Uma pesquisa realizada pela XP com 20 gestoras de fundos multimercados macro mostrou uma deterioração significativa da percepção sobre a economia brasileira. Entre 4 e 11 de setembro, a parcela de gestores com uma visão negativa sobre o cenário doméstico chegou a 55%, maior nível registrado desde o início da série.
O levantamento também mostrou uma mudança importante nas estratégias de investimento. Apesar do aumento do pessimismo em relação à economia, os gestores não ampliaram as apostas contra a Bolsa brasileira. Pelo contrário: a parcela de fundos com posições compradas em ações nacionais aumentou.
O resultado revela um cenário em que a avaliação sobre o crescimento econômico se tornou mais cautelosa, enquanto os profissionais mantêm exposição a ativos brasileiros diante das oportunidades oferecidas pelos preços e pela perspectiva de redução dos juros.
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Um dos principais sinais de deterioração apareceu nas projeções para o Produto Interno Bruto (PIB). A expectativa média das gestoras consultadas pela XP para o crescimento da economia brasileira em 2026 caiu de 2% para 1,8%.
Segundo a XP, essa foi a maior revisão negativa já registrada em sua pesquisa com gestores multimercados macro. O número ficou abaixo da projeção do mercado registrada no Boletim Focus divulgado em 14 de setembro, que apontava crescimento de 1,93% para o PIB brasileiro em 2026.
A revisão indica que os gestores enxergavam uma desaceleração da atividade mais intensa do que a prevista anteriormente. Juros ainda elevados, crédito caro e perda de ritmo em setores mais sensíveis às condições financeiras estão entre os fatores que ajudam a explicar a cautela.
A própria XP também vinha apontando sinais de desaceleração da economia brasileira antes do esperado em suas análises macroeconômicas.
Percepção negativa chega ao maior nível da série
A parcela de gestores com visão negativa sobre a economia brasileira passou a representar 55% dos entrevistados. Ao mesmo tempo, a percepção positiva apresentou alguma recuperação, subindo de 8% para 20%.
O resultado mostra que o pessimismo não foi acompanhado por uma saída generalizada dos ativos brasileiros. Na prática, os gestores parecem estar diferenciando a avaliação sobre o desempenho da economia da análise sobre oportunidades nos mercados financeiro e acionário.
Câmbio passa a ser tratado com mais cautela
A mudança mais evidente ocorreu nas posições relacionadas ao real. A parcela de gestoras neutras em relação à moeda brasileira subiu de 21% para 60%, o maior percentual da série.
Enquanto isso, as posições vendidas em real recuaram de 42% para apenas 10%. As posições compradas também diminuíram, de 38% para 30%.
O movimento representa uma redução das apostas direcionais no câmbio. Em vez de apostar fortemente na valorização ou desvalorização da moeda brasileira, os gestores passaram a adotar uma postura mais equilibrada.
No dólar, o movimento foi semelhante. As posições compradas caíram de 46% para 20%, enquanto as posições vendidas aumentaram de 21% para 35%. A neutralidade passou de 33% para 45%.
A leitura sugere que o mercado estava menos disposto a assumir grandes posições direcionais em moedas diante das incertezas sobre juros, inflação e atividade econômica.
Bolsa brasileira desafia o pessimismo
Um dos pontos mais curiosos da pesquisa aparece na Bolsa. Mesmo com a piora da avaliação sobre a economia doméstica, a parcela de gestores com posições compradas em ações brasileiras aumentou de 63% para 70%.
Ao mesmo tempo, as posições vendidas, que correspondiam a 17% em agosto, foram zeradas pela primeira vez na série da pesquisa.
Isso significa que o pessimismo macroeconômico não se transformou automaticamente em uma aposta contra o mercado acionário brasileiro.
Uma possível explicação está na diferença entre avaliar a economia como um todo e analisar empresas individualmente. Companhias exportadoras, empresas com elevada geração de caixa ou negócios menos dependentes de crédito podem apresentar perspectivas diferentes das observadas para o conjunto da economia.
Cenário externo melhora na avaliação dos fundos
Enquanto a percepção sobre o Brasil piorou, a avaliação sobre a economia internacional apresentou melhora.
A parcela de gestores com visão positiva sobre o cenário global aumentou de 33% para 40%. Já a fatia com avaliação negativa caiu de 21% para 10%, atingindo o menor nível desde março.
Nos mercados acionários internacionais, as posições compradas em ações dos Estados Unidos recuaram de 54% para 50%. Em contrapartida, a exposição comprada em ações de outros mercados, excluindo os EUA, aumentou de 17% para 25%.
O movimento indica uma tentativa de diversificação geográfica dos portfólios em um ambiente no qual os gestores passaram a buscar oportunidades fora do mercado americano.
Inflação e Selic entram no radar

A pesquisa da XP também mostrou uma pequena melhora nas expectativas para a inflação. A projeção para o IPCA no fim de 2026 caiu de 5,01% para 4,97%.
O número estava próximo da projeção do Focus de então. Na pesquisa divulgada em 14 de setembro, o mercado reduziu a estimativa de inflação de 2026 para 4,90%.
Naquele momento, 95% dos gestores consultados pela XP esperavam que o Copom reduzisse a Selic de 14% para 13,75%.
A previsão acabou se confirmando. Em 16 de setembro, o Banco Central reduziu a taxa básica em 0,25 ponto percentual, para 13,75%, no quinto corte consecutivo. O Copom, porém, manteve uma postura cautelosa sobre os próximos passos e destacou a necessidade de acompanhar a evolução da inflação e da atividade.
Para o fim de 2026, a pesquisa da XP apontava Selic em 13,5%, abaixo da projeção de 13,75% que constava no Focus no período do levantamento.
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