O mercado brasileiro de tecnologia vive uma situação que chama atenção de empresas e trabalhadores: enquanto a procura por profissionais qualificados cresce, a formação de mão de obra não acompanha o ritmo necessário.
Entre 2019 e 2024, a demanda por profissionais de tecnologia chegou a cerca de 665 mil pessoas, enquanto a oferta ficou em aproximadamente 465 mil. A diferença representa um déficit de 30,2% e ajuda a explicar por que determinadas carreiras conseguem alcançar remunerações muito acima da média nacional.
O cenário também mostra que a inteligência artificial (IA) não é a única responsável pela expansão do setor. Desenvolvimento de software, infraestrutura, suporte, dados e segurança continuam entre as áreas fundamentais para empresas que avançam na digitalização.
Para quem pretende entrar no mercado, a combinação de formação técnica, experiência prática, inglês e capacidade de acompanhar novas tecnologias pode fazer diferença na disputa pelas melhores oportunidades.
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Por que faltam profissionais de tecnologia no Brasil?

O avanço da digitalização aumentou a necessidade de trabalhadores especializados em diferentes setores da economia.
Entre 2019 e 2024, o mercado brasileiro demandou 665.403 profissionais, enquanto a oferta correspondente chegou a 464.569 pessoas formadas entre 2018 e 2023. O levantamento da Brasscom aponta um descasamento de 30,2% entre a demanda e a oferta de trabalhadores.
A necessidade não está concentrada apenas nas empresas tradicionalmente ligadas à tecnologia. Bancos, hospitais, varejistas, indústrias, empresas de serviços e negócios do agronegócio também precisam de profissionais para desenvolver sistemas, proteger dados, administrar redes e implementar soluções digitais.
A dimensão econômica do setor ajuda a explicar esse movimento. Em 2024, o macrossetor de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) movimentou R$ 762,4 bilhões e representou 6,5% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, segundo a Brasscom. O segmento reunia aproximadamente 2,1 milhões de empregos no país.
A concentração das oportunidades também é um fator relevante. O Sudeste, especialmente São Paulo, reúne uma parcela expressiva das empresas e das vagas de tecnologia, aumentando a disputa por profissionais qualificados na região.
Inteligência artificial não concentra todas as vagas
A inteligência artificial se tornou uma das principais apostas do mercado e despertou o interesse de profissionais que buscam carreiras com potencial de crescimento.
Isso não significa, porém, que IA seja responsável pela maior parte das contratações. Muitas empresas brasileiras ainda estão em etapas anteriores da transformação digital e precisam primeiro estruturar sistemas, redes, bancos de dados e ferramentas de segurança.
Por esse motivo, áreas consideradas tradicionais continuam concentrando grande parte das oportunidades.
Entre os segmentos que mais aparecem nas contratações estão:
- Desenvolvimento de Software;
- Infraestrutura e Suporte;
- Dados e Inteligência Artificial;
- Projetos e Gerenciamento;
- Testes e Controle de Qualidade;
- Segurança da Informação;
- Automação de Processos e Sistemas.
A realidade mostra que a transformação digital depende de uma cadeia ampla de profissionais. A IA pode acelerar processos, mas precisa de infraestrutura, dados, sistemas e especialistas para funcionar dentro das empresas.
Quais são os maiores salários da tecnologia?
As remunerações mais elevadas estão concentradas principalmente em cargos executivos e posições que exigem experiência e conhecimento técnico avançado.
Segundo dados do mercado salarial de tecnologia, cargos de liderança podem alcançar valores superiores a R$ 50 mil mensais. Esses números correspondem a faixas superiores de remuneração e não significam que todos os profissionais dessas funções recebam esses valores.
Entre os cargos com maiores remunerações estão:
- Chief Information Officer (CIO): até R$ 53,6 mil;
- Chief Security Officer (CSO): até R$ 52,5 mil;
- Chief Technology Officer (CTO): até R$ 49,5 mil;
- Gerente de Dados: até R$ 37,9 mil;
- Gerente de Segurança da Informação: até R$ 37,2 mil;
- Gerente de TI Generalista: até R$ 35 mil;
- Gerente de Desenvolvimento: até R$ 35 mil;
- Gerente de BI: até R$ 32,5 mil;
- Gerente de Infraestrutura: até R$ 27,9 mil.
