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Compra engatilhada cancelada: Nubank evita assumir banco com risco alto de imagem

Nubank recua na compra do banco Digimais após avaliar riscos de imagem, governança e compliance que superavam ganhos financeiros.

Juliana PeixotoPor Juliana Peixoto5 min de leitura
Nubank

As negociações entre o Nubank e o banco Digimais começaram como um movimento promissor no setor financeiro, mas terminaram em um recuo estratégico. A fintech mais valiosa da América Latina avaliou que os riscos reputacionais e regulatórios associados à aquisição superavam os possíveis ganhos financeiros.

Enquanto o Banco Central (BC) acompanhava de perto as conversas, enxergando na operação uma chance de fortalecer a solidez do sistema bancário, o Nubank optou por priorizar sua imagem e integridade institucional — mesmo diante de vantagens significativas que a compra poderia oferecer.

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As negociações que não avançaram

Fundado por David Vélez, o Nubank viu inicialmente no negócio com o Digimais uma oportunidade de acelerar sua inserção no sistema financeiro tradicional. O banco ligado ao grupo de Edir Macedo oferecia licença bancária múltipla e um crédito tributário relevante, ativos estratégicos que poderiam antecipar etapas no processo de consolidação da fintech no mercado.

Entretanto, conforme os executivos aprofundaram a due diligence, o entusiasmo deu lugar à prudência. Segundo fontes ligadas às tratativas, a fintech concluiu que os riscos à imagem e à governança eram altos demais. A decisão foi tomada após semanas de análise de documentação contábil, compliance e de histórico societário do Digimais.


Risco reputacional pesou na decisão do Nubank

Nos bastidores, o Nubank temia que a associação com um banco controlado por um grupo religioso levantasse questionamentos sobre governança corporativa e independência institucional. O receio era de que o vínculo pudesse afetar a confiança de investidores e clientes — pilares centrais na trajetória de sucesso da empresa.

Além disso, as exigências do Banco Central em relação a ajustes contábeis e à origem de parte dos ativos do Digimais ampliaram as incertezas. A instituição exigia maior transparência e readequação em determinadas áreas operacionais antes de qualquer transferência de controle.

Fontes próximas ao processo afirmam que o Nubank preferiu preservar sua reputação, optando por seguir o caminho do crescimento orgânico, em vez de herdar uma estrutura considerada delicada pelos órgãos reguladores.


Histórico do Digimais pesou na avaliação

O histórico do banco Digimais teve papel determinante na decisão da fintech.

  • Origem: o banco surgiu a partir do antigo Banco Renner, que passou por diversas mudanças de controle e reestruturações.
  • Negociação anterior: em 2023, houve tentativa de venda ao Bluebank, avaliada em R$ 800 milhões, que também não se concretizou.
  • Resultados financeiros: o balanço de 2024 apontou lucro de R$ 53 milhões, mas o segundo semestre registrou prejuízo de R$ 45 milhões.
  • Supervisão: o banco permanece sob acompanhamento regular do Banco Central, dentro do processo de supervisão rotineira das instituições financeiras.

Esse cenário misto, com instabilidade nos números e questionamentos sobre a origem dos recursos, reforçou o posicionamento cauteloso do Nubank.


Ambipar também demonstrou interesse

O Digimais também atraiu a atenção do empresário Tércio Borlenghi Jr., fundador da Ambipar, antes de a empresa enfrentar dificuldades financeiras. Segundo fontes próximas às conversas, Borlenghi participou de duas reuniões — em maio e julho — com representantes do banco.

Uma das reuniões contou com a presença do escritório jurídico que assessora a instituição ligada a Edir Macedo, o que indicava uma etapa inicial de avaliação do negócio. Apesar disso, as tratativas não evoluíram, e o interesse esfriou antes que fosse feita qualquer proposta formal.

O episódio reforça a percepção de que, apesar dos ativos e da estrutura bancária disponível, o Digimais enfrenta resistência no mercado em função de seu histórico e de sua associação institucional.


Governança e cautela no plano do Nubank

A desistência de comprar o Digimais mostra o quanto o Nubank adota uma postura cuidadosa em suas decisões estratégicas. Mesmo com o ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, atuando hoje como chefe de políticas públicas do Nubank, a empresa manteve distância de qualquer movimento que pudesse sugerir favorecimento ou conflito de interesse.

A fintech, que construiu sua reputação com base em transparência, inovação e foco no cliente, tem preferido expandir de forma orgânica, fortalecendo áreas como crédito, seguros e investimentos, em vez de correr riscos com aquisições controversas.

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Essa abordagem também preserva a confiança de acionistas internacionais, especialmente após a listagem da empresa na Bolsa de Nova York (NYSE), onde a percepção de governança e ética corporativa é determinante para a valorização das ações.


Banco Central busca saída para o Digimais

Enquanto o Nubank encerra discretamente o assunto, o Banco Central continua buscando alternativas para o futuro do Digimais. Fontes ligadas ao regulador afirmam que há esforços para encontrar um novo controlador com capitalização sólida e credibilidade no mercado.

O desafio, no entanto, é contornar o obstáculo reputacional que se consolidou em torno da instituição. Após a desistência do Nubank, o episódio acendeu um alerta sobre como imagem e governança tornaram-se fatores determinantes nas transações financeiras de grande porte no Brasil.


Um retrato da prudência no sistema financeiro

O caso Nubank x Digimais é um exemplo emblemático de como o setor financeiro nacional amadureceu. Hoje, reputação, transparência e governança pesam tanto quanto retorno financeiro em qualquer decisão de investimento.

Para o Nubank, recuar não foi sinal de fraqueza, mas de maturidade institucional. A fintech evitou associar-se a riscos que poderiam comprometer anos de construção de credibilidade — e, ao fazer isso, reforçou sua posição como uma das instituições mais sólidas e respeitadas do mercado latino-americano.

Em um ambiente cada vez mais competitivo e fiscalizado, a lição é clara: no sistema financeiro moderno, crescer com prudência pode valer mais do que avançar a qualquer custo.

Imagem: Reprodução / Seu Crédito Digital

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Juliana Peixoto

Autor

Juliana Peixoto

Juliana Peixoto é jornalista cearense, formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo. Apaixonada por informação e escrita, está sempre em busca de novos aprendizados, experiências e vivências que ampliem sua visão de mundo. Atualmente, colabora com o portal Seu Crédito Digital, contribuindo com conteúdo informativo e acessível para os leitores.

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