Embora o Brasil tenha dado passos largos rumo à digitalização dos serviços financeiros, a implantação efetiva do Open Finance ainda encontra entraves consideráveis. Um novo levantamento realizado pelo Google Cloud em parceria com a R/GA revelou que grande parte das instituições financeiras brasileiras não está aproveitando o potencial do sistema, o que compromete diretamente a experiência do consumidor e limita os benefícios da iniciativa.
Usuários que usam Open Finance podem enfrentar problemas futuros
Falta de adesão bancária trava Open Finance e afeta experiência de clientes. Saiba mais sobre o tema.
O estudo, intitulado FinFacts, Descobertas e oportunidades que valorizam os serviços financeiros, avaliou 19 instituições financeiras entre bancos tradicionais e fintechs no período de 20 de fevereiro a 31 de março de 2025. Os resultados escancaram a defasagem do setor e sugerem que, mesmo com a regulação do Banco Central, há um “corpo mole” por parte das instituições na adoção do sistema.
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Resistência bancária dificulta adesão ao sistema

Os dados do levantamento mostram que 11 dos 19 bancos avaliados ainda não permitem a visualização de saldos de contas de outras instituições, uma funcionalidade central do Open Finance. Além disso, 6 deles não oferecem a possibilidade de fazer transações com saldo de contas externas, e apenas 4 fornecem algum benefício ou produto imediatamente após o cliente aderir ao sistema.
Esse cenário ajuda a explicar a baixa compreensão da população sobre o Open Finance. Embora 34% dos entrevistados digam conhecer ou conhecer bem o conceito, apenas 27% entendem que se trata do compartilhamento de dados entre instituições financeiras. Alarmante também é o fato de que 17% dos usuários admitiram nunca ter ouvido falar do tema.
Medo de perder protagonismo e desafios técnicos
Uma das razões para essa resistência pode estar no temor das instituições financeiras de perderem a chamada “principalidade”, ou seja, o status de banco principal do cliente. Com os brasileiros mantendo, em média, seis contas bancárias, o Open Finance intensifica a concorrência entre instituições.
Alex Hoffmann, CEO da PagBrasil, explica que, embora o Open Finance seja regulamentado, sua operação é descentralizada, o que leva a uma série de falhas de integração. “Diferente do SPI, que opera o Pix e é gerido diretamente pelo Banco Central, o Open Finance depende da conexão direta entre bancos por meio de APIs padronizadas. Cada instituição, porém, interpreta essas diretrizes de forma diferente, o que causa incompatibilidades. O resultado é um sistema que nem sempre entrega o que promete”, ressalta.
Novo modelo de negócio impõe mudanças estruturais
A transformação exigida pelo Open Finance não é apenas tecnológica, mas também cultural e estrutural. Rafael D’Ávila, head de Serviços Financeiros do Google Cloud, destaca que a regulação rigorosa no setor financeiro brasileiro contribui para a lentidão na adoção de novas tecnologias.
“Entender [os motivos por trás do atraso de algumas instituições financeiras no sistema] é complexo. Passa por repensar o modelo de negócios, já que, até então, o cliente era meu e boa parte das receitas eu, banco, fazia por meio de tarifas. E agora passo a abrir o nome desse cliente e a disputar sua atenção com outras instituições, porque existe a portabilidade. E ainda é preciso conciliar essa questão com as demais agendas, de regulação”, explica D’Ávila.
Marisa Kinoshita, Head de Marketing do Google Cloud no Brasil, aponta ainda para a estrutura tradicional das instituições. “Os bancos sempre foram voltados ao produto e se estruturam dessa forma. A pesquisa mostrou que 4 dos 19 bancos ainda exigem um novo formulário para o cliente quando ele pede um cartão de crédito. Isso mostra a dificuldade de integrar as áreas, que se dividem em produtos. O Open Finance coloca o cliente totalmente no centro, e os sistema financeiro não se estruturou assim”, observa.
Contratação de serviços ainda é limitada nos apps
Além da má implementação do Open Finance, o estudo também revelou falhas na experiência digital oferecida pelos bancos. Entre os principais gargalos estão:
- Metade dos bancos ainda não permite abertura de conta em tempo real;
- Duas instituições levam mais de 72 horas para concluir o processo;
- Um terço não ativa o cartão virtual antes do envio físico;
- Cinco instituições não sugerem Pix a partir de chave copiada;
- Oito não oferecem um processo seguro e rápido para trocar de dispositivo;
- Dezesseis não exigem nova autenticação após o bloqueio da tela do celular.
Essas limitações contrastam com a crescente exigência dos consumidores por experiências ágeis e intuitivas. “Os consumidores estão mais exigentes, querendo mais rapidez e agilidade e com uma preferência cada vez maior pela contratação de serviços financeiros online”, afirma D’Ávila.
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Inteligência artificial como aliada da transformação

O levantamento também revelou que muitos bancos ainda engatinham no uso de inteligência artificial (IA) para aprimorar a experiência dos clientes. Das instituições analisadas:
- 5 não utilizam linguagem natural em seus chatbots;
- 6 não entregam resultados relevantes em buscas semânticas nos aplicativos;
- 11 não oferecem produtos personalizados no primeiro mês de relacionamento com o novo cliente.
Para Marisa Kinoshita, é essencial que os bancos olhem para a IA como uma ferramenta estratégica. “Diante de todos esses desafios e a competição crescente no setor financeiro, a IA atua como uma grande aliada para oferecer experiências cada vez mais intuitivas, personalizadas e seguras, o que pode ser um diferencial para definir o nível de relacionamento que o cliente terá com seu banco ou fintech”, defende.
O risco de ficar para trás
A resistência de parte do sistema financeiro à adoção do Open Finance compromete a inovação no setor e pode afetar negativamente milhões de brasileiros. A combinação de estruturas antigas, medo da concorrência e falhas técnicas impede que os consumidores aproveitem ao máximo os benefícios do compartilhamento de dados entre instituições. Ao mesmo tempo, a pressão por experiências digitais modernas só aumenta, impulsionada pelo avanço de fintechs e a demanda por soluções mais eficientes.
É chegada a hora de as instituições repensarem suas estratégias e adotarem de forma mais comprometida tecnologias como Open Finance e inteligência artificial, não apenas por uma questão de inovação, mas de sobrevivência em um mercado cada vez mais competitivo.
Com informações de: InfoMoney
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