O Ministério Público de São Paulo (MPSP), a Polícia Federal (PF) e a Receita Federal deram início a uma ofensiva considerada pelos próprios investigadores como uma “limpeza” no mercado financeiro. O alvo é um esquema bilionário de fraudes e lavagem de dinheiro no setor de combustíveis que teria se infiltrado no centro nervoso da economia nacional: a Avenida Faria Lima, em São Paulo, onde estão alguns dos maiores fundos de investimento do país.
Investigadores iniciam “limpeza” da Faria Lima após esquema bilionário
Operação do MPSP, PF e Receita mira fundos da Faria Lima usados para fraudes e lavagem de dinheiro ligados ao PCC.
As apurações ganharam fôlego após três operações deflagradas no fim de agosto de 2025. Documentos apreendidos, depoimentos e cruzamentos de dados apontam que o grupo criminoso, com ramificações no Primeiro Comando da Capital (PCC), utilizava estruturas sofisticadas de fundos de investimento para movimentar valores ilícitos.
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Falhas que levantaram suspeitas
De acordo com fontes ligadas à investigação, pelo menos 40 fundos de investimentos estão sob escrutínio. Juntos, eles somam cerca de R$ 30 bilhões em patrimônio. O problema, segundo os órgãos de fiscalização, está no que classificam como falhas graves de compliance.
Entre os indícios, constam análises cadastrais incompletas e a aceitação de cotistas sem capacidade financeira compatível. Muitos dos investidores, na verdade, seriam “laranjas” utilizados para encobrir os reais beneficiários.
“Os sinais eram evidentes e foram ignorados pelas gestoras”, declarou um integrante da Receita Federal sob condição de anonimato. Para os investigadores, não se trata de descuido, mas de conivência deliberada.
Ocultação em várias camadas
Um dos maiores desafios encontrados pelas autoridades foi a arquitetura financeira criada pelo esquema. As empresas de fachada investigadas, ao serem rastreadas, apontavam como proprietários fundos de investimento. Ao verificar esses fundos, descobria-se que pertenciam a outros fundos, em um ciclo quase interminável.
Esse mecanismo, descrito como “caixa-preta” da Faria Lima, criou sucessivas camadas de opacidade, atrasando o rastreamento dos verdadeiros donos dos ativos. Segundo a Receita, havia uma engrenagem voltada para dificultar qualquer tipo de fiscalização.
Estrutura do esquema: bens e negócios milionários
Patrimônio diversificado
O Ministério Público e a Receita Federal já identificaram a utilização dos fundos para aquisição de bens de alto valor e expansão de negócios estratégicos. Entre as propriedades adquiridas, constam:
- Um terminal portuário;
- Quatro usinas de álcool, além de duas em processo de compra;
- Frota de 1,6 mil caminhões destinados ao transporte de combustíveis;
- Mais de 100 imóveis, incluindo seis fazendas no interior paulista avaliadas em R$ 31 milhões e uma residência de luxo em Trancoso (BA), adquirida por R$ 13 milhões.
Esses ativos serviriam tanto para dar aparência de legalidade ao dinheiro quanto para garantir o usufruto dos líderes do esquema.
Fintechs e “contas-bolsões”
Outro ponto investigado são as chamadas “contas-bolsões”, oferecidas por algumas fintechs, que permitem depósitos e transferências sem identificação clara dos titulares. Essa ferramenta teria sido fundamental para a entrada de recursos ilícitos no sistema financeiro, posteriormente canalizados para os fundos.
Tipos de fundos usados na operação

Imobiliários e de crédito
A maior parte dos fundos mapeados é composta por fundos imobiliários, utilizados como instrumentos de ocultação patrimonial. Também foram identificados fundos de direitos creditórios, que operam com ativos como duplicatas, precatórios e debêntures.
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Multimercado e criptoativos
Outro braço da investigação envolve fundos multimercado, conhecidos pela flexibilidade. Eles permitiam aos criminosos movimentar diferentes modalidades de ativos — de renda fixa a moedas estrangeiras e criptoativos — ampliando as possibilidades de mascarar a origem ilícita do dinheiro.
Em muitos casos, os fundos eram fechados, restritos a poucos ou até mesmo a um único cotista, o que dificultava ainda mais o controle e a transparência.
Perspectivas da investigação
Pessoas físicas no alvo
Se, até agora, a apuração se concentrou nas estruturas jurídicas e nas gestoras, a nova etapa foca nas pessoas físicas que autorizaram as operações. O objetivo é esclarecer por que executivos responsáveis pelas gestoras não cumpriram com as obrigações de compliance.
Essa mudança de direção pode atingir diretamente administradores de fundos, dirigentes de gestoras e até conselheiros fiscais, abrindo a possibilidade de responsabilização criminal e administrativa.
Limpeza ou mudança estrutural?
Para os investigadores, o processo atual representa mais do que uma operação policial: trata-se de um momento de “depuração” no mercado financeiro. A expectativa é que os desdobramentos provoquem mudanças na regulação dos fundos de investimento, ampliando exigências de transparência e rastreabilidade.
No entanto, especialistas alertam que a eficácia desse movimento dependerá da capacidade de fiscalização contínua e da cooperação entre os órgãos envolvidos. “Sem mecanismos permanentes, a tendência é que o mercado continue vulnerável a esquemas semelhantes”, avalia um consultor em governança corporativa ouvido pela reportagem.
Imagem: rafapress / shutterstock.com

