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Mudança de hábito leva usuários na Europa a buscar alternativas ao Google

Parlamento Europeu passou a usar o Qwant como buscador padrão. Entenda o que muda e por que a decisão reforça o debate sobre soberania.

Vitória MonckesPor Vitória Monckes6 min de leitura
Mudança de hábito leva usuários na Europa a buscar alternativas ao Google

O Parlamento Europeu deu um passo simbólico, mas significativo, em direção à chamada soberania digital. Desde 4 de junho, computadores utilizados por deputados e servidores da instituição passaram a utilizar o buscador francês Qwant como mecanismo de pesquisa padrão nos navegadores Edge e Firefox, substituindo o Google.

Embora os usuários continuem livres para acessar qualquer outro serviço de busca, a mudança representa muito mais do que uma simples alteração de configuração. Ela sinaliza uma preocupação crescente da União Europeia com a dependência de grandes empresas estrangeiras para operar serviços considerados estratégicos, como armazenamento de dados, computação em nuvem, sistemas operacionais e ferramentas de pesquisa.

A decisão acontece em um momento em que governos europeus intensificam discussões sobre autonomia tecnológica, segurança digital e redução da dependência de fornecedores externos, especialmente dos Estados Unidos.

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Imagem: artjazz/Shutterstock.com

O que mudou no Parlamento Europeu

A partir de 4 de junho, o Qwant passou a ser o mecanismo de busca configurado automaticamente nos computadores utilizados dentro do Parlamento Europeu.

Na prática, isso significa que:

  • pesquisas feitas diretamente pela barra do navegador são encaminhadas ao Qwant;
  • usuários continuam podendo acessar o Google ou qualquer outro buscador manualmente;
  • a alteração não impede a utilização de serviços de outras empresas.

A medida é facilmente reversível para cada usuário, mas possui forte valor institucional ao priorizar uma solução desenvolvida na Europa.

O que é o Qwant

O Qwant é um mecanismo de busca criado na França com foco em privacidade e proteção de dados dos usuários.

Entre suas principais características estão:

  • promessa de não rastrear usuários para fins publicitários;
  • menor coleta de dados pessoais;
  • conformidade com as normas europeias de proteção de dados;
  • desenvolvimento sediado na União Europeia.

Ao longo de sua trajetória, porém, o buscador enfrentou desafios para competir com gigantes como Google e Bing.

Durante parte de sua história, o próprio Qwant utilizou infraestrutura de pesquisa fornecida pela Microsoft para complementar seus resultados, evidenciando a complexidade de desenvolver um mecanismo de busca totalmente independente.

Por que a União Europeia busca maior soberania digital

união europeia UE
Imagem: Reprodução

A decisão do Parlamento Europeu está inserida em um debate mais amplo sobre soberania tecnológica.

Nos últimos anos, a União Europeia tornou-se referência mundial na criação de normas para o ambiente digital, aprovando legislações importantes sobre proteção de dados, inteligência artificial, concorrência e responsabilidade das plataformas.

Ao mesmo tempo, boa parte da infraestrutura utilizada por governos, empresas e instituições europeias continua pertencendo a grandes companhias estrangeiras.

Essa realidade levanta preocupações em diferentes áreas.

Segurança dos dados

Órgãos públicos armazenam informações sensíveis em plataformas desenvolvidas por empresas de outros países.

Em cenários de conflitos diplomáticos ou mudanças regulatórias, essa dependência pode representar riscos adicionais para governos e cidadãos.

Competitividade econômica

A liderança tecnológica global concentra receitas, inovação e investimentos em poucos países.

Ao depender majoritariamente de soluções externas, a Europa reduz sua capacidade de desenvolver empresas locais capazes de competir internacionalmente.

Autonomia política

Especialistas também apontam que controlar parte da infraestrutura digital é uma questão estratégica.

Assim como energia, telecomunicações e sistemas financeiros são considerados setores críticos, plataformas digitais passaram a integrar o conjunto de ativos fundamentais para a soberania dos Estados.

