No interior do Rio Grande do Norte, um mutirão de cirurgia de catarata que prometia devolver a visão a dezenas de pacientes acabou se transformando em um pesadelo para oito deles, que perderam o globo ocular devido a complicações pós-operatórias.
O evento, realizado nos dias 27 e 28 de setembro, levantou sérias preocupações sobre a qualidade dos procedimentos e a segurança dos pacientes.
Contexto do Mutirão de Catarata

O mutirão foi organizado pela prefeitura de Parelhas, a cerca de 250 km da capital, Natal. O evento foi promovido como uma oportunidade para reduzir a fila de espera para cirurgias oftalmológicas, uma demanda crescente entre a população que sofre com problemas de visão.
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Luzia, uma das pacientes que buscou o mutirão, estava ansiosa para realizar a cirurgia no olho esquerdo. Para muitos, como ela, a expectativa era de recuperar a visão e melhorar a qualidade de vida. A filha de Luzia, Iara Medeiros, comentou que “era a última esperança de enxergar novamente”. No entanto, essa esperança logo se transformou em desespero.
O Desastre: Infecções e Perdas
A tragédia começou a se desenrolar quando, após o procedimento, quinze pacientes apresentaram sinais de endoftalmite, uma infecção grave que afeta o interior do olho. O agente causador foi identificado como a bactéria Enterobacter cloacae, que levou a complicações severas. Oito pacientes foram submetidos à remoção do globo ocular para evitar a disseminação da infecção.
Além de Luzia, Maria Ernesto também enfrentou uma experiência dolorosa. A filha dela, Silvania Alves, contou que Maria aguardava a cirurgia há dois anos, após a recomendação de uma médica. Silvania expressou sua tristeza ao afirmar que ela esperou tanto tempo para a cirurgia e agora está sem um olho, enxergando apenas pelo esquerdo, demonstrando visível emoção.
Esses relatos evidenciam a angústia vivida por familiares e pacientes que buscavam apenas tratamento e acabaram enfrentando uma tragédia.
Reações das Autoridades e Investigações em Andamento
Após a divulgação dos casos, a Prefeitura de Parelhas convocou reuniões com a Anvisa e autoridades de saúde para investigar as circunstâncias do evento. A coordenadora da Vigilância em Saúde, Diana Rego, afirmou que a confirmação da correta esterilização dos equipamentos cirúrgicos era fundamental para entender o que ocorreu.
Em resposta ao ocorrido, a prefeitura anunciou a suspensão do pagamento de aproximadamente R$ 52 mil à clínica responsável pelas cirurgias até que a situação fosse esclarecida. Um inquérito civil foi aberto para apurar as condições da água utilizada, a esterilização dos equipamentos e o local onde os procedimentos foram realizados.
Defesa da Clínica Oculare
A clínica Oculare Oftalmologia Avançada, responsável pelo mutirão, emitiu uma nota à imprensa se defendendo das acusações. A empresa afirmou que todas as cirurgias foram realizadas por profissionais experientes, seguindo os protocolos médicos e de segurança. Eles também ressaltaram que a equipe médica tomou medidas imediatas para tratar os pacientes afetados pela infecção.
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A clínica alegou que os materiais utilizados foram devidamente lavados e entregues para esterilização em uma maternidade. A direção da maternidade corroborou que o material passou pelo processo de esterilização recomendado, mas as investigações continuam para esclarecer se houve falhas nesse procedimento.
Consequências e Reflexões

A tragédia do mutirão de catarata levanta questões sérias sobre a gestão de saúde pública e a qualidade dos serviços prestados à população. Com a demanda crescente por cirurgias oftalmológicas, é essencial que as autoridades garantam que os procedimentos sejam realizados em condições seguras e adequadas.
Os pacientes, que já enfrentam problemas de visão, agora se deparam com uma realidade ainda mais dura: a perda total da visão em um dos olhos. Essa situação evidencia a necessidade urgente de reformas nos processos de triagem e execução de mutirões, além de uma fiscalização mais rigorosa das clínicas que realizam esses procedimentos.
Considerações finais
O caso em Parelhas é um triste lembrete de que a esperança de recuperar a visão não deve ser sacrificada pela falta de cuidado e segurança em procedimentos médicos. As autoridades precisam agir rapidamente para investigar e responsabilizar os envolvidos, garantindo que tragédias como essa não voltem a ocorrer.
A perda de visão, um dos sentidos mais preciosos, é um assunto que deve ser tratado com total seriedade e respeito, especialmente quando se trata de mutirões que visam a cura. Esperamos que os responsáveis sejam responsabilizados e que as famílias afetadas encontrem apoio e justiça em meio a essa tragédia.