Os valores mostram uma característica importante do setor: os maiores salários estão associados não apenas ao conhecimento técnico, mas também à experiência, responsabilidade e impacto das decisões tomadas pelo profissional.
Além da carreira de gestão, especialistas técnicos também podem alcançar remunerações elevadas em áreas de alta complexidade.
Quais conhecimentos são mais valorizados?
As empresas procuram profissionais capazes de combinar conhecimento técnico com capacidade de adaptação.
Computação em nuvem, inteligência artificial, engenharia de dados, segurança da informação e automação estão entre os conhecimentos que ganharam relevância com a transformação digital.
A computação em nuvem, por exemplo, permite que empresas armazenem informações e executem sistemas utilizando infraestrutura remota. Tecnologias e plataformas como AWS e Azure também aparecem com frequência nas exigências das vagas.
Certificações podem funcionar como um diferencial, especialmente em áreas técnicas nas quais o empregador precisa comprovar que o candidato domina determinada ferramenta ou metodologia.
Entre os conhecimentos que aparecem com frequência nas oportunidades estão:
- Computação em nuvem;
- Metodologias ágeis;
- AWS;
- Azure;
- Engenharia de dados;
- Inteligência artificial;
- Segurança da informação;
- Bancos de dados;
- Automação.
Mais do que acumular cursos, o profissional precisa conseguir demonstrar como utiliza esses conhecimentos na prática.
Inglês pode aumentar as oportunidades?
O domínio do inglês pode ampliar as possibilidades de carreira, principalmente em empresas multinacionais e equipes que trabalham com profissionais de outros países.
O idioma também aparece na rotina de muitos profissionais mesmo quando a empresa é brasileira. Documentações técnicas, ferramentas, fóruns especializados e atualizações de softwares frequentemente estão disponíveis primeiro em inglês.
Por isso, aprender o idioma pode representar um diferencial para quem pretende trabalhar com tecnologia no longo prazo.
O benefício também pode aparecer na possibilidade de disputar vagas internacionais e trabalhar remotamente para empresas estrangeiras.
Quais habilidades comportamentais são mais procuradas?
Conhecimento técnico não é o único critério utilizado pelas empresas.
Profissionais de tecnologia trabalham cada vez mais próximos de equipes de marketing, vendas, finanças, recursos humanos e operações. Por isso, saber explicar um problema técnico e colaborar com pessoas de diferentes áreas tornou-se parte importante do trabalho.
Entre as habilidades comportamentais mais valorizadas estão:
- Comunicação;
- Criatividade;
- Organização;
- Trabalho em equipe;
- Liderança;
- Capacidade de resolver problemas;
- Adaptabilidade.
A comunicação merece atenção especial. Um profissional pode dominar uma tecnologia, mas precisa ser capaz de explicar suas decisões e apresentar soluções de maneira compreensível para pessoas que não possuem conhecimento técnico.
Quais áreas oferecem mais oportunidades para iniciantes?
Os maiores salários não significam que todas as especialidades sejam igualmente acessíveis para quem está começando.
Funções altamente especializadas, principalmente em inteligência artificial, segurança avançada e gestão, geralmente exigem experiência e uma combinação maior de conhecimentos.
Para quem está no início da carreira, infraestrutura e suporte podem representar uma porta de entrada mais acessível. Automação e testes de software também aparecem como alternativas para quem ainda está construindo experiência.
Isso não significa que desenvolvimento de software ou dados sejam áreas inadequadas para iniciantes. A diferença está na quantidade de oportunidades disponíveis para cada nível de experiência e na concorrência entre candidatos.
Uma pessoa pode começar em uma função mais básica e posteriormente se especializar.
Um profissional de suporte, por exemplo, pode avançar para infraestrutura, computação em nuvem ou segurança. Da mesma forma, alguém que começa no desenvolvimento pode posteriormente trabalhar com engenharia de software, dados ou inteligência artificial.
A inteligência artificial vai acabar com os empregos de tecnologia?
Os dados disponíveis apontam mais para uma transformação das funções do que para o desaparecimento completo das carreiras de tecnologia.
Ferramentas de IA conseguem automatizar tarefas repetitivas e acelerar atividades como programação, análise de dados e produção de conteúdo. Ainda assim, as empresas continuam precisando de profissionais capazes de definir problemas, avaliar resultados, integrar sistemas e tomar decisões.