A Europa regula, mas ainda depende de tecnologia estrangeira

A União Europeia consolidou uma posição de destaque na criação de regras para o ambiente digital.

Entre os marcos regulatórios estão:

  • o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (GDPR);
  • a Lei dos Mercados Digitais (DMA);
  • a Lei dos Serviços Digitais (DSA);
  • o Regulamento Europeu de Inteligência Artificial (AI Act).

Essas normas estabeleceram padrões que influenciam empresas em diversos países.

Entretanto, especialistas observam que regulamentar grandes empresas é diferente de possuir alternativas competitivas produzidas dentro do próprio continente.

Grande parte dos sistemas utilizados por órgãos públicos europeus continua baseada em soluções desenvolvidas por empresas norte-americanas, incluindo serviços de computação em nuvem, sistemas operacionais, plataformas de produtividade e mecanismos de busca.

Um estudo reforçou essa preocupação

Um estudo solicitado pelo próprio Parlamento Europeu apontou que empresas dos Estados Unidos dominam importantes segmentos da infraestrutura digital utilizada na União Europeia.

Essa concentração inclui áreas como:

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  • computação em nuvem;
  • software corporativo;
  • plataformas digitais;
  • serviços de infraestrutura tecnológica.

O levantamento reforça o entendimento de que a dependência deixou de ser apenas econômica e passou a ser tratada como uma questão estratégica para o bloco.

O desafio de criar alternativas europeias

Apesar da mudança para o Qwant, construir uma infraestrutura digital independente continua sendo uma tarefa complexa.

Criar um mecanismo de busca competitivo exige investimentos bilionários em:

  • centros de processamento de dados;
  • inteligência artificial;
  • infraestrutura de indexação da internet;
  • atualizações constantes dos algoritmos.

Mesmo empresas consolidadas enfrentam dificuldades para disputar espaço com gigantes que acumulam décadas de investimentos e enorme participação de mercado.

Por isso, o Qwant e o buscador alemão Ecosia anunciaram iniciativas conjuntas para desenvolver um índice de pesquisa europeu, reduzindo gradualmente a dependência de tecnologias externas.

O que essa decisão significa na prática

A adoção do Qwant não altera significativamente a rotina dos usuários nem modifica, por si só, a estrutura tecnológica da União Europeia.

Seu principal impacto está no aspecto institucional.

A medida demonstra que autoridades europeias pretendem incentivar o uso de soluções desenvolvidas no continente sempre que houver alternativas viáveis.

Também reforça uma estratégia de longo prazo voltada para:

  • estimular empresas europeias de tecnologia;
  • diversificar fornecedores;
  • reduzir riscos associados à concentração do mercado digital;
  • fortalecer a autonomia tecnológica do bloco.

O que o Brasil pode observar desse movimento

O debate sobre soberania digital também ganha espaço no Brasil.

Nos últimos anos, iniciativas nacionais demonstraram que é possível desenvolver soluções tecnológicas de grande escala.

Um dos principais exemplos é o Pix, criado pelo Banco Central, que transformou o sistema de pagamentos instantâneos e reduziu custos para consumidores e empresas.

Embora sistemas financeiros e mecanismos de busca pertençam a contextos diferentes, ambos ilustram como investimentos em infraestrutura própria podem ampliar a autonomia tecnológica de um país.

Além disso, o avanço das negociações comerciais entre União Europeia e Mercosul pode abrir oportunidades para cooperação em inovação, tecnologia e desenvolvimento digital, ampliando a diversificação de parceiros estratégicos.

Imagem: Reprodução

INFORMAÇÕES ATUALIZADAS 2026:

Vitória Monckes

Autor

Vitória Monckes

Vitória Monckes é turismóloga, comissária de voo e futura enfermeira. No Seu Crédito Digital, atua como redatora especializada na tradução clara e acessível de políticas públicas, direitos sociais, previdência, programas assistenciais e medidas econômicas. Sua missão é transformar temas governamentais complexos em conteúdos compreensíveis e úteis para os brasileiros, contribuindo para decisões mais conscientes no dia a dia.

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