O Mercado Livre, maior plataforma de e-commerce da América Latina, pode estar prestes a dar um passo ousado e estratégico no Brasil: a entrada no mercado farmacêutico, um setor que movimenta mais de R$ 200 bilhões por ano. A empresa adquiriu uma farmácia localizada na zona sul de São Paulo, por meio da sua subsidiária Kangu, comprada em 2021, com o objetivo de explorar vendas online de medicamentos sem prescrição médica.
Mercado Livre teria adquirido farmácia em SP para entrar no setor farmacêutico
Mercado Livre compra farmácia em SP via Kangu e mira vendas online de medicamentos. Estratégia pode transformar o setor farmacêutico.
A movimentação ocorre num momento de grande atenção por parte de analistas e concorrentes, especialmente após a notícia impactar diretamente as ações da RD Saúde (ex-Raia Drogasil), que recuaram 6% no mesmo dia da divulgação.
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Confirmação e silêncio estratégico
Posicionamento oficial do Mercado Livre
A empresa confirmou a possível aquisição de uma empresa que comercializa medicamentos, mas não deu detalhes. Em nota à imprensa, declarou que “irá compartilhar mais informações a respeito em um momento oportuno”.
Estratégia em construção
A compra da farmácia representa, segundo especialistas, uma estratégia cautelosa, mas inteligente, para o Mercado Livre testar o mercado, compreender a regulação brasileira e construir um plano de crescimento escalável, inspirado em modelos como o da Amazon Pharmacy, nos Estados Unidos.
Entendendo o movimento: por que entrar no setor farmacêutico?
Um mercado bilionário e de alta recorrência
O setor farmacêutico no Brasil representa um dos maiores mercados de consumo recorrente do país. Segundo estimativas da XP Investimentos, ele movimenta:
- Mais de R$ 200 bilhões ao ano, considerando medicamentos e produtos de higiene pessoal e cosméticos (HPC);
- Um número crescente de consumidores digitais, especialmente após a pandemia;
- Alta margem operacional em produtos não controlados, como suplementos, dermocosméticos, vitaminas e itens de conveniência.
Para o Mercado Livre, entrar nesse mercado é uma oportunidade de aumentar o ticket médio, ampliar a recorrência de compras e capturar dados de saúde que podem ser valiosos para o marketing e personalização de ofertas.
A regulação e os desafios do setor
Exigências legais para vender medicamentos online
A venda de medicamentos no Brasil segue regras rigorosas determinadas pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e outras autoridades:
- Apenas farmácias licenciadas pela vigilância sanitária podem vender medicamentos, inclusive os isentos de prescrição (MIPs);
- É necessário manter um farmacêutico presente durante toda a operação de venda;
- Medicamentos controlados exigem ponto físico e prescrição válida.
Ao adquirir uma farmácia já licenciada, o Mercado Livre pula uma etapa regulatória complexa e abre caminho para operar dentro da legalidade.
Cade e concentração de mercado
A XP Investimentos avalia que o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) não deve impor resistência à operação, já que o Mercado Livre ainda não atua no setor de medicamentos, e o mercado é altamente pulverizado — com milhares de farmácias independentes e redes regionais.
Modelo de negócios: farmácia como mini hub logístico?

Ponto físico como piloto e centro de distribuição
A farmácia adquirida pode servir a múltiplos propósitos:
- Ponto de atendimento local, com farmacêutico e estoque;
- Centro de distribuição urbano, permitindo entregas no mesmo dia;
- Projeto piloto, para validar a operação e posteriormente expandir via aquisição de novas unidades em pontos estratégicos.
Essa abordagem reduz o tempo de entrega, cumpre exigências regulatórias e cria confiança com o consumidor.
Impacto no mercado: ameaça ou oportunidade?
Ações da RD Saúde caem após notícia
No mesmo dia da divulgação da notícia, as ações da RD Saúde caíram 6%, indicando uma reação negativa do mercado financeiro. Investidores interpretaram a possível entrada do Mercado Livre como ameaça à dominância das grandes redes farmacêuticas.
XP vê cenário misto
Para os analistas da XP, a entrada do Mercado Livre pode:
- Aumentar a competitividade, forçando as redes tradicionais a investir em digitalização;
- Expandir o consumo online de medicamentos e HPC, especialmente nas classes A e B;
- Prejudicar farmácias independentes, que não têm capital para competir com tecnologia e logística da plataforma.
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Entretanto, há vantagens competitivas das farmácias tradicionais que ainda se mantêm relevantes:
- Entrega ultrarrápida em centros urbanos;
- Atendimento personalizado e relações de confiança;
- Venda de medicamentos com prescrição e serviços de saúde (vacinação, testes rápidos).
Farmácias independentes podem ser alvo de aquisição
Expansão via compras estratégicas
A XP acredita que o Mercado Livre deverá buscar outras farmácias independentes ou com atuação regional para crescer sua presença física. O cenário de juros altos dificulta o acesso ao crédito para esses pequenos empreendedores, o que torna a venda para um gigante digital uma alternativa atraente.
Paralelo com a Amazon Pharmacy
Similaridades e diferenças com o mercado americano
Nos Estados Unidos, a Amazon já atua no setor por meio da Amazon Pharmacy, oferecendo:
- Entregas no mesmo dia em algumas cidades;
- Prescrições digitais integradas com planos de saúde;
- Venda de medicamentos controlados e produtos de bem-estar.
Apesar das semelhanças, o sistema de saúde americano é diferente e mais integrado ao setor privado. No Brasil, a ausência de uma estrutura semelhante impõe barreiras adicionais ao modelo da Amazon, mas também abre brechas para modelos híbridos como o que o Mercado Livre parece estar testando.
O que esperar nos próximos meses?

Expansão ou cautela?
Especialistas acreditam que o Meli pode estar testando um modelo piloto para:
- Medir a aceitação do público;
- Avaliar os custos operacionais e logísticos;
- Estudar o comportamento regulatório;
- Construir uma rede capilar de farmácias ao longo do tempo.
A expectativa é que novas movimentações — como aquisições regionais ou parcerias com drogarias existentes — sejam anunciadas até o final de 2025.
Imagem: rafapress / shutterstock.com
