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‘Nunca vimos algo assim’, diz presidente da Nestlé sobre a disparada do café e do cacau

Inflação de cacau e café pressiona custos da Nestlé Brasil em 2025, afetando volume, indústria, consumidores e estratégia de produção.

Juliana PeixotoPor Juliana Peixoto5 min de leitura
cafe cacau

A alta inédita dos preços de matérias-primas essenciais como cacau e café coloca a Nestlé Brasil em um cenário decisivo para 2025. Mesmo com crescimento de dois dígitos em receita no último ano, o aumento acelerado dos custos gera uma equação complexa: crescer em valor sem perder volume.

Para uma operação industrial desenhada para escala, manter fábricas operando de forma eficiente é vital. E quando o volume começa a cair, surgem impactos diretos na estrutura de custos, na competitividade e nas margens de lucro. O desafio, portanto, não é apenas vender mais — é garantir que o consumidor continue comprando.

Segundo o CEO da companhia no país, Marcelo Melchior, a pressão inflacionária recente é a maior já vista internamente. Categorias de alto giro e baixo tíquete médio, presentes em quase todos os lares brasileiros, tornaram-se ainda mais sensíveis a reajustes e reposicionamentos de valor.

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Inflação inédita em cacau e café

O salto nos preços das commodities pegou a indústria global de alimentos de surpresa. O cacau e o café, bases estruturais do portfólio da Nestlé, sofreram impactos expressivos provocado por uma combinação de fatores internacionais, mudanças climáticas e oferta reduzida.

A dependência do cacau e a busca por produtividade no Brasil

Cerca de 70% do cacau utilizado pela Nestlé Brasil vem de lavouras nacionais. Os outros 30% são importados, principalmente de países africanos como Costa do Marfim e Gana, regiões que enfrentam instabilidades climáticas e produtivas.

Esse cenário impulsiona a estratégia da companhia de investir na tecnificação de produtores, aumento de produtividade e programas dedicados à cadeia. A meta é elevar o cacau brasileiro ao mesmo patamar já consolidado no café e no leite.

Café certificado e rastreabilidade como diferencial competitivo

Todo o café adquirido pela Nestlé no país faz parte de um processo rigoroso de certificação e rastreabilidade por meio do Coffee Plan, iniciativa global que assegura qualidade, sustentabilidade e governança na cadeia. Esse movimento é também uma forma de blindagem contra choques de oferta e volatilidade internacional.

Impacto direto no consumidor e nas decisões de compra

Produtos de consumo recorrente — como achocolatados, leite condensado e biscoitos — tornaram-se termômetros da resistência do consumidor. Com preços que variam entre R$ 5 e R$ 15, pequenas oscilações podem gerar grandes efeitos no volume de vendas.

Segundo Melchior, o consumidor diário é implacável: se o produto falha em preço, disponibilidade ou qualidade, a troca por concorrentes é imediata. Em um mercado com alternativas variadas, consistência tornou-se a palavra-chave.

Brasil como pilar estratégico da operação global

Com mais de um século de atuação, a Nestlé Brasil ocupa a terceira posição no ranking global da companhia, atrás apenas de Estados Unidos e China. Esse protagonismo não está relacionado ao tamanho do mercado interno, mas à eficiência construída ao longo de gerações.

Exportar não é prioridade: menos de 10% da produção nacional sai do país. Essa escolha protege a operação brasileira das flutuações de mercado internacional, como políticas protecionistas e barreiras tarifárias.

O desenho industrial da Nestlé no Brasil aponta para uma diretriz clara: produção local para consumo local. Em um momento de pressão de custos, essa decisão aumenta a previsibilidade e reduz riscos operacionais.

Inovação focada no essencial

A Nestlé não aposta apenas em lançamentos. Manter vivo o portfólio tradicional — Leite Moça, Ninho, chocolate e cafés — é o primeiro passo de qualquer estratégia de inovação. Sem o núcleo rentável, não há espaço para testar novas propostas.

Menos açúcar, menos sódio e embalagens sustentáveis

Reduções graduais em açúcar e sódio, adição de vitaminas e revisão de embalagens fazem parte de uma mudança silenciosa, porém contínua. A regra interna segue o teste 60-40: 60% dos consumidores precisam preferir o produto atualizado à concorrência, em teste às cegas.

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O papel dos movimentos de M&A

Nos últimos anos, a Nestlé acelerou sua expansão com aquisições estratégicas, como a fábrica da Garoto, a marca Pura Vida e o Grupo CRM (Kopenhagen, Brasil Cacau e Kop Koffee). Para a empresa, as compras não criam estratégia, mas encurtam caminhos.

O pano de fundo: clima, oferta e uma demanda resiliente

Eventos climáticos foram determinantes para o salto nos preços. No café, o El Niño e temperaturas acima da média prejudicaram colheitas no Sudeste Asiático e no Brasil. No cacau, a dependência da África Ocidental continua sendo um ponto frágil no sistema global.

Perspectivas para 2025: ajuste, reorganização e manutenção de escala

A Nestlé Brasil não abandona o otimismo. Mesmo com margens pressionadas, a expectativa é de crescimento de dois dígitos em 2025. O grande desafio será manter esse avanço sem sacrificar volume, competitividade e a vantagem histórica construída no país.

Se a inflação persistir, será necessário combinar gestão rigorosa de custos, inovação orientada ao consumidor e apoio direto ao produtor rural. O equilíbrio entre preço, valor e recorrência será o ponto central do ano.

Conclusão

A disparada do cacau e do café redesenha a estratégia da Nestlé Brasil. Mais do que uma questão de custo, trata-se de um teste de resiliência operacional, relacionamento com o consumidor e sustentação industrial. O futuro imediato depende da capacidade de ajustar preços sem quebrar a confiança construída ao longo de 103 anos no país.

Imagem: freedomnaruk/ Shutterstock

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Juliana Peixoto

Autor

Juliana Peixoto

Juliana Peixoto é jornalista cearense, formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo. Apaixonada por informação e escrita, está sempre em busca de novos aprendizados, experiências e vivências que ampliem sua visão de mundo. Atualmente, colabora com o portal Seu Crédito Digital, contribuindo com conteúdo informativo e acessível para os leitores.

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