A discussão sobre o piso salarial para motoristas de aplicativos ganhou força após a Advocacia-Geral da União (AGU) defender no Supremo Tribunal Federal (STF) a criação de mecanismos de proteção para esses trabalhadores. A ideia é estabelecer um pagamento mínimo, ainda que sem vínculo formal com plataformas como Uber, 99 e Rappi.
Motoristas da Uber agora terão salário? Confira o piso
A AGU defende no STF a criação de um piso salarial e novas regras trabalhistas para motoristas de aplicativos como Uber e Rappi.
A proposta reacende o debate sobre o enquadramento jurídico do trabalho nas plataformas digitais, a natureza da autonomia dos motoristas e as condições mínimas para garantir segurança financeira e previdenciária.
AGU propõe proteção mínima

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A AGU argumenta que a criação de um piso não se trata apenas de fixar um valor base, mas de instituir um conjunto de direitos trabalhistas e sociais. Entre as medidas defendidas estão:
- Limitação das horas de conexão diária;
- Contribuições à Previdência Social;
- Seguro de vida ou invalidez;
- Períodos de descanso obrigatórios;
- Acesso à capacitação e formação profissional.
Essas diretrizes seguem o Projeto de Lei Complementar nº 12/2024, que regulamenta o trabalho intermediado por aplicativos de transporte. Contudo, o STF suspendeu por 30 dias o julgamento de ações envolvendo as empresas Uber e Rappi, a fim de aprofundar a análise dos impactos da medida.
A complexidade da decisão do STF
A suspensão reflete a complexidade do tema. O Supremo precisa responder questões centrais:
- O motorista de aplicativo é autônomo ou empregado?
- Há subordinação entre o trabalhador e a plataforma?
- Como garantir proteção sem inviabilizar o modelo de negócio digital?
Enquanto não há decisão definitiva, o impasse gera incerteza jurídica tanto para empresas quanto para trabalhadores. Para a categoria, um piso salarial pode representar maior estabilidade. Já as plataformas alertam para os riscos econômicos e o aumento de custos.
Impactos econômicos da criação de um piso mínimo
De acordo com estudos setoriais, a adoção de um salário mínimo por hora poderia elevar os custos operacionais das empresas. A Uber estima que uma mudança no regime trabalhista poderia reduzir até 52% das vagas e aumentar em 34% o valor das corridas.
As plataformas argumentam que a flexibilidade é o principal atrativo do modelo. Já os motoristas reivindicam garantias básicas que evitem perdas em períodos de baixa demanda.
Vantagens esperadas pelos motoristas
- Previsibilidade financeira mensal;
- Redução da vulnerabilidade econômica;
- Contribuições previdenciárias automáticas;
- Proteção em caso de acidentes ou doenças.
Riscos apontados pelas plataformas
- Redução do número de motoristas ativos;
- Maior custo para o passageiro;
- Menor flexibilidade na jornada de trabalho;
- Complexidade tributária e burocrática.
Estimativas para o piso
| Tipo de cálculo | Valor sugerido | Observações |
|---|---|---|
| Por hora trabalhada | R$ 32,09 | Inclui R$ 8,02 de remuneração + R$ 24,07 para cobrir custos (combustível, manutenção, seguro etc.) |
| Por corrida | R$ 10,00 + R$ 2,00 por km + R$ 0,21 por minuto | Modelo variável por categoria de serviço (ex: UberX, Comfort) |
| Rendimento médio atual (SP) | R$ 6.428 (bruto) / R$ 2.502 (líquido) | Motoristas trabalham cerca de 60 horas semanais |
| Rendimento médio (Brasília) | R$ 1.320 (líquido) | Jornada média de 50 horas por semana |
Projeto de Lei Complementar nº 12/2024: o que propõe
O PLP 12/2024, em análise no Congresso Nacional, é a principal referência para o debate. Ele propõe:
- Um modelo híbrido de relação de trabalho, com direitos específicos sem vínculo empregatício formal;
- Criação de um conselho nacional para definir pisos e reajustes;
- Contribuições simplificadas à Previdência;
- Seguro obrigatório contra acidentes;
- Transparência na remuneração por corrida e nos critérios de bloqueio de contas.
O objetivo é reconhecer o trabalho via aplicativos como uma categoria intermediária, situada entre o autônomo e o empregado com carteira assinada.
Como funciona em outros países
O Brasil não é o único a discutir o tema. Diversas nações já implementaram modelos semelhantes:
Reino Unido
A Suprema Corte britânica reconheceu motoristas da Uber como “workers”, categoria intermediária entre autônomos e empregados. Eles recebem salário mínimo por hora, férias remuneradas e contribuições sociais.
Espanha
Adotou a chamada “Lei Rider”, que reconhece vínculo de emprego formal entre entregadores e plataformas. Isso levou à redução no número de trabalhadores ativos, mas ampliou a proteção legal.
Estados Unidos
A Califórnia criou uma norma permitindo que motoristas sejam autônomos com direitos garantidos, como seguro e piso mínimo por tempo conectado ao aplicativo.
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Esses exemplos mostram que a tendência global é buscar equilíbrio entre liberdade e segurança, sem eliminar a natureza digital das plataformas.
Próximos passos do julgamento no STF

O STF deverá retomar o julgamento em novembro de 2025, após o prazo de suspensão. Até lá, a AGU e as empresas devem apresentar novos dados econômicos e sociais.
A decisão será crucial para definir como o Brasil vai enquadrar o trabalho por aplicativo — se como uma forma autônoma regulamentada ou como um emprego formal.
FAQ – Perguntas frequentes
1. Os motoristas da Uber vão receber salário fixo?
Ainda não. O STF está analisando a proposta. Caso o piso seja aprovado, ele funcionará como um valor mínimo por hora ou corrida, não como um salário mensal fixo.
2. A medida cria vínculo empregatício com a Uber?
Não necessariamente. A proposta da AGU e do PLP 12/2024 prevê proteção mínima sem vínculo formal, mantendo a autonomia dos motoristas.
3. Qual o valor estimado do piso?
Estudos indicam cerca de R$ 32,09 por hora trabalhada, incluindo custos do motorista, mas o valor ainda pode variar conforme cidade e categoria do serviço.
4. Quando o STF deve decidir sobre o tema?
O julgamento foi suspenso por 30 dias e deve ser retomado até o final de novembro de 2025.
Considerações finais
A discussão sobre o piso salarial dos motoristas de aplicativo é um marco na tentativa de adaptar as leis trabalhistas à economia digital.
Enquanto o STF avalia o equilíbrio entre liberdade e proteção, motoristas esperam que a nova regulamentação traga mais dignidade, previsibilidade e segurança — sem eliminar a flexibilidade que tornou o setor tão popular no Brasil.