A expansão dos investimentos também reforça essa tendência. A Brasscom estima R$ 774 bilhões em investimentos em tecnologias de transformação digital até 2028, com destaque para áreas como computação em nuvem, inteligência artificial e Big Data & Analytics.
Nesse contexto, aprender a utilizar ferramentas de IA pode se tornar tão importante quanto dominar os conhecimentos tradicionais da profissão.
O que o cenário significa para quem quer entrar na tecnologia?
O mercado oferece oportunidades, mas não existe uma garantia de salário alto apenas por escolher uma profissão de tecnologia.
A construção de uma carreira normalmente exige conhecimento técnico, experiência prática e atualização constante. Dependendo da função, uma graduação pode ser importante; em outras situações, certificações, projetos pessoais e portfólio podem ajudar a demonstrar capacidade.
Uma estratégia possível é começar por uma área que tenha oportunidades para profissionais iniciantes e, posteriormente, buscar uma especialização.
Também é importante observar a demanda da região onde o profissional pretende trabalhar. Como parte significativa das oportunidades está concentrada em grandes centros, a possibilidade de trabalho remoto pode ampliar o número de vagas disponíveis.
O mercado de tecnologia continuará pagando bem?
A tendência de médio prazo continua favorável para profissionais qualificados, principalmente porque a digitalização ainda está avançando em empresas de diferentes setores.
O macrossetor de TIC já representa 6,5% do PIB brasileiro e reúne milhões de postos de trabalho. A expectativa de novos investimentos em transformação digital deve manter a demanda por especialistas em diferentes áreas.
Isso não significa, porém, que todos os trabalhadores receberão salários elevados.
A remuneração depende de fatores como experiência, especialização, localização, porte da empresa, responsabilidades e domínio de determinadas tecnologias.
Na prática, os melhores resultados tendem a aparecer para quem combina uma boa base técnica com especialização e capacidade de acompanhar as mudanças do mercado.
O que estudar para aumentar as chances de conseguir emprego?
Não existe uma única formação capaz de garantir uma vaga. A escolha depende do perfil do profissional e do tipo de trabalho que ele deseja realizar.
Entre os conhecimentos que podem abrir diferentes caminhos estão:
- Programação;
- Computação em nuvem;
- Análise e engenharia de dados;
- Inteligência artificial;
- Cibersegurança;
- Automação;
- Bancos de dados;
- Metodologias ágeis;
- Inglês;
- Comunicação.
Também é recomendável construir projetos práticos. Um portfólio pode ajudar o candidato a demonstrar que consegue aplicar o conhecimento adquirido.
Mais do que acompanhar cada nova ferramenta lançada, o profissional deve construir fundamentos sólidos. Lógica, programação, dados, redes, segurança e arquitetura de sistemas continuam relevantes mesmo quando determinadas tecnologias deixam de ser utilizadas.
O que esperar do mercado nos próximos anos?

O mercado brasileiro de tecnologia deve continuar sendo influenciado por três grandes movimentos: a digitalização das empresas, a expansão da inteligência artificial e a necessidade de profissionais capazes de trabalhar com novas infraestruturas.
A projeção de investimentos em transformação digital e o déficit de profissionais mostram que ainda existe espaço para crescimento.
Para quem pretende ingressar na área, o cenário é promissor, mas exige preparação. Os salários mais altos não estão disponíveis automaticamente para quem entra no setor.
A diferença estará cada vez mais na capacidade de combinar conhecimento técnico, experiência prática, domínio de novas ferramentas e compreensão das necessidades do negócio.
Conclusão
O mercado de tecnologia brasileiro enfrenta um desequilíbrio entre a quantidade de profissionais disponíveis e a demanda das empresas. Esse déficit ajuda a explicar a valorização de determinadas especialidades e a existência de salários que ultrapassam R$ 50 mil em cargos executivos.
Apesar do crescimento da inteligência artificial, as oportunidades continuam distribuídas por diversas áreas, como desenvolvimento, infraestrutura, suporte, dados, segurança e automação.
Para quem está começando, o melhor caminho não é simplesmente escolher a profissão com o maior salário. A estratégia mais consistente é construir uma base sólida, desenvolver experiência prática, aprender inglês e buscar uma especialização que tenha demanda no mercado.
Com a transformação digital avançando em praticamente todos os setores da economia, profissionais preparados tendem a continuar entre os mais disputados pelas empresas.
