Os dados do terceiro trimestre divulgados nesta quinta-feira indicam que a economia brasileira apresenta crescimento desigual, alimentando expectativas de corte da taxa básica de juros, Selic, no início de 2026.
Corte da Selic em Janeiro: o BC vai reduzir a taxa de juros? chance volta ao radar
PIB cresce 0,1% no 3º trimestre, refletindo desaceleração desigual; expectativa de corte da Selic em 2026 impacta inflação e investimentos.
Sob o efeito de uma política monetária altamente restritiva, com a Selic a 15%, o Produto Interno Bruto (PIB) avançou apenas 0,1% no período, abaixo do esperado.
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Crescimento desigual entre setores
Segundo Tatiana Pinheiro, economista-chefe da Galapagos Capital, a economia mostra sinais mistos. “O PIB trouxe uma economia de lado. Tem desaceleração na economia total, mas essa desaceleração é vista em alguns setores e em outros não”, afirmou. O comportamento desigual gera dúvidas sobre a intensidade real da desaceleração econômica.
No setor industrial, o crescimento chegou a 0,8% no terceiro trimestre, enquanto a construção civil, tradicionalmente sensível a políticas monetárias restritivas, avançou 1,3% após retração nos dois trimestres anteriores. Já os investimentos também mostraram avanço de 0,9%, recuperando-se de queda de 1,5% no segundo trimestre.
Por outro lado, os setores de serviços e o consumo das famílias registraram crescimento de apenas 0,1% cada, indicando os efeitos do aperto monetário. A disparidade entre setores ressalta que a desaceleração não é uniforme, o que exige cautela por parte do Banco Central na tomada de decisões sobre a política monetária.
Expectativa de corte da Selic
O mercado financeiro já precifica a possibilidade de cortes da Selic no início do próximo ano. Após a divulgação do PIB, a curva a termo indicava 84% de probabilidade de redução de 25 pontos-base na primeira reunião de política monetária de 2026, acima dos 78% registrados na sessão anterior.
Analistas da Galapagos Capital e do banco Inter projetam cortes na Selic em janeiro, variando entre 0,25 e 0,50 ponto percentual. Mesmo assim, segundo André Valério, economista sênior do Inter, a tendência de desaceleração econômica deve persistir. “Mesmo com cortes ano que vem, vemos a política monetária desacelerando a economia de forma comedida, buscando equilíbrio enquanto a inflação perde força”, destacou.
Já Roberto Padovani, economista-chefe do banco BV, projeta início do ciclo de afrouxamento monetário apenas em março de 2026, considerando maior cautela do Banco Central. “A economia está desacelerando de maneira desigual, e o BC vai esperar mais informações, permitindo que essa desaceleração se espalhe antes de agir”, explicou.
Cenário internacional e impactos
O contexto externo também deve influenciar a política monetária brasileira. A desaceleração na Europa e na Ásia, combinada com decisões de juros nos Estados Unidos, cria um cenário de incerteza. O Federal Reserve deve anunciar novo corte nos juros, refletindo desaceleração do emprego e da atividade econômica norte-americana.
Padovani alerta ainda para a volatilidade nos mercados acionários, especialmente nos EUA, que podem afetar o crescimento global e reduzir a riqueza disponível. A eleição presidencial brasileira em 2026 adiciona outro elemento de incerteza. “Se há dificuldades em entender o estado da economia global, a dinâmica dos mercados e o cenário eleitoral, os mercados ficam presos aos dados de curto prazo. 2026 deve ser um ano de volatilidade financeira”, ressaltou.
Setores e indicadores econômicos
Indústria e construção civil
A indústria teve crescimento de 0,8% no terceiro trimestre, puxada por segmentos ligados à produção de bens duráveis e materiais de construção. A construção civil surpreendeu positivamente com expansão de 1,3%, refletindo ajustes na demanda e investimentos públicos e privados em obras de infraestrutura.
Serviços e consumo das famílias
Os serviços, que representam parcela significativa do PIB, registraram avanço de apenas 0,1%, impactados por custo de crédito elevado e menor dinamismo no consumo das famílias. O consumo, apesar de sinais de recuperação pontuais, permanece frágil devido à alta Selic e inflação ainda relevante.
Investimentos
Os investimentos cresceram 0,9%, sinalizando que empresas retomam projetos após cortes temporários. Essa recuperação parcial ocorre mesmo diante de juros elevados, evidenciando setores mais resilientes ou apoiados por incentivos fiscais e linhas de crédito específicas.
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Expectativa de inflação e política monetária
O Banco Central mantém foco na inflação como prioridade, utilizando a Selic como instrumento para manter o índice dentro da meta. A expectativa é que cortes graduais possam estimular setores mais sensíveis, como construção e investimentos, sem desestabilizar preços.
Apesar de cortes em 2026, analistas projetam que a política monetária continuará exercendo efeito desacelerador, porém de forma mais controlada. A estabilidade do consumo e a manutenção de investimentos dependem de sinais claros do mercado sobre a evolução da inflação e da Selic futura.
Impacto nos mercados e no crédito
A perspectiva de corte da Selic afeta diretamente os mercados financeiros e o custo do crédito. Juros menores tendem a estimular empréstimos, financiamentos e investimentos corporativos, ao mesmo tempo em que podem reduzir a atratividade de aplicações de renda fixa de curto prazo.
O cenário de volatilidade financeira, combinado com incertezas eleitorais e internacionais, exige cautela dos investidores. Estratégias de diversificação e monitoramento constante do cenário macroeconômico tornam-se essenciais para reduzir riscos.
Perspectivas para 2026
Para 2026, a economia brasileira deve apresentar crescimento modesto, com desaceleração desigual entre setores. A indústria e investimentos devem continuar apresentando resiliência, enquanto serviços e consumo das famílias devem acompanhar efeitos da política monetária restritiva e cenários externos incertos.
O Banco Central precisará equilibrar cortes graduais da Selic com manutenção do controle inflacionário, considerando a volatilidade internacional e a dinâmica eleitoral. A expectativa é que ajustes suaves promovam crescimento equilibrado, evitando crises de liquidez e sobreaquecimento em segmentos específicos.
O mercado financeiro deverá manter atenção constante aos dados de curto prazo e às decisões do BC, adaptando estratégias de investimento e consumo conforme sinais econômicos e financeiros ao longo do ano.
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