Em 2023, a farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk alcançou o topo da Europa em valor de mercado, ultrapassando a gigante LVMH, graças ao sucesso estrondoso dos medicamentos Ozempic e Wegovy. Ambos atuam na regulação da glicose e na perda de peso, o que levou a uma explosão de demanda global — especialmente nos Estados Unidos.
Novo Nordisk perde espaço no mercado de medicamentos para obesidade
Novo Nordisk perde liderança no mercado de obesidade para a Eli Lilly após falhas com Wegovy. Estratégia falha e concorrência forte ameaçam futuro.
A empresa parecia imbatível: suas ações dispararam, analistas previam um mercado de US$ 150 bilhões em vendas anuais para medicamentos antiobesidade, e sua liderança era incontestável. Mas o que parecia uma trajetória firme rumo à consolidação, rapidamente virou uma corrida para conter perdas.
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A derrocada da gigante dinamarquesa

Problemas de produção e falta de oferta
O colapso começou com uma falha crítica de planejamento. Ao lançar o Wegovy em 2021 — uma formulação da semaglutida focada exclusivamente em perda de peso — a Novo Nordisk subestimou a demanda. Com base na experiência modesta com o Saxenda, um produto anterior, a farmacêutica limitou a produção, esperando um crescimento lento.
No entanto, em apenas cinco semanas, o Wegovy superou a marca de prescrições que o Saxenda levou cinco anos para atingir. A resposta da empresa foi limitar a entrada de novos pacientes, racionar doses e reter versões iniciais do medicamento — medidas que revelaram não apenas uma falha de produção, mas um erro estratégico fundamental.
Reação lenta à concorrência
Essa limitação de mercado criou um vácuo rapidamente preenchido por concorrentes. Empresas de manipulação farmacêutica nos EUA começaram a produzir versões mais baratas da semaglutida. Simultaneamente, plataformas de telemedicina capitalizaram essa oferta alternativa, corroendo a base de clientes da Novo Nordisk.
Enquanto isso, a rival americana Eli Lilly se organizava para lançar sua ofensiva.
Eli Lilly vira o jogo com estratégia agressiva
Mounjaro e Zepbound: os novos líderes
A Lilly lançou o Mounjaro (tirzepatida) para tratamento de diabetes em 2022 e, em 2023, introduziu o Zepbound, voltado para perda de peso. Estudos clínicos mostraram que o Zepbound proporcionava uma perda de peso média superior a 20% — superando o Wegovy.
Apesar de também enfrentar escassez, a Eli Lilly conseguiu estabilizar sua cadeia de produção com rapidez. O resultado: em 2025, as receitas semanais do Zepbound nos Estados Unidos superaram as do Wegovy. O Mounjaro se aproxima perigosamente do Ozempic na liderança do segmento de diabetes.
Marketing direto e parcerias estratégicas
Outro diferencial da Lilly foi a atuação comercial. A empresa saiu na frente ao oferecer vendas diretas ao consumidor com descontos para pacientes fora dos planos de saúde. Além disso, fechou uma parceria com a plataforma de telemedicina Ro para distribuir seus medicamentos com preços mais acessíveis.
A Novo Nordisk replicou essas iniciativas, mas meses depois. O atraso custou caro.
A crise interna e a saída do CEO

Pressão dos acionistas
A crise de liderança se intensificou quando, em junho de 2025, o CEO Lars Fruergaard Jørgensen foi afastado por pressão da fundação controladora da empresa. A decisão refletiu o crescente desconforto dos investidores com os rumos estratégicos da companhia.
Embora a Novo Nordisk ainda detenha dois terços do volume global de medicamentos GLP-1 para diabetes e obesidade, suas ações despencaram mais de 50% em um ano.
A busca por um novo perfil de liderança
A autora Hanne Sindbæk, que acompanha a trajetória da farmacêutica, destaca o dilema interno da empresa: entre o idealismo de trabalhar pelo bem comum e a necessidade de atuar com pragmatismo comercial. “Agora, eles precisam de alguém mais voltado para os negócios”, afirma.
O novo CEO terá a missão de restaurar a confiança dos acionistas e reconquistar o terreno perdido.
Investimentos bilionários e tropeços em inovação
Acordos e aquisições para expandir produção
Para tentar responder à demanda, a Novo Nordisk investiu pesadamente na expansão de sua capacidade de produção. Em 2024, a fundação que controla a farmacêutica anunciou a compra da Catalent, uma fabricante terceirizada, por US$ 16 bilhões — uma das maiores transações do setor.
Além disso, a empresa anunciou novos aportes no Brasil, incluindo R$ 6,4 bilhões para a produção local de medicamentos como o Ozempic.
Pesquisa e desenvolvimento: promessas frustradas
Mesmo com todos os recursos, a Novo Nordisk tropeçou em sua principal aposta de inovação: o CagriSema, uma combinação de medicamentos que deveria superar os efeitos do Wegovy. Porém, os resultados ficaram abaixo do esperado. Em dezembro de 2024, os dados frustrantes do estudo derrubaram as ações da empresa em 20% em um único dia, eliminando cerca de US$ 100 bilhões em valor de mercado.
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Enquanto isso, a Eli Lilly avançava em novas fórmulas, incluindo um comprimido para perda de peso — alternativa atraente para quem prefere evitar injeções.
A chance de recuperação
Mudança de postura
Recentemente, a Novo Nordisk começou a adotar uma abordagem mais agressiva. Firmou um acordo com a CVS para priorizar o Wegovy entre os medicamentos cobertos por planos de benefícios. Também anunciou novos contratos de telemedicina e programas de venda direta.
A porta-voz da empresa afirma que os problemas de escassez já foram resolvidos e que a Novo Nordisk mantém sua posição de liderança global em volume.
Aposta no CagriSema e novos produtos
Mesmo com os tropeços, o CagriSema ainda é visto por analistas como promissor, especialmente se a Novo Nordisk conseguir explorar nichos de mercado mais específicos. A empresa também trabalha no desenvolvimento de novas classes de medicamentos para obesidade.
A batalha está longe de ser encerrada.
Lições de uma queda anunciada

O caso da Novo Nordisk ilustra como a inovação por si só não garante liderança de mercado. Fatores como timing, escala de produção, agilidade em marketing e leitura precisa da demanda são igualmente cruciais.
Como lembra o professor Americus Reed, da Wharton School: “Todos querem ser as primeiras pegadas na praia vazia. Mas quem chega depois pode evitar os erros dos pioneiros.”
A Novo Nordisk, agora, precisa provar que ainda tem fôlego para competir em um mercado cada vez mais dinâmico — e bilionário.
Conclusão
A trajetória da Novo Nordisk mostra que mesmo gigantes do mercado podem enfrentar desafios severos quando falham em antecipar a demanda e responder rapidamente à concorrência. A saída do CEO e a perda de espaço para a Eli Lilly evidenciam a importância de equilíbrio entre inovação, produção e estratégia comercial. O futuro da empresa dependerá da capacidade de aprender com esses erros e se adaptar a um mercado altamente competitivo e em constante evolução.
