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Moody’s vê ambiente de crédito mais desafiador em 2026

Moody’s mapeia seis riscos que podem elevar inadimplência e encarecer crédito global com tensões geopolíticas e IA.

Vitória MonckesPor Vitória Monckes5 min de leitura
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A Moody’s avaliou que o mercado de crédito global pode enfrentar impactos relevantes ao longo do ano diante do avanço das tensões geopolíticas e do uso cada vez mais intenso de ferramentas de Inteligência Artificial (IA). Em relatório recente, a agência de classificação de risco listou seis fatores que, se materializados de forma isolada ou combinada, podem pressionar a inadimplência e elevar o custo do financiamento no mundo.

Segundo a agência, o exercício não representa o cenário-base atualmente adotado, mas funciona como um mapa de riscos que exigiriam apenas um choque relativamente pequeno para alterar a dinâmica do crédito. Em um ambiente marcado por maior volatilidade, fragmentação política e transformações tecnológicas aceleradas, o alerta ganha relevância para governos, empresas e investidores — inclusive no Brasil, que depende do fluxo global de capitais e do humor do mercado internacional.

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Fraturas geopolíticas e risco de estresse financeiro

O principal alerta da Moody’s recai sobre o avanço das fraturas geopolíticas. Tensões envolvendo Estados Unidos, Europa, Rússia, Ucrânia e diferentes regiões da Ásia compõem um cenário descrito como mais fragmentado e volátil, no qual grandes potências buscam consolidar zonas de influência concorrentes.

De acordo com a agência, qualquer evento percebido como capaz de gerar ramificações globais — como fissuras na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) ou conflitos em economias relevantes do Oriente Médio ou da Ásia — tende a provocar fuga prolongada de capitais, reprecificação de ativos e estresse de liquidez. Esse tipo de movimento costuma afetar de forma mais severa emissores com ratings mais baixos, que dependem de acesso contínuo a financiamento externo.

Para países emergentes, como o Brasil, esse ambiente pode se traduzir em maior volatilidade cambial, aumento do custo de captação no exterior e pressão adicional sobre empresas endividadas em moeda estrangeira.

Incerteza sobre a sucessão no Federal Reserve

Outro ponto de atenção destacado pela Moody’s é a incerteza em torno da sucessão de Jerome Powell na presidência do Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos. Caso o próximo dirigente adote uma leitura mais flexível do mandato de estabilidade de preços e demore a reagir a pressões inflacionárias, cresce o risco de desancoragem das expectativas de inflação.

A agência lembra que, na década de 1970, cortes prematuros de juros acabaram reduzindo a inflação apenas à custa de um aperto monetário extremo anos depois. No cenário atual, consequências possíveis incluem uma curva de rendimentos mais inclinada, maior volatilidade nos títulos do Tesouro americano de longo prazo, conhecidos como treasuries, e depreciação do dólar.

Esses movimentos têm impacto direto sobre o crédito global, uma vez que os treasuries funcionam como referência para taxas de juros no mundo todo, influenciando desde empréstimos corporativos até financiamentos imobiliários.

Valorização da IA e risco de correção nos mercados

A forte valorização das empresas ligadas à Inteligência Artificial também aparece como um fator de risco. Segundo a Moody’s, expectativas excessivamente otimistas em relação aos ganhos de produtividade e aos resultados financeiros podem abrir espaço para correções abruptas caso os números fiquem abaixo do previsto ou as condições financeiras se tornem mais restritivas.

Uma eventual queda nas bolsas teria reflexos diretos sobre setores como semicondutores, data centers, utilities e até mercados imobiliários localizados em polos de tecnologia. Mesmo em um contexto no qual as famílias apresentem balanços relativamente sólidos, cortes de vagas e redução nas contratações podem arrefecer o consumo, afetando a atividade econômica e a capacidade de pagamento de dívidas.

Impacto da IA sobre o emprego e o consumo

A própria aceleração da IA traz um risco adicional: a substituição de postos de trabalho por ganhos de eficiência. A Moody’s calcula que, em um cenário no qual metade de um aumento de 1% na produção por hora seja convertida em redução de mão de obra, cerca de 800 mil empregos poderiam desaparecer nos Estados Unidos.

Nesse cenário, a taxa de desemprego poderia subir de 4,4% para perto de 5%. A transição afetaria principalmente o consumo de baixa renda, reduziria a arrecadação tributária e ampliaria a desigualdade, exigindo mais gastos sociais por parte do Estado. Para a agência, esse movimento pode pressionar ratings soberanos e corporativos, sobretudo em setores intensivos em trabalho.

Embora o estudo se concentre nos Estados Unidos, o efeito indireto pode alcançar outras economias por meio da desaceleração do comércio internacional e da redução do apetite por risco.

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Crescimento do crédito privado e risco de contágio

No mercado de crédito privado, a Moody’s chama atenção para a combinação de crescimento acelerado e transparência limitada. Esse ambiente cria condições favoráveis para episódios de contágio financeiro, especialmente em momentos de estresse.

Até 2024, seguradoras norte-americanas alocaram cerca de 36% de seus investimentos nesse segmento, enquanto as europeias chegaram a 13%. Caso perdas se acumulem, fundos do tipo evergreen e interval podem ser forçados a vender ativos para honrar resgates, pressionando valuations e ampliando a aversão ao risco em outros mercados.

Esse tipo de movimento já foi observado em crises anteriores e costuma afetar cadeias inteiras de financiamento, incluindo bancos, fundos e investidores institucionais.

Fragilidade dos títulos soberanos em 2026

Por fim, a Moody’s observa que os rendimentos dos títulos soberanos entram em 2026 em um terreno mais frágil. Grandes economias avançadas convivem com déficits estruturais elevados, envelhecimento demográfico e crescimento de produtividade limitado.

A demanda crescente dos investidores por prêmios maiores nas pontas longas das curvas de juros, já observada em leilões de gilts britânicos e de títulos franceses, tende a encarecer o serviço da dívida pública justamente em um momento de espaço fiscal restrito. Esse ciclo de realimentação pode reduzir investimentos, restringir o consumo e manter elevado o risco de ajustes desordenados nos mercados financeiros globais.

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Imagem: Reprodução

INFORMAÇÕES ATUALIZADAS 2026:

Vitória Monckes

Autor

Vitória Monckes

Vitória Monckes é turismóloga, comissária de voo e futura enfermeira. No Seu Crédito Digital, atua como redatora especializada na tradução clara e acessível de políticas públicas, direitos sociais, previdência, programas assistenciais e medidas econômicas. Sua missão é transformar temas governamentais complexos em conteúdos compreensíveis e úteis para os brasileiros, contribuindo para decisões mais conscientes no dia a dia.

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