de ordem para os investidores, que monitoram atentamente cada sinal vindo de Brasília e de Washington.
