O Ministério Público Federal (MPF) emitiu uma recomendação à Caixa Econômica Federal para que o banco identifique as poupanças abertas por pessoas escravizadas e ex-escravizadas no século 19, destinadas à compra de cartas de alforria. A medida tem como objetivo resgatar a memória da população afrodescendente e investigar o destino dos valores depositados nessas contas, que até hoje permanecem sem registro público.
Caixa tem 30 dias para localizar contas de escravizados do século 19, determina MPF
MPF cobra que a Caixa identifique poupanças de escravizados do século 19 e apure o destino dos valores das cartas de liberdade.
O órgão deu 30 dias para a Caixa responder se pretende cumprir a recomendação e criar um plano detalhado de identificação das contas. Caso aceite, o banco terá 180 dias para elaborar e apresentar um plano de trabalho, informando como fará a catalogação e divulgação dos dados históricos.
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O que o MPF quer da Caixa
A recomendação do MPF inclui uma série de medidas práticas para recuperar informações históricas apagadas ou negligenciadas ao longo dos anos. Entre os principais pontos, o órgão pede que a Caixa:
- Identifique todas as poupanças abertas por pessoas escravizadas e libertas durante o século 19;
- Informe os nomes dos titulares, números de registro e valores depositados;
- Apresente o destino do dinheiro, especificando se houve saques, transferências ou retenções pelo banco;
- Crie um plano público de acesso aos dados, que será disponibilizado para pesquisadores, historiadores e o público em geral.
Segundo o MPF, a ausência de informações organizadas sobre essas contas revela uma possível forma de apagamento histórico e institucional da trajetória econômica e social da população afrodescendente no Brasil.
Poupanças abertas por escravizados: um capítulo oculto da história brasileira
A Caixa Econômica Federal foi fundada em 1861, ainda no período imperial, com o objetivo de estimular a poupança popular. Na época, escravizados que conseguiam acumular algum dinheiro — seja por meio de pequenos trabalhos ou pela concessão de senhores — podiam abrir cadernetas de poupança para guardar valores e comprar suas cartas de liberdade.
Essas poupanças, segundo registros esparsos de historiadores, foram fundamentais para viabilizar a alforria de milhares de pessoas, especialmente nas últimas décadas antes da abolição, em 1888. No entanto, grande parte dessa documentação nunca foi devidamente organizada nem digitalizada, o que impede a rastreabilidade dos valores.
“A inexistência de um acervo sistematizado sobre as contas abertas por escravizados é um indício de que a história financeira e humana dessa população foi invisibilizada”, destacou o MPF em nota oficial.
Caixa tem 30 dias para responder e 180 dias para detalhar plano
O MPF estabeleceu dois prazos importantes:
- 30 dias: prazo inicial para que a Caixa informe se aceitará ou não a recomendação e se comprometerá com o plano.
- 180 dias: prazo para apresentar o plano de identificação e pesquisa sobre as poupanças.
Caso o banco concorde em avançar com o projeto, deverá montar uma equipe técnica especializada, com historiadores, arquivistas, analistas e profissionais de TI, para localizar, catalogar e digitalizar os registros antigos que ainda estejam armazenados fisicamente nos cofres do banco ou em arquivos regionais.
A importância da medida para a memória e reparação histórica
O MPF afirma que o reconhecimento e a recuperação desses registros têm valor não apenas econômico, mas também simbólico e reparatório. O objetivo é garantir o direito à verdade histórica sobre o papel das instituições financeiras durante o período da escravidão e no processo de libertação.
“Resgatar esses registros é essencial para preservar a memória das famílias afrodescendentes e reconhecer as contribuições e as injustiças sofridas por seus antepassados”, afirmou o procurador responsável pelo caso.
Segundo o órgão, esse tipo de iniciativa reforça o compromisso do Estado brasileiro com a reparação histórica e com o combate ao racismo estrutural — especialmente no contexto de instituições públicas que atuaram, direta ou indiretamente, durante a escravidão.
