Uma nova ofensiva contra o crime organizado revelou a dimensão de um sofisticado esquema de lavagem de dinheiro que teria sido utilizado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) para movimentar bilhões de reais por meio de instituições financeiras digitais. A Operação Fluxo Oculto, deflagrada nesta semana por uma força-tarefa composta por diversos órgãos de fiscalização e segurança pública, identificou movimentações suspeitas que somam R$ 26 bilhões entre 2022 e 2024.
Investigação aponta movimentação de R$ 1 bilhão em dinheiro vivo por fintechs ligadas ao PCC
Operação Fluxo Oculto investiga fintechs ligadas à lavagem de dinheiro do PCC. Esquema movimentou R$ 26 bilhões e usou criptoativos.
Segundo autoridades envolvidas na investigação, parte dos recursos teria origem em atividades criminosas ligadas ao tráfico de drogas, tráfico de armas e adulteração de combustíveis. O caso também trouxe novos questionamentos sobre os mecanismos de controle utilizados por fintechs e instituições de pagamento que operam no sistema financeiro brasileiro.
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O que é a Operação Fluxo Oculto?

A Operação Fluxo Oculto é uma nova fase das investigações iniciadas após a Operação Carbono Oculto, realizada anteriormente para combater esquemas ligados à adulteração de combustíveis e importação irregular de derivados de petróleo.
As apurações apontam que organizações criminosas continuaram utilizando empresas do setor financeiro para ocultar a origem de recursos ilícitos mesmo após mudanças regulatórias implementadas pelo Banco Central.
A ação mobilizou o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), a Receita Federal, a Agência Nacional do Petróleo (ANP), a Secretaria da Fazenda de São Paulo, a Procuradoria-Geral do Estado, a Polícia Civil e a Polícia Militar.
Ao todo, foram cumpridos 55 mandados de busca e apreensão nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná e Mato Grosso do Sul.
Como funcionava o esquema investigado?
De acordo com os investigadores, a organização criminosa utilizava fintechs e outras estruturas financeiras para movimentar grandes volumes de dinheiro sem levantar suspeitas imediatas.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que algumas das instituições investigadas chegaram a movimentar aproximadamente R$ 1 bilhão em dinheiro em espécie para o PCC.
O valor chamou a atenção dos órgãos de inteligência financeira por ser incompatível com o perfil esperado para operações de instituições de pagamento modernas, que normalmente operam de forma predominantemente digital.
Contas-bolsão estavam no centro das investigações
Uma das principais ferramentas utilizadas no esquema seriam as chamadas contas-bolsão.
Esse modelo permitia concentrar recursos de diversos clientes em uma única conta utilizada para compensação no Sistema Financeiro Nacional (SFN). A prática dificultava a rastreabilidade das operações e reduzia a transparência sobre a origem e o destino dos recursos.
Após a Operação Carbono Oculto, o Banco Central endureceu as regras para esse tipo de movimentação e passou a exigir maior detalhamento das informações prestadas pelas instituições financeiras.
Segundo o governo, foi justamente a partir dessas novas exigências regulatórias que os investigadores conseguiram identificar movimentações consideradas incompatíveis com a atividade declarada pelas empresas.
Fintechs na mira da investigação
Seis fintechs tornaram-se alvo direto da operação.
Algumas delas estariam localizadas na Avenida Faria Lima, em São Paulo, região conhecida por concentrar importantes instituições financeiras, fundos de investimento e empresas do mercado de capitais.
Segundo a Receita Federal, três dessas empresas não prestaram as informações obrigatórias sobre investimentos e movimentações financeiras após as mudanças regulatórias implementadas em 2025.
Outras três declararam movimentações próximas de R$ 8 bilhões apenas ao longo daquele ano.
Os investigadores apontam que foram identificadas operações suspeitas envolvendo depósitos frequentes em dinheiro vivo e a abertura de contas em outras instituições de pagamento, criando camadas adicionais de ocultação financeira.
Criptomoedas também foram utilizadas

As investigações revelaram ainda o uso de ativos digitais para lavagem de dinheiro.
Segundo a Receita Federal, aproximadamente R$ 365 milhões em criptoativos foram movimentados dentro da estrutura investigada.
O uso de criptomoedas tem se tornado um dos principais desafios para autoridades de combate à lavagem de dinheiro em diversos países. Embora a tecnologia seja legal e amplamente utilizada para investimentos, criminosos podem tentar explorar sua natureza descentralizada para dificultar o rastreamento de recursos ilícitos.
Nos últimos anos, órgãos como o Banco Central, a Receita Federal e o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) ampliaram mecanismos de monitoramento envolvendo operações com ativos digitais.
Esquema de combustíveis adulterados continua sob investigação
Além da lavagem de dinheiro, a Operação Fluxo Oculto investiga a continuidade de um esquema relacionado à adulteração de combustíveis.
Segundo as apurações, empresas de fachada eram utilizadas para adquirir oficialmente solventes e derivados petroquímicos. Na prática, esses produtos seriam desviados para abastecer um mercado clandestino de combustíveis adulterados.
Uso de empresas-fantasma e laranjas
As investigações apontam que os envolvidos abriram empresas em diversos estados utilizando pessoas em situação de vulnerabilidade social, familiares e até indivíduos presos como sócios formais.
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Essas empresas apareciam nos registros oficiais como compradoras legítimas de solventes, mas serviriam apenas para dar aparência legal às operações.
Esse tipo de prática dificulta a identificação dos verdadeiros responsáveis pelos esquemas e é frequentemente utilizado em crimes financeiros de grande porte.
Fundos de investimento também entraram na investigação
Outro ponto que chamou atenção dos investigadores foi a presença de fundos de investimento ligados aos suspeitos.
Quatro fundos passaram a ser alvo direto da operação, além de duas gestoras e duas administradoras de recursos.
Segundo a promotoria, os fundos investigados acumulam patrimônio estimado em R$ 205 milhões e apresentaram crescimento superior a 200% em pouco mais de um ano.
As autoridades agora buscam identificar se esses veículos financeiros foram utilizados para ocultação patrimonial, lavagem de dinheiro ou integração de recursos provenientes de atividades ilícitas ao mercado formal.
O que a operação representa para o combate ao crime organizado?
Especialistas em segurança pública apontam que o combate às finanças das organizações criminosas tem se tornado uma das estratégias mais eficazes para enfraquecer grandes facções.
Em vez de focar apenas na repressão operacional, as autoridades têm ampliado o rastreamento de fluxos financeiros, patrimônio e investimentos que sustentam as atividades ilegais.
Segundo o Ministério da Fazenda, o objetivo é promover uma espécie de “asfixia financeira” das organizações criminosas, dificultando sua capacidade de expandir operações, financiar atividades ilícitas e ocultar recursos.
Próximos passos da investigação
A Operação Fluxo Oculto ainda está em andamento e novas fases não estão descartadas.
Os materiais apreendidos durante os mandados de busca e apreensão serão analisados pelas autoridades para identificar outros envolvidos, possíveis ramificações do esquema e eventuais conexões com empresas ou instituições financeiras adicionais.
O caso também pode resultar em novas medidas regulatórias voltadas ao fortalecimento da fiscalização sobre fintechs, instituições de pagamento, fundos de investimento e operações com criptoativos.
A investigação reforça um movimento crescente das autoridades brasileiras de monitorar com maior rigor estruturas financeiras complexas utilizadas para ocultar recursos ilícitos, especialmente aquelas ligadas ao crime organizado e a esquemas de lavagem de dinheiro em larga escala.
Imagem: Reprodução
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