A possível apropriação de valores

Um dos pontos que despertam maior atenção na investigação é a hipótese de apropriação indevida dos valores dessas contas. O MPF quer apurar se a Caixa, em algum momento, reteve, transferiu ou incorporou recursos pertencentes a pessoas escravizadas ou libertas que, por razões históricas e legais, não tiveram condições de resgatar o dinheiro.
A ausência de registros contábeis, segundo o órgão, levanta suspeitas de que parte desses valores possa ter sido absorvida pela instituição ou perdida com o tempo, sem qualquer forma de restituição.
O MPF também avalia que a Caixa tem o dever moral e histórico de transparência sobre o destino dos recursos, uma vez que foi criada por decreto imperial e possui natureza pública.
O acervo histórico da Caixa: um tesouro ainda não explorado
A Caixa mantém um acervo histórico que remonta à sua fundação, em 1861, contendo registros de livros de poupança, correspondências e documentos administrativos. No entanto, a própria instituição já reconheceu que nunca realizou uma pesquisa completa sobre as contas abertas por escravizados.
Segundo o MPF, parte significativa do material ainda não foi catalogada nem digitalizada, o que dificulta o acesso público e científico. O acervo, considerado patrimônio documental nacional, pode conter milhares de registros originais de poupanças e depósitos feitos por pessoas negras libertas ou em processo de alforria.
Histórico de omissões
Em outras ocasiões, a Caixa afirmou ter feito levantamentos pontuais, mas sem resultados conclusivos. O MPF quer garantir que, desta vez, o processo seja abrangente, técnico e transparente, com divulgação pública dos resultados.
Repercussões e apoio de movimentos sociais
Diversos movimentos negros e organizações da sociedade civil manifestaram apoio à recomendação do MPF. Para eles, a medida é um passo importante rumo ao reconhecimento histórico das desigualdades econômicas geradas pela escravidão.
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A Coalizão Negra por Direitos e a Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB) destacaram que a recuperação dessas informações pode fortalecer políticas de reparação e justiça racial.
“Esse resgate é mais do que simbólico. Ele representa a possibilidade de compreender as dinâmicas de exclusão que continuam moldando a realidade econômica das famílias negras no Brasil”, afirmou a socióloga Ana Paula Santos, da Universidade Federal da Bahia (UFBA).
O papel do Estado e o direito à verdade
O MPF ressalta que o Brasil é signatário de tratados internacionais, como a Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, que obrigam o país a adotar políticas de memória e reparação em relação à escravidão.
O direito à verdade é considerado um pilar dessas políticas, pois permite reconhecer oficialmente os fatos e as responsabilidades históricas das instituições que contribuíram para a perpetuação da desigualdade racial.
O que a Caixa pode fazer a partir de agora
Caso aceite a recomendação, a Caixa deverá:
- Criar uma comissão interna de trabalho dedicada à identificação dos registros;
- Firmar parcerias com universidades públicas e centros de pesquisa;
- Digitalizar os documentos históricos para consulta pública;
- Divulgar os resultados no Portal da Transparência e em plataforma acessível à sociedade.
O MPF poderá acompanhar e fiscalizar o andamento das ações, cobrando prazos e relatórios periódicos.
Implicações jurídicas e sociais

Possibilidade de responsabilização
Se ficar comprovado que a Caixa se apropriou de recursos pertencentes a escravizados, o caso pode gerar responsabilidade patrimonial e moral para a instituição. Especialistas afirmam que, mesmo passados mais de 100 anos, o dever de reparação histórica não prescreve quando envolve direitos coletivos violados por instituições públicas.
Impacto na memória coletiva
Além das consequências jurídicas, a medida tem um impacto simbólico profundo. Ao reconhecer que pessoas negras foram também agentes econômicos — que guardaram, investiram e planejaram financeiramente sua liberdade —, o país avança no reconhecimento da autonomia e da humanidade de milhões de brasileiros invisibilizados pela história oficial.
Imagem: Freepik/ Edição: Seu Crédito Digital
